Textos

Noite na taberna.

– E o que aconteceu depois? – ele serviu a cerveja no copo de maneira inapropriada, o líquido espumou bastante.

– Ela não sabia que os pais iriam voltar tão cedo, eu olhei para a cara dela quando ouvi o barulho no portão. Ela engoliu seco e por alguns instante eu achei que ela tinha gozado. Meu pau murchou na hora! Ela me disse “são meus pais!” ai eu perguntei: “tem certeza?” e ela não respondeu, apenas saiu de cima de mim e correu pelo quarto tropeçando nos cadernos e bolsa. Sua bunda branquíssima! – todo mundo riu. Acendi um cigarro no outro, e enterrei a bituca morta no cinzeiro.

– Caralho! Isso já aconteceu comigo também, eu era um moleque, foi minha segunda vez. Eu estava trepando com a filha da vizinha. A mãe dela sempre saia para trabalhar cedo e voltava muito tarde. Demorei um tempão para conseguir convencer a menina a ficar com ela. Sabe aquelas doidinhas de igreja? – ele fez uma pausa, pude ver que ele ria por dentro – então. Filha da puta! Toda recatada, toda sem sal. Quando meti meu pau dentro ela arrancou um naco das minhas costas com as unhas. Não digo que não gostei, foi ótimo, mas até hoje foi a menina mais zoada que eu comi. Depois, muito tempo depois, quiseram empurrar a gravidez dela para meu colo, neguei que nem Pedro negando Jesus. No fim das contas, não era meu e até hoje ninguém sabe de quem é o moleque.

Um silêncio estranho corroborou para um pigarro.

– Tenso – o terceiro ocupante da mesa murmurou. O gelo em seu uísque havia derretido. Afrouxou ainda mais a gravata e pediu ao garçom uma cerveja.

– E porque você comparou a sua história com a minha? Achei que a mãe da vizinha que você comeu iria chegar na hora.

– Eu lembrei dela quando você falou. Ela também era mais nova que eu.

– Pois bem. Como eu dizia. Ela ficou completamente desesperada. O pai parece que era um milico qualquer ou policial, não sei. A guria tinha tara com caras mais velhos. Ela tinha seus quinze e eu menti dizendo que tinha vinte, mas eu tinha dezessete. Ela caiu porque eu sempre fui muito alto. Eu nunca vi uma guria se vestir tão rápido na minha vida. Ela desceu as escadas correndo. Só pude ouvir a voz tremula e mentirosa dela. Mentia como uma puta!

– Como uma puta… – o terceiro, de terno, disse pensativo.

– Fiquei escondido embaixo da cama, só de calça, foi o que deu para colocar. Eu ouvia o barulho da conversa deles, o barulho da televisão. A porcaria da casa só tinha um portão que fazia mais barulho que trio elétrico. Se vissem a garota com um macho em casa, seria uma merda gigantesca. Na época eu imaginava que o pai dela iria me matar e sumir com o corpo.

– Tô ligado – ele bebe a cerveja com um trago só e trata de encher o copo novamente da maneira errada, muita espuma – fiquei com uma mulher de traficante durante um tempão. Quando o corno soube tentaram me matar. Tive que me mudar para a casa da minha mãe no interior por um tempão.

– Caralho! Mulher casada dá nisto. Você também não tem jeito. Ainda vai acabar morrendo! – tirei o cigarro para trabalhar em minha bebida, uma cerveja muito barata, mas serviu muito bem – fiquei umas seis horas embaixo daquela porra de cama. Só pude sair da casa dela umas duas da madrugada. Nos vimos mais umas duas vezes e nunca mais.

O do terno sorriu, era um sorriso sinistro, suas covinhas pareciam quebrar uma camada de cera em seu rosto. Ele engoliu o uísque quente. e pediu mais um para o garçom, pediu para deixar a garrafa.

– Eu tô fodido – ele começou – andei trabalhando muito no escritório estes dias. Um caso grande, processo desgraçado, cliente pagando muito bem. Seria uma causa milionária de muito tempo e caiu no nosso colo. Estava ficando praticamente de segunda à segunda, trabalhando 15 horas por dias, até mais. Talvez foi por causa disto que comecei a notar. Uma esposa normal reclamaria, perguntaria, perturbaria, mas a minha não dizia nada. Apenas perguntava como tinha sido o trabalho, se tinha dado tudo certo, se estava tudo funcionando bem. Todas as noites ela simplesmente me beijava, virava e dormia. Das minhas tentativas de trepar, eu gozava, ela ria, falava algo e dormia.

– Meu casamento estava nos mesmos trilhos antes dela pedir divórcio – disse o outro. Eu apenas tomava minha cerveja.

– Mas esta era a estranheza. Ela não se incomodava, não reclamava, não pediu divórcio! Eu estava ficando maluco, mas acreditei que isto vinha do fato de estar trabalhando demais.

– Malditos advogados – eu disse.

– Iriamos viajar para a audiência, era outro domicílio, tinha dado muita dor de cabeça e não conseguimos mudar para cá. Só que deu um problema no avião e cancelaram a viagem para o outro dia. Ganhamos uma folga, eu iria voltar mais cedo. Revisar algumas coisas em casa, não aguentava mais o escritório.

– Um homem casado que trabalha demais nunca deve voltar mais cedo para casa – eu disse.

– Ela estava lá, com ele. Estavam os dois trepando na cama que eu comprei. Ela estava de quatro enquanto ele metia fundo – sua voz tremelicou. Nunca o vi assim. Meu outro amigo apenas ouvia atento, bêbado demais para se preocupar – minha esposa gritava, gritava, gritava como nunca gritou nos quinze anos de casamento. O cara era um vizinho, amigo, sei lá quem era aquele diabo! Ele puxava o cabelo, e ela pedia mais e mais. Fiquei uns quinze minutos assistindo e não suportei. Desde que eu me envolvi com a defesa de uns traficantes eu comecei a andar armado. Eu estava armado. Descarreguei o revólver neles.

– E isso foi quando? – disse o terceiro como se tivesse acordado de um sono profundo.

– Há exatas quatro horas.

O garçom trouxe o uísque, servi os copos para todos nós.

 

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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