Na minha mesa uma bagunça.
Livros espalhados pela minha cama.
Nenhuma das canetas funciona, assim caminha a humanidade.
Uma caixa de chocolates vazia que fez aniversário anteontem.
Um mofo tão grande no teto que provavelmente gerou
alguma forma de vida inteligente.
E está escuro, a luz queimou. Tenho apenas meu notebook. Marca de
uma geração que não tem ideia como era escrever em uma pesada
máquina. Uma maravilha tecnológica e silenciosa. Não existe mais
dor no ato da escrita.

Alguma criança chora no longe da madrugada.
Ou são cachorros latindo? Que se foda.
A bebida acabou, o dinheiro acabou. Estou desempregado.
Sou uno com a sujeira do mundo. Em breve cortarão minha água.
Carrego a bateria dos meus equipamentos, pois posso ficar sem energia.
Penso que pode haver alguma alma pelo mundo mais fodida do que eu.
Mickey Mouse tem apenas três ou quatro dedos e manda no mundo.
Eu tenho cinco e não consigo escrever a porra de um poema.

As palavras começam a faltar, a cabeça começa a escurecer.
Dizem que a chuva da madrugada limpa as ruas dos restos de merda e mijo.
O frio começa a tomar conta dos meus ossos. O frio é a lembrança mais pura
que não seremos imortais.
Tiro as roupas sujas que estão repousada sobre a cama e as ponho na velha cadeira
que tenho no quarto. Este jogo de tira e põe já duram anos.
Estico minhas pernas fazendo minha coluna, em processo de envelhecimento, estalar.
Ilumino os últimos segundos de minha noite com uma metade de cigarro encontrado no chão.
Nele há uma marca de batom, nele há uma lembrança de muito tempo.

Durmo sorrindo desejando não acordar.

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