Textos

Black Mirror – Quarta Temporada –

Já aviso logo, tem spoilers, então não fode se você não assistiu.

 

Black Mirror foi um bom achado, eu comecei a assistir antes que todo mundo gostasse. Se eu fosse Hipster eu iria odiar as pessoas que dizem “isso é muito black mirror” mas eu até acho legal quando mais gente curte o que eu curto, dá mais margem para discussão. Lembro do asco que tive no primeiro episódio da primeira temporada, fiquei dias pensando “caralho, ele fodeu um porco! Nem fodendo que eu faria isso” Depois comi bacon com creme de leite e esqueci o assunto. Nesta crítica vou falar apenas da quarta temporada. E o macaco te odeia.

EPISÓDIO 1 – USS CALLISTER.

Foi um dos episódios que eu mais me identifiquei porque nos meus tempos de babaca perdedor eu fazia as meninas que eu não conseguia comer no The Sims. Curioso que eu nunca gostei muito Star Trek, eu achava um saco, não tinha sabres de luz e coisas do tipo. Realmente me surpreendeu a série começar deste jeito, a mesma sensação “whatafuck” que eu tive em San Junipero, por se tratar de uma série tecnológica com um episódio nos anos setenta, USS Callister surpreende por se passar em uma sátira a Star Trek.

Realmente, uma das coisas que eu achava um saco em Star Trek é como tudo era hermético, sem sal. As pessoas não fodiam ou cagavam, coisas do tipo. Nada era violento demais. No máximo tínhamos o Kirk, arauto do macho escrotão. Coisa que foi muito bem passada pelo gordinho nerd. O capitão machão escrotão. A estratagema dos heróis dos anos sessenta e setenta. Para quem assistiu 007 do Roger Moore, sabe do que eu estou falando. Achei uma graça quando uma das personagens fala “que vontade de dar um cagão, nem me lembro como isso era”. Ela realmente não sabe o que está perdendo!

Vale salientar que esta evolução nos video-games é bem possível. Em menos de 50 anos conseguimos sair do Pitfall para o GTA5 entre outras coisas. Imagine aonde poderemos estar daqui a 100 ou 150 anos? Video-games onde interagimos com consciências lúcidas? Tudo isso é muito possível. Black Mirror sempre consegue abordar bem estes temas espinhosos, isso vai além de uma reviravolta ou grande revelação. Os episódios sempre nos deixam pensado no que temos nas mãos e no que podemos nos tornar.

Quando tudo dá errado para o nerd gordinho e o grupo da USS Callister consegue fugir para o vórtice de atualização, notamos que ele ficou preso eternamente naquela nave. Esta é minha definição de inferno, ficar preso eternamente em um cubículo. Realmente um fim terrível para um personagem escroto.

 

EPISÓDIO 2 – ARKANGEL

Minha noiva é pedagoga, ela me disse que não tinha nenhuma possibilidade da ideia genial de privar a coitada da garota de coisas “feias” fosse dar certo. Era óbvio que isso iria zoar com a menina para sempre. Dito e feito. Termina com ela dando “tabletadas” na cara da mãe.

Realmente parte daquela tecnologia é muito útil, saber onde a criança anda e tal é algo interessante. Mas toda boa ideia acaba se voltando contra o portador. O sistema de censurar tudo aquilo que pudesse “agredir” a criança, impedindo dela ter uma experiência full time com as merdas que acontecem no mundo, uma superproteção exacerbada era a obviedade de algo de muito ruim acontecer. Curioso que certamente conhecemos pais que fazem coisas semelhantes com as crianças, as impedindo de ver coisas agressivas e grotescas.  Eu nasci nos anos noventa, eu via o Ratinho mostrar a cirurgia de um cara tirar uma lanterna do cu porque se fantasiou de vaga-lume, bebeu demais e caiu sentado. Tudo isso no horário nobre. A maioria de nós vimos a Tiazinha e jogamos GTA e nada disto nos transformou em assassinos, pelo menos eu acho. O grande problema demonstrado no episódio é: se você priva uma pessoa de algo e depois libera a corda, ela vai querer abraçar o mundo achando que é um grande pedaço de queijo.

Dai a mãe assistindo sua filhinha linda de quinze anos dizendo “me fode” para o amiguinho traficante. E depois ver a filhinha linda cheirar aquela carreira de pó acabou deixando a mulher maluca. Claro, que a guria iria pular na vida sem molhar a ponta dos pés. Para os mais puritanos que concordam com este tipo de vigilância eu digo: a garota só ficou zoada por causa da mãe e a superproteção.

Jodie Foster mandou muito bem na direção. A Netflix deveria dar mais coisa nas mãos dela, diretora de mão cheia.

EPISÓDIO 3 – CROCODILE

Eu chamaria este episódio de bola de neve. Começa com um “eu sei o que vocês fizeram no verão passado” e termina da mesma forma. Se for parar para pensar, muita gente faria o mesmo para defender um status quo ou coisa similar. Curioso por não ser um episódio de “tecnologia que se volta contra o seu utilizador”, ele quebra o ritmo da série de maneira muito benéfica.

Me amarro quando histórias paralelas se colidem em um desfecho, Dunkirk bebe nesta fonte e Crocodile foi na onda. Temos a história da loirinha, mãe de família, com uma boa profissão e que tem um passado sombrio, e do outro lado uma garota que coleta memórias para asseguradoras visando conseguir as apólices de seguro. Por mais que seja previsível como estes dois universos vão se chocar, notamos que carros elétricos vão nos foder num futuro próximo e que uma pessoa com disposição pode gerar a maior matança.

Existem algumas semelhanças com o episódio Shut Up and Dance da terceira temporada, principalmente com o final, quando a polícia chega no recital do filho da loirinha e você descobre que a criança era cega, demonstrando o tamanho da monstruosidade que a mulher chegou. Realmente muito tenso.

EPISÓDIO 4 – HANG THE DJ

Deus abençoe ao Tinder do futuro. Steven Spielberg diz que você precisa entregar um final foda, se o filme foi meia boca mas com um final foda todo mundo vai gostar. Convenhamos que este episódio ele é bem água com açúcar até bem próximo do final. Temos vários casaizinhos que se encontram graças a algum tipo de inteligência artificial com uma nuvem de teoria da conspiração. Vale salientar que todas as protagonistas são muito inteligentes e muito vivas. Assemelham-se bastante com as personagens femininas dos livros do Palahniuk.

Este não é um episódio muito bom para se assistir em família, principalmente se os seus pais forem muito puritanos, varias cenas de sexo recheiam os relacionamentos dos protagonistas. Mesclando os pontos da trama com algumas filosofias sobre realidade virtual e inteligência artificial. Deveras, eu não gostei muito do diálogo meio Inception que a protagonista fala antes da grande revelação “você lembra como chegou aqui?” Poderia ter passado sem esta, como se a audiência do seriado não fosse entender a grande sacada. A grande explosão de cabeça daquilo tudo ser uma espécie de Tinder acaba misturando bem a sopa. Não é um dos melhores, mas é muito bem bolado.

EPISÓDIO 5 – METALHEAD

Eu faria uma banda de heavymetal com o nome de Metalhead. O visual preto e branco, o estilo daquele bicho metálico misturado com uma barata e um cachorro (do qual apelidei carinhosamente de baratorro). Um grande filme Slasher com um robo maldito assassino que vai te caçar até o confim do inferno.

Algo muito irritante neste episódio é a ineficiência da protagonista com ideias simples e eficazes. Ela sempre parece fazer do jeito mais difícil e tomar as decisões mais bobas. Dá a entender que aquele animal assassino metálico não é uma novidade para os personagens, logo deveriam ter na cabeça alguma estratégia para repelir as investidas dos bichos. A mulher não tem a ideia nem de bloquear a porta para que o bicho tivesse alguma dificuldade pare entrar na casa. Por mais que se mostrasse ineficaz, isso me impediria de ficar em pé gritando para a coitada o que fazer.

Para o leitor ficar assustado, já existem alguns protótipos de bichos parecidos com o perseguidor implacável – https://www.youtube.com/watch?v=kgaO45SyaO4 – preparados para comer nossos cus sem a menor pena. Pensar nisto dá uma mistura de asco e medo, é um futuro próximo e possível. Tais seres mecânicos tem como limite do mundo real apenas uma interface com inteligencia artificial boa o bastante para aprender e adaptar (coisa que também já existe e evolui com passos largos)

O final é muito clichê, talvez o ponto mais fraco. A personagem é muito burra e o bicho é muito foda. É um episódio legalzinho.

Serve como pensamento: Será que os ursinhos que estavam naquela caixa que a mulher foi atrás são várias consciências aprisionadas???

EPISÓDIO 6 – BLACK MUSEUM

São vários pequenos episódios de Black Mirror dentro de um só. Um cara que é dono de um museu de beira de estrada, do qual desconfiamos de maneira gigantesca, apresentando uma coleção de referências a outros episódios de Black Mirror (e até Game of Thrones, aqueles rostos pareciam muito o Hall dos Rostos de Bravos)

Também aprendemos a não beber água de estranhos.

Primeiro – O médico viciado em dor. Fantástico. Realmente aquilo da tecnologia se voltar contra o hospedeiro, a principio uma boa ideia que certamente daria errado. O cara ficar viciado em dor foi uma sacada muito interessante, algo que realmente deixou pensando. Pergunto-me se ele teve alguma experiência pós mortem no inferno, pois o sujeito que fodeu com tudo foi o político que fora envenenado?

Segundo – Macaco quer abraço. Esse é segue o mesmo mote de ArkAngel: “claro que vai dar merda” Nota-se que era um casal que não tinha tanta vivência, já que o cara engravidou a mulher praticamente na primeira transa e depois ela foi atropelada (de maneira burra) ficando em coma. Transmitir a consciência dela para ele, por mais que seja um ato altruísta em demasia, não, nunca seria uma boa ideia.

É algo claustrofóbico, ficar preso eternamente na consciência de outra pessoa, não podendo tomar atitudes por conta própria, apenas sentindo sentimentos alheios, gozando com o pau dos outros. Como se andasse em um trem, sem ter controle dos próprios atos. Obviamente quando esta péssima ideia se mostra ruim, a solução é colocar a mente da coitada da mulher em um macaquinho de pelúcia.

Uma mente inteira fadada a dois sentimentos: “macaco está feliz” e “macaco quer abraço”. Não sei se significa algo, mas o macaco como escolha do bichinho. A coisa mais primitiva que podemos nos tornar. Pergunto-me se existe alguma relação com tudo isso. Agora tente imaginar-se preso a um elevador por toda a eternidade. Sim, isso me deu insônia.

Terceiro – Ode a dor extrema. Por todo o episódio, sabemos de algum crime que aconteceu, um cara que matou uma mulher ou algo parecido, e por fim somos confrontados a isto. O condenado a cadeira elétrica que topa transferir sua consciência para um show de horrores e dor abismal por toda a eternidade. Até onde a fome excêntrica por uma justiça estranha, torturado aqueles que fizeram o mal. O Coringa de Heart Ledger põe o mesmo questionamento na cena do teleférico, e retomamos a esta discussão aqui. Todos que se deliciaram com o condenado fritando até que ele se tornasse uma casca vazia. Existe uma grande reviravolta que não irei comentar, vale a pena assistir.

Black Mirror é a versão tecnológica de Além da imaginação. Roteiros muito bem escritos e tramas que nos deixam pensando por dias a fio sobre o rumo da humanidade. No final de cada episódio eu tenho a vontade de jogar meu celular fora…

 

Anúncios

Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

2 comentários em “Black Mirror – Quarta Temporada –

  1. Olá, tudo bem?

    Conheci Black Mirror a relativamente pouco tempo e ainda não assisti a todas as temporadas (sim, sou uma dessas pessoas que vive atrasada). Parei na terceira temporada, mas pretendo assistir o quanto antes, pois pelos comentários que tenho ouvido em relação a quarta e que você reafirmou), talvez seja a melhor temporada. Também fiquei com a mesma sensação após assistir o primeiro episódio. Bendito porco!!!

    Beijos!

    Curtir

  2. Olá! Tenho visto comentários positivos, como o seu, sobre a série e estou curiosa mas ainda não tive oportunidade. Gosto dessa temática que vi em Além da imaginação. Ótimo você compartilhar, bjooo

    Curtir

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: