Crônicas

Ano Novo sem Deus

As pessoas levam essa coisa de ano novo realmente a sério. Praticamente todo fim de ano, meu familiares se reúnem em algum lugar para comemorar. Eu tenho tão pouco interesse no fim de ano quanto tenho no natal, então normalmente na hora das viradas eu estava dormindo, fazendo alguma coisa no quarto, ou nem sequer ia viajar com eles, mas nesse ano, resolvi participar.

A cidade escolhida dessa vez tinha sido Campos do Jordão. A fama que aquela cidade tem de ser a “Suíça brasileira”, a elevada altitude e as fotos nas redes sociais não foram o suficiente para que as pessoas se preparassem adequadamente para o frio e assim que chegaram, muitos tiveram que sair para comprar roupas novas.

Não havia muito o que se fazer que não pudéssemos ter feito em casa: A chuva e o frio nos mantinha confinados em nossos chalés sem wi-fi ou tv à cabo. A piscina coberta do local não estava funcionando – aparentemente, desde agosto – e no primeiro dia choveu tanto que eu achei que deus estivesse levando a sério esse lance “ano novo vida nova” e tivesse mandado um outro dilúvio.

Mas uma coisa que eu consegui fazer de diferente, no segundo dia, foi andar à cavalo. Foi a primeira vez que fiz isso desde que andei uma vez quando criança, e dessa vez, cavalgamos de verdade, sem simplesmente trotar ou ficar andando. Eu adorei a experiência, mas meu corpo ainda dói por inteiro de ficar pulando naquela sela.

Pegamos garoa umas três vezes enquanto fazíamos o percurso, o guia e eu, e como consequência, meu único par de jeans e botas ficaram inutilizáveis. Então enquanto todos no salão da ceia estavam de vestido ou roupas sociais, eu acabei indo com minha calça moletom que estava usando de pijama, uma camiseta branca e uma camisa flanela vermelha e preta por cima.

A ceia foi servida, e parecia maravilhosa. Mas é claro que no fim de ano, como em qualquer ritual, as pessoas tinham que complicar as coisas. Os pratos quentes estavam todos dispostos sobre a mesa, mas ninguém podia comer sem rezar, e ninguém podia rezar enquanto todos os parentes não estivessem chegado ao salão. Enquanto esperávamos os retardatários, o filé mignon, o frango, a leitoa e todo o resto esfriavam.

Eu estava de pé ao redor da mesa, entediado, como outros ali, e ouvi algumas mulheres falando sobre a oração:

– Podemos deixar pra rezar no final.

– Ah, mas existe um simbolismo de rezar antes de comer, né?

– Podemos rezar antes, comer, e depois rezar de novo com eles.

“Eu não acho que deus se importe com a ordem”, pensei, mas não disse nada. E como sempre, mesmo sem que ninguém questionasse, ouvi aquela clássica frase: “…por que não importa qual a religião, todo mundo acredita nesse sentido de união e da família e de tudo isso”. É claro que não importa… Contanto que você não seja ateu, ou niilista.

– Você é católico? – uma velha deu a mão para mim e olhou em meus olhos enquanto continuavam decidindo o que iriam fazer.

– Não – eu respondi simplesmente.

– Você é ateu?

A pergunta me surpreendeu. As pessoas normalmente erram mais vezes antes de concluir isso, e elas costumam temer esse termo, principalmente velhos, falando ao invés disso algo como “sem religião”.

– Sou – respondi.

– Um dia você vai acreditar.

Deixei uma risada escapar. Isso também era algo que eles costumavam demorar um pouco para falar. Normalmente falavam coisas tipo “mas como você pode não acreditar?”, “como você consegue viver assim?”, e só depois encerravam a conversa com “um dia você vai acreditar”, “um dia você vai entender”, “um dia você vai concordar comigo”. Velhos costumam dizer isso quando não têm mais argumentos pra dar, jogando o trunfo da “vivência”, como se ela valesse de alguma coisa, mas aquela ali pareceu querer inverter a ordem.

– Você foi batizado em cristo. Você recebeu um nome de santo.

– Bom, eu não tive muita escolha, né?

– O poder de deus está em nós. Nós somos ungidos. Eu estava com muita dor nas costas e pedi pro meu netinho colocar a mão em mim que ela iria sarar, e deu certo. Um dia você vai acreditar, na hora da necessidade a gente sempre acredita.

É engraçado, será que os cristãos acham que a vida dos ateus é fácil? Da forma como eles falam, parece que o que separa um ateu de um cristão é uma vida de merda, como se aqueles que não acreditam em deus fossem privilegiados que nunca tiveram que passar por nenhuma dificuldade (incluindo o fato de ser ateu em um lugar como o Brasil), mas que estão apenas a um grande trauma de se tornarem cristãos. Eu diria que a teoria do Coringa* está mais correta, mas pensando bem, talvez elas não sejam tão diferentes assim.

Por fim, eu acabei indo pra outro canto, os retardatários chegaram, nós rezamos ao redor da mesa e comemos a comida fria.

Os fogos enfim começaram, e fazia tanto tempo que eu não participava dessa tradição que quando o relógio bateu meia-noite eu estava pegando um refrigerante no balcão e quando voltei para o salão da ceia me assustei ao ver todo mundo – todo mundo – se abraçando. Eu havia me esquecido dessa parte. Eu normalmente nem cumprimento pessoas individualmente em grandes grupos, dando um “oi” geral para todo mundo, então imagine o quão confortável eu me senti abraçando todas aquelas pessoas sorridentes. Talvez tão confortável quanto fiquei falando com a velha.

Enfim, no final, eu diria que foi uma boa experiência. Deus não conseguiu estragar o ano novo, como costuma fazer todo ano com o natal. A comida estava boa, ainda que fria, a cavalgada foi legal, ainda que dolorosa e a paisagem era linda, ainda que a pousada tivesse muitos defeitos.

“O que é que está acontecendo, David? Está virando otimista, conseguindo focar no positivo?” você deve ter pensado. Vai saber. Talvez 2018 seja realmente um ano novo pra mim.

 

 

 

* “A loucura é como a gravidade: Tudo o que você precisa é de um empurrãozinho” – essa é a “teoria do coringa” em O Cavaleiro das Trevas e A Piada Mortal. Os cristãos parecem achar o mesmo de sua religião: Tudo o que você precisa é de um dia ruim, e você logo se converte.

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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