La fora não haveria esperança. A chuva forte que anunciara o inicio do verão daquele lugar trouxesse em si memórias boas de um passado que não existia mais. Seu aniversário sempre fora próximo das festas de fim de ano, e, por isso, o mês de dezembro sempre teve sua magia especial. Quando criança, as luzes de natal, o cheiro daquela comida típica, anual. Um clima diferente, um calor abraçava as pessoas e um conforto, mesmo utópico, deixava tudo que era ruim em muito bom. Não haviam brigas, não haviam desconfortos, era, nem que fosse só aquele mês, uma paz, uma tranquilidade, alegria de fato.

Mas agora era tudo memória, agora tudo vivia como se fosse explodir. Agora só haveria solidão. No escuro de seu quarto ele comeu um bolo duro, um refrigerante ali esquecido. No escuro ele começou a trabalhar em sua bebida ali guardada. Lá fora, chuva, a mesma chuva que permeou todos os seus aniversários. Chuva, chuva que afogara todas suas lembranças. Chuva. Nada mais.

Não haveria mais aquela sensação. Não haveria mais os grandes jantares. Os familiares já estavam mortos, os amigos nunca mais mandaram notícias. A escuridão se tornou sua única e verdadeira amiga. Tudo acabou pouco a pouco, tudo se tornou distante, frio, triste.

Ele fechou os olhos e parou de respirar.

Ele fechou os olhos e conseguiu encontrar o conforto do passado.

Ele fechou os olhos na noite de natal.

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