LOURENÇO – CAPÍTULO 2 –

CARLA CRISTINA

Ela sempre apontava aquela porcaria de canivete para o meu rosto e me mandava ir embora.

– Vamos seu bêbado, já é a nona vez que fala que vai tomar a saideira, não tem mais ninguém aqui, é melhor você sair logo senão vou retalhar sua cara toda!

– Calma moça, para de apontar esta faca de pão para mim. Me dá esta garrafa ai atrás de você e eu vou embora – ponho o ordenado do dia sobre o balcão, pego a garrafa e saio com ela.

– Todo o dia é a mesma merda, eu ainda vou acabar retalhando sua cara, seu bebum – eu a ouvi gritar enquanto passava pela grande porta de bar, cambaleando pela rua.

Foi assim que eu conheci Carla Cristina.

O bar era do pai dela, ex-milico aposentado. Ela tomava conta de tudo.

Eu tinha uns vinte cinco anos, algo próximo disto. Comprei uma pick-up Strada para fazer fretamento, aproveitava para ganhar um extra com alguns trabalhos simples, levantar alguns pesos, estoque, estas coisas. A geração atual chama isso de logística. Fiz alguns serviços como ajudante de caminhoneiro, paga-se bem, se conhece grande parte dos lugares imundos deste país e se ganha experiência. Com um pouco de sorte você não pega aids das prostitutas de estrada.

Com a grana eu pagava o aluguel, sim na época eu me importava em ter um teto para morar, comprava comida e gastava o resto no bar. Eu sempre chegava naquele delicioso habitat as seis horas da tarde. A cara de desprezo de Carla Cristina ao me ver pagava qualquer aperitivo. Imagine-se chupando um limão, sim era a mesma cara que ela fazia ao me ver. Eu me sentava no balcão, e pedia duas doses, matava a primeira e a segunda, dai pedia cerveja gelada. Sempre elogiei Carla Cristina de maneira respeitosa, falando como ela estava muito gostosa.

– Vai se foder Zé – ela dizia batendo os copos no balcão. Nesta altura ela já sabia meu nome.

No fim da noite ela apontava o canivete para minha cara e me enxotava. Daí eu saia cambaleando pelas esquinas até meu apartamento de trinta metros quadrados, deitava na minha cama e adormecia.

Eu desaparecia por uma grande quantidade de tempo, depois reaparecia e ia no santo bar todo dia. Carla Cristina nunca me recebeu bem, o máximo que ela dizia era:

– Pensei que já tivesse morrido. Duas doses?

E lá se iam duas doses.

O movimento daquele bar era relativamente bom. Ambiente pequeno, mesas o suficiente. Todas de metal enferrujado com o nome de alguma cerveja já ficando ilegível. O balcão de madeira clássica, com tampo de mármore cheia de marcas de copos e canecas. Aos fundos toda uma prateleira de diversas bebidas e alguns freezers. Mais a direita uma escadaria de madeira. Carla Cristina e o pai moravam no segundo andar daquele velho prédio.

– Lá fora tem um nome, bar do Antônio. Ou você é o Antônio e trocou de sexo ou…

– Vai se foder, Zé. Antônio é o meu pai – ela estava de costas lavando alguns copos. Novamente eu era o último cliente. Lá fora o dia começava a dar os primeiros sinais da manhã. Carla Cristina fechava o bar às duas da manhã, mas por minha causa ela ia até mais tarde. Apesar de tudo, eu era um dos melhores clientes.

– E por que eu nunca vi o seu Antônio por aqui? Olha que ando nesta birosca por muito tempo – Carla Cristina pega a garrafa de seu melhor uísque, ela serve uma dose para mim e uma dose para ela. Tomamos juntos.

– A família do meu pai tem uma maldição – ela sorri, serve mais uma dose – câncer, meu bisavô teve, agora meu pai. Pula uma geração sempre. Meu pai nunca se importou de se cuidar, agora tá em um estado muito avançado.

– Minha mãe, câncer de mama. Ela sabia exatamente o dia que ela ia morrer.

– Não importa quando, o sentido real da vida é sempre nos tornarmos órfãos.

Tomamos mais uma dose.

 

 

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