Jogávamos garrafas de cerveja vazias na rua
para ouvi-las quebrar.
Imaginávamos que conseguiríamos furar os pneus dos carros
esse era o nosso protesto contra o capitalismo na época.
Tínhamos 15 anos de idade, e só existia um bar na nossa rua
que venderia bebida para garotos de 15 sem contar para nossos pais.
O dono do bar morreu de câncer, coitado.
parecíamos bobos ouvindo todo aquele punk-rock, fumando e ficando bêbados.
Eu mentia, falava que ia dormir na casa de um amigo por causa dos trabalhos escolares
e meus pais acreditavam. Os pais nunca devem acreditar num moleque de 15 anos.
A única garrafa que furou um pneu de carro foi a do uísque do pai deste meu amigo. Foi na última noite que atacamos o capitalismo.

Também era a primeira vez que eu tomava uísque.

Hoje esse meu amigo trabalha com redes e computação. Acho que é T.I.
Está casado com uma guria do trabalho que parece uma televisão de 21 polegadas.
Ele fode esta mulher todas as noites, tem um salário de três mil reais e toma cervejas
que eu nunca ouvi falar.
Este meu amigo trabalha para o governo. Ele estudou, passou em um concurso e agora tem três filhos com nomes bíblicos.
Este poema é para ele, mesmo eu acreditando que ele nem deva lembrar-se de mim e nossas garrafas nas ruas.
Ele mora em Brasília, e eu continuo no Ceará. Continuei a escrever meus poemas, continuei a ouvir punk-rock.
Ainda espero furar algum pneu de carro vandalizando as ruas com os cacos de garrafas de cerveja vazias.

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