Textos

Preto.

Tá, o preto é uma cor que desde o início dos tempos foi associada a coisas ruins, e de maneira justificada. Quando a noite caía e tudo ficava escuro, os homens das cavernas sentiam medo, pois não conseguiam ver. A carne que apodrecia adquiria um tom mais escuro e tinha de ser jogada fora. O preto representa o desconhecido, a morte, o mal. Nós nos vestimos de preto no luto desde a idade média (conhecida como “idade das trevas” não como elogio), e falamos “lado negro da força”.

Mas aí então, alguns meros séculos atrás, o ser humano, que sempre foi um filho da puta egoísta que sempre matou e torturou qualquer tipo de animal diferente dele, achou que os seres humanos negros eram animais diferentes dele e que era ok fazer o mesmo com eles. E fizeram.

Depois disso, muita luta aconteceu, a escravidão foi abolida, e a situação melhorou, apesar de ainda estar longe do ideal. Hoje em dia as pessoas tomam cuidado não só para não matar e torturar umas as outras, mas também para não ofendê-las. Por exemplo, um dia fui procurar o “livro negro da psicanálise” na busca por voz do meu celular, e o Google censurou a palavra “negro” por ser considerada ofensiva. “Livro ***** da psicanálise”

“Negro”. Devia ser ainda pior pro povo de língua inglesa, que não diferencia “negro” de “preto”, e usam apenas a palavra “black”. Imagina censurar ***** Friday, ***** Mirror, *****list, ***** Sails e Orphan *****. Eles tiveram que inventar “african americans”, e nós “afrodescendentes”. Acontece que, como disse Annita, depois de ter sido acusada de “apropriação cultural” por ter feito dreads no cabelo (*rolls eyes*), “no Brasil ninguém é branco”. Existe todo um dégradé de cores, do mais claro ao mais escuro, então fica meio difícil de diferenciar, já que nada é só ***** e branco. Vocês lembram daquele caso em que gêmeos univitelinos aplicaram para conseguir bolsa por cota, e um deles passou e o outro não? Parece piada né? Mas não é.

“Negro”. Parece que as pessoas têm medo da palavra. Como se fosse pecado. Como se dizê-la corrompesse sua alma ou ferisse as almas dos escravos que foram mortos séculos atrás. Eu não falo isso por causa de quando a usam de maneira obviamente ofensiva, nesses casos sim, faz sentido se incomodar. Mas eu já vi brigas acontecerem por que alguém disse “lista negra”. Eu já vi alunos imbecis interromperem a aula para corrigir professores com pós doutorado por falarem “denegrir”. E claro, tem aquele vídeo¹ que ficou famoso de uma mulher (minoria) negra (minoria) agredindo um garoto branco por ele usar dreads.

Existe outro vídeo² também, no qual uma mulher negra surta em uma feira de automóveis americana ao ver um carro decorado com a bandeira dos confederados (o lado que defendia a escravidão na guerra civil americana). Acontece que o carro era uma réplica do carro da série Dukes of Hazzard, que não tem absolutamente nada a ver com esse assunto, e sim com dois caipiras bêbados dirigindo um carro. Mas a mulher ainda assim, exigiu aos berros que o carro fosse retirado ameaçando – e aí vemos até onde ia o poder dela – publicar aquele vídeo (ah sim, era ela mesma que estava filmando) e aí muitas pessoas iriam ver e iriam ficar com raiva e iriam reclamar tanto que eles seriam obrigados a retirar o carro ou fechar a feira. Parece a versão americana e de minoria de “xingar muito no Twitter”.

Será que sou só eu que acho que isso está indo longe demais? Vocês sinceramente se sentem tão ofendidos e tão ameaçados por uma palavra que querem eliminá-la do dicionário? Tipo “denegrir’ não existe mais, vamos falar ‘afetar negativamente”, “lista negra’ não existe mais, vamos falar ‘lista de pessoas malvadas”, “peste negra’ não existe mais, vamos reescrever os livros de história”.

Daqui a pouco vão querer que o Darth Vader pare de usar *****, por estar associando a cor aos vilões. E vão querer chamar o time dele de “lado malvadinho da força”.

 

 

¹ https://www.youtube.com/watch?v=jDlQ4H0Kdg8
² https://www.youtube.com/watch?v=KXzjkVbZSjw

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

2 comentários em “Preto.

  1. Você esqueceu de citar a polêmica do biscoito recheado Negresco, que por causa da polêmica do politicamente correto virou “Chocoresco”… Gente, que absurdo é esse. Eu tenha até medo de olhar para as pessoas na rua e ser acusada de alguma coisa que eu não sei o que é e que estou fazendo involuntariamente… Tem muito mimimi nessa panelinha.
    Gente querendo fama, ibope, dinheiro em causas judiciais.
    Claro, que eu não estou dizendo aqui que as pessoas que estão realmente sendo agredidas não tenham direito de pedir reparação, ou de pedir justiça, mas também fico um pouco incomodada com o excesso que a gente vê por aí, sem motivo algum!
    Ótimo post!
    Grande abraço,
    Drica.

    Curtido por 1 pessoa

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