Como pássaros destituídos do lar voamos

Caídos do ninho antes da maturidade

Antes das penas crescerem

Do bico se fortalecer

Antes do mundo fazer sentido

Bem antes do sentido fazer o mundo

 

Como pássaros desgarrados buscamos abrigo

Temos anseio o lar

O conforto do ninho

A segurança das penas

 

Como pássaros desgarrados tentamos subir

Fincamos as garras

Tentamos retornar

Voltar

Sentir a segurança

A paz

O calor

 

Como pássaros desgarrados no chão estamos

Sem as asas que possibilitam que subamos

Sem as garras afiadas para escalar

 

Como pássaros caídos levantamos

Caminhamos

Lentamente caminhamos

O céu, o ninho, as alturas

Nada mais nos pertence

Nada me pertence

E não pertenço a ninguém

Um pássaro sem o céu ainda é um pássaro?
Não sei

Sei não

Mas o céu continua sendo ele mesmo sem o farfalhar de minhas asas

Sou o que sou sem o propósito de ser?

Provavelmente não

Não

Não

Não

Um vulto sem forma

Uma forma disforme

Um desenho sem contorno

Uma vida sem propósito é um rabisco

Uma linha que nunca termina mais nunca ganha forma.

 

 

 

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