Lourenço. Cap 1.

Ela tinha ligado para mim a madrugada toda, eu ignorei, eu estava mal, estava bêbado. Quis ignorar. Da última vez que ela ligou para mim foi para dizer que estava grávida. Minha mãe sempre dizia que se alguém te liga de madrugada é porque vem merda ai. Minha mãe foi uma santa, muito sábia. Ela observava a natureza e sabia quando as coisas iam acontecer. Ela soube antes que eu fizesse a cagada que eu seria preso antes de chegar aos dezoito. Ela também soube o dia exato que meu pai iria bater as botas. Neste dia ela simplesmente olhou para mim, ainda criança, brincando com meus bonecos, e disse “ vamos ter que se mudar para um lugar menor”. Porra, eu sempre quis saber com ela fazia isso.

Eu vejo o seu nome iluminado no meu celular. Ainda tenho o nome dela salvo como “meu amor”. Foi ela quem escreveu, na época. Eu não sou este tipo de cara romântico. Também é o mesmo celular do tempo que eu a conheci, e isso foi há uns dez anos. O celular ilumina a cabine da minha pick-up Strada. Pequena, velha, enferrujada, azul metálico. Eu a comprei um pouco antes de conhece-la. Trabalho com frete e com o que aparecer. Eu moro neste carro. Toda vez que eu me mexo eu acabo pisando em alguma garrafa vazia. Tento limpar esta merda de caminhonete há algum tempo, mas não rola, estou sempre ocupado trabalhando para ganhar uma grana e depois torrando o dinheiro nos bares.

Falando nisto, foi o que eu fiz no dia seguinte. Fiz uns dois fretes, um deles foi sacos de estrume, meu carro está puro a merda. Deu seis horas, tomei banho no posto de gasolina de uns camaradas e cai para dentro do bar. Já estava na sétima garrafa quando vieram me aporrinhar: Uns três caras punhetando uma sinuca, todos com caras de bebês. Um deles cismou que eu estava dando em cima da mulher dele. Ele não estava totalmente errado, eu dei umas duas ou três olhadas para ela. Não consigo descrevê-la bem, ela estava sentada em sua mesinha sozinha, bem provável que o seu macho a arraste para todos os lugares entediantes com os amigos, ela era muito bonita para ele, ela lembrava muito Carla Cristina. Ela bebia cerveja sozinha e para mim isto é um pecado.

Depois eu descobri que seu nome é Vittória, isso mesmo, com dois “ts”.

– Ei seu merda, você tá olhando a minha mina – ele gritava, esbravejava, cuspia. Eu ouvia pacientemente, não estava a fim de estragar minha noite perfeita.  Os amigos me cercaram, me mantive sentado degustando meu malte – você tá ficando loco!? É a terceira vez que te pego olhando para ela.

Eu levanto o copo e dou um sorriso.

– Eu estava com dúvida qual de vocês três era o macho dela, não estava conseguindo distinguir pelo tamanho dos chifres…

O tempo fechou.

Em um momento eu estava quebrando o nariz de um cara. Em outro momento eu quebrava um dos cascos de cerveja na cabeça de sujeito. Dei uma boa pesada no peito do terceiro, ele tombou por cima da mesa, quebrando-a, terei que pagar o prejuízo para o Jefferson, o dono do bar, cara gente fina. O demônio da mulher apenas olhava a presepada, se divertindo. Olhei umas duas vezes para ela e dei um sorriso.

– Marquei tua cara, você tá morto! Você tá morto! – saia o corno com o nariz sangrando – vamos Vittória, depois eu volto para matar este merda.

– Ainda estou tomando minha cerveja – ela diz, ela dá um gole, ela dá um sorriso. O homem olha para o chão e é arrastado pelos amigos. Ela se aproxima, sorri como um demônio. É neste exato momento que eu me sinto como um homem das cavernas – você deu conta deles muito bem, parabéns.

Ela debocha. Procuramos outra mesa para terminarmos nossa noite.

Eu estava no meio de uma foda quando meu celular se acende novamente. Vittória estava no meu colo, parecíamos duas sardinhas dentro daquela pick-up imunda. O toque do celular se misturou aos seus gemidos, como eu odeio o celular. Eu vacilei, ela viu escrito “meu amor” na telinha. E parou.

– Não sabia que você era casado – ela disse ainda sem jeito.

– Não sou, é que nunca mudei o nome…

– Certo, eu tenho que ir – ela se veste e se despede – valeu ai pela cerveja.

Novamente dormindo sozinho no carro. Decidi ver o sol nascer. Acendo um cigarro e fico deitado na caçamba. Ainda está fedendo a merda seca, mas são ossos do oficio. Ainda tenho uma ou outra garrafa jogada. Fico pensando no que ela queria, porque das ligações depois de tanto tempo. Pensei tanto que adormeci. Adormeci e acordei com o celular tocando.

– Diz – eu digo, secamente.

– Zé? É você? – eu reconheço a voz – pensei que tinha mudado de número. Já estava desistindo.

– Foi mal, tava passando por uns problemas, diga lá o que você quer.

– Eu preciso que você venha aqui…

Isso não era uma boa coisa.

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Autor: Rhuan Rousseau

Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

Uma consideração sobre “Lourenço. Cap 1.”

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