Textos

“A Tradição Pede”

“Então é natal, e o que você fez? O ano termina e nasce outra vez”, é uma frase assustadora se você for parar pra pensar. “Nothing ends, Adrian, nothing ever ends”*: os ponteiros do relógio se cruzam, os malditos fogos começam e tudo recomeça mais uma vez.

Eu não gosto do natal. E não é por ser um feriado cristão, eu já passei dessa fase. É engraçado, eu nunca havia refletido sobre isso até agora, mas essa data parece ser um amálgama de todas as coisas que eu desprezo.

Para começar, é uma marca temporal. Outro ritual de passagem para a pessoas pensarem “dessa vez vai ser diferente” e planejar todas as promessas de ano novo que sabem que não irão cumprir. E como todo ritual, seus costumes são seguidos de maneira imutável, com a única justificativa de que “a tradição pede”.

O roteiro começa as seis horas, quando te chamam para comer, mas não sem antes rezar. Não por que qualquer um ache necessário, ninguém acredita muito mais naquilo, mas o fazem para agradar os mais velhos (e manter a tradição). Depois de se lembrarem brevemente do humilde carpinteiro jesus, é hora de atacar os cinco tipos de carne diferente que estão na mesa junto com as bebidas caras e os outros nutrientes pecaminosos.

O pecado, é claro, é engordar. Com um aumento de 30% nas buscas por academias e clínicas estéticas no final do ano, você não vai querer ser o único gordo na foto de família, não é mesmo? 30%! E eu achando que estávamos em crise. Mas a crise pode corroer toda a estrutura de um edifício, contanto que a fachada permaneça em ordem pro evento, não é mesmo?

Chega então a hora dos presentes e das fotos. A tradição pede que você tire fotos sorrindo, então não importa se você não gosta realmente daquela reunião familiar, de sorrir ou de tirar fotos (em outras palavras, não importa se você é introvertido), você vai entrar no meio daqueles familiares e tirar as malditas fotos para não piorar ainda mais a situação.

O que era pra ser uma noite feliz, acaba sendo uma noite estressante, talvez mais estressante do que as outras 364 do ano. Alguns parentes brigam sobre como tirar as fotos, um querendo mostrar que sabe mais que o outro sobre como operar uma câmera, como se isso fosse grande coisa. Outros fazem perguntas que você não quer ou não pode responder, e aí você percebe que eles não te conhecem realmente. Você espera pra dar os presentes falsos, comprados por eles pra eles com o dinheiro deles, por que você não trabalha. Eles fingem surpresa e posam pra foto.

Agora é sua vez de fingir surpresa: Você já sabe qual é seu presente porque ele já foi comprado um ou dois meses antes para aproveitar os preços mais baixos e tentar driblar o capitalismo. Você passou dezembro inteiro usando seu presente, até que no dia 23 eles o embrulham em um papel bonito e no dia 24 você finge que o está recebendo pela primeira vez. É tudo falso. Você sabe que é falso e eles sabem que é falso. Mas todos fazem, porque a tradição pede.

Você sorri pra foto. E se sente nauseado.

Os presentes acabam. Você pergunta se pode voltar pro quarto. Por que noite não foi perfeita, os parentes mais obsessivos ficam decepcionados, mas você está aliviado por que o ritual acabou. Mais um ano se passou, mais uma farsa foi registrada para os álbuns virtuais da família. Mas que diferença faz, não é mesmo?

O que é mais uma farsa no meio de todas aquelas que são vendidas nessa época do ano? Consumismo, alcoolismo e hipocrisia. Todos os pecados são perdoados, todos os erros são esquecidos e toda a família pode ter um novo começo. Mas nada realmente muda, e no ano seguinte tudo se repete novamente.

Não é de se surpreender que as pessoas gostem tanto dessa tradição.

 

 

 

* Na HQ Watchmen, Adrian Veidt pergunta a Dr. Manhattan (um ser onisciente e praticamente onipotente) se o que ele fez foi o certo, se tudo deu certo “no final”, ao que o segundo responde a ele “No final? Nada acaba, Adrian, nada realmente acaba”.

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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