Textos

Lourenço. Cap 3.

Lourenço – Capítulo 3 –

O ASFALTO NA ESCURIDÃO.

A estrada existe, ela é uma resposta para todas as nossas questões, todas as nossas dúvidas pessoais. Ela está lá, estamos com sua companhia, imos e voltamos em suas costas sem pedir permissão. Em suas longas milhas empoeiradas, nos trechos perigosos, nos acidentes e nas cruzes que sinalizam aqueles que a estrada tomou o último suspiro. Existem milhares de histórias, muitas mal contadas, outras esquecidas, porém a estrada conhece, a estrada sabe.

Os caroneiros, os vagabundos, as prostitutas, os motéis baratos, os restaurantes, os postos de gasolina, os policiais, os animais selvagens, os cachorros sarnentos, os habitantes da estrada que cruzam de um lado ao outro, vendendo, comprando, se esgueirando, sofrendo. Uma grande faixa cinza que liga o ponto A ao ponto B. Liga famílias separadas, problemas, amores, pais, mães, filhos. Uns que foram e outros que nunca mais irão retornar. A estrada é o único Deus que eu acredito, minha única religião.

Eu não queria gastar dinheiro com hotel. Tive que espancar meu último cliente, pois ele pensou que conseguiria me dar um calote. Tomei seu celular e logo o vendi por uns cem paus. É o que eu tenho atualmente no bolso, e preciso economizar, uísque não é tão barato assim como dizem que é. Observo as estrelas e penso nos meus últimos minutos. Encontrar um posto gasolina, fazer amizade, perguntar se poderia passar aquela noite ali. Eu olho as estrelas sem conseguir dormir. Eu falei com Carla Cristina, logo eu estaria de volta para aquela cidade, logo teria que colher tudo que plantei em minha vida. Apenas o assobio da noite dentro de meus pensamentos, o vento gélido que não consegue me incomodar. Deitado na caçamba, olhando as estrelas. Arremesso a garrafa de vodca, um resto que encontrei perdido entre os bancos da pick-up, ela rodopia e se espatifa no asfalto duro. Depois de tantos anos eu era aquela garrafa, encontrada perdida em entre os bancos de um carro velho, espatifada e destruída no asfalto. Minhas mãos ainda estavam doloridas. Tive que dar um soco na cara daquele filho da puta, ele disse que não tinha dinheiro para me pagar na hora, que eu tinha que voltar depois, que se foda, arranquei uns dentes, tomei o celular. Mas isso já tinha dito, estou me repetindo…

Os faróis de um caminhão me iluminam por alguns segundos e logo tomam seu caminho na escura estrada. No escuro ninguém é corajoso de verdade, estamos todos a mercê do desconhecido. Os carros passam, e passam, e passam. Logo o dia começará a amanhecer e eu não preguei os olhos. Os carros passam, passam. Escuto uivos, escuto latidos. Cães passam, gatos miam e a estrada continua um mistério. Na calada da noite estamos entregues. Alguém poderia atirar em mim, levar minha caminhonete e desaparecer, ninguém saberia até os primeiros raios do amanhecer, ninguém saberia e isso me assusta. Talvez eu não consiga dormir porque tantas outras coisas me assustam, e agora Carla Cristina. Ela me disse que me espera.

Eu ainda consigo ver seu rosto, sei que a idade já deve ter a castigado.

Parto antes de amanhecer, não conseguiria dormir de qualquer jeito. sigo o caminho da madrugada, com carros passando e gotas de chuva no para-brisa.  Apenas o silêncio interior me diz que devo continuar seguindo minha sina. Eu estarei lá antes do almoço, então preciso manter o foco na pequena estrada.

Liguei para Carla Cristina para avisar que logo chegarei.

Começou a chover.

O cemitério nunca foi tão suntuoso. A idade começou a mastigar o rosto de Carla Cristina, as rugas e os pés de galinha tomavam um formato, porém ela continua tão linda como da última vez que eu estive com ela. A chuva apertara, mas ela apenas estava lá, a água molha sua roupa, colando-a ao corpo.

Nos abraçamos, eu não sabia o que dizer, nunca fui bom com as palavras.

– Zé, ainda bem que conseguiu chegar rápido. Precisamos conversar com urgência.

Em seu rosto nenhum sorriso.

 

— Para quem não leu —

Cap 1   –  https://desacocheioemauhumor.blog/2018/01/08/lourenco-cap-1/

Cap 2   –  https://desacocheioemauhumor.blog/2018/01/15/lourenco-cap-2/

 

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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