Textos

Os Veteranos

Dizem que o Brasil é um dos países em que os filhos mais demoram para deixar a casa dos pais. Muitos dos que saem, acabam continuando dependentes da família de origem de alguma forma, seja por meio de uma ajuda de custo mensal, seja pelas visitas da mãe a cada 15 dias para lavar a roupa suja. Por que isso acontece? Eu conheci muitas pessoas de 30, 40 anos que ainda moravam na mesma casa ou terreno da família de origem, mesmo tendo constituído uma nova, com cônjuges e filhos.

Poderíamos dividir a população adulta brasileira em duas: Aqueles que ainda moram com os pais e aqueles que conseguiram certo grau de independência. Mas nesse texto, é sobre outro grupo da população jovem que eu gostaria de falar. Aqueles que conseguiram sair de casa, conquistaram o seu grau de independência, mas então por escolha ou pelo destino, foram obrigados a retornar para suas casas de origem. Eu me encontrei com algumas dessas criaturas durante minha formação na faculdade. Mas nunca imaginei que seria uma delas.

Mark, meu amigo mais antigo, mudou-se da casa dos pais em Araguari, interior de Minas Gerais para Campinas. Morou sozinho em um apartamento por um tempo, depois com um amigo. Quase enlouqueceu, mas depois que voltou pra casa dos pais, quase se matou. Sentia como se tivesse regredido na vida, como se tudo aquilo que tinha vivido na outra cidade sozinho fosse só um sonho.

Jimmy havia me contado sobre quando morou um tempo sozinho em São Paulo, a grande Capital. Não me deu grandes detalhes, apenas que “desandou” na bebida e acabou tendo que voltar. John foi outro que foi pra longe: Pelotas, e também Campinas. Este tinha a minha idade, mas enquanto eu já estava formado, ele acabara de entrar na sua terceira faculdade, tendo largado as duas primeiras.

John havia pedido – e roubado – comida em Pelotas, e viveu um tempo mergulhado em uma vida de sexo e drogas todos os dias o tempo todo, o que resultou em um filho que ele agora educa – morando ainda na casa dos pais.

Eu fui pra Sâo Paulo no ano passado. Eu nunca fui um sujeito de muita ambição. Minha ideia era me formar, trabalhar naquela mesma cidade, envelhecer e morrer ali mesmo, sem me preocupar com grandes carreiras ou planos. Mas minha família e minhas namoradas na época pensavam diferente. Elas viam grandeza em mim, um enorme potencial que seria desperdiçado se continuasse preso àquela cidade no interior.

Essas mulheres – por que minha família é composta na maior parte por mulheres – acabaram falando tanto na minha cabeça que eu comprei a ideia – e se tem uma coisa que aprendi nessa vida é que nunca se deve comprar ideias que as pessoas tentam vender a você – e entrei em uma faculdade no ano seguinte ao do ensino médio. Eu não queria entrar naquele ano, mas minha família achou um absurdo, “como assim você vai perder um ano da sua vida?”

Acho que foi aí que minha fé na humanidade começou a morrer. Quando comecei a aprender as teorias e a entender como a mente humana funcionava, tudo o que eu conseguia ver era um mundo cruel que não deveria existir. E tudo bem, acho que é nisso que todos os profissionais, ou pelo menos os da área da educação e da saúde, acabam acreditando uma hora ou outra.

O problema é que então para sobreviver nessas áreas, você acaba desenvolvendo um “complexo de messias”, no sentido em que o mundo é um lugar ruim, mas você e a sua classe profissional pode salvá-lo! Eles te enchem de ideais, ambições e sonhos. Eles, aqueles profissionais que se formaram, fizeram um mestrado e estão ali dando aula na Universidade do Interior, sem ter o mínimo conhecimento prático do mundo.

Esses são os profissionais que te enchem de expectativas falsas sobre o mundo, te dão um tapinha nas costas, um maço de cigarros e te mandam pra guerra, esperando que você e os outros trouxas que se formaram com você sacrifiquem suas vidas por eles enquanto eles aguardam confortavelmente no quartel general.

E aí você enxerga a realidade, não suporta o que vê, e acaba sendo mandado de volta pra casa. As pessoas à sua volta, seus familiares, tentam tratá-lo como se nada tivesse mudado, mas você sabe que as coisas nunca mais serão como antes. Você viu a verdade, você viu a realidade fora dos seus livros caros de teoria, e isso te faz perder todo o respeito que tinha por aqueles professores moralistas que nunca pisaram no campo de batalha.

Você é um veterano agora, e as pessoas têm que conviver com isso. E como diz aquele ditado: “O que não te mata te deixa com um senso de humor mórbido”, você acaba se tornando um cínico amargurado, um homem do subsolo, e, como Cioran, acaba tendo de viver mais sessenta anos apenas confirmando o que já sabia aos vinte, até que um dia a doce morte venha livrá-lo de seu sofrimento.

Será que vale realmente a pena?

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

1 comentário em “Os Veteranos

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