O resto de nós procura um lago
que já secou.
Muitos morreram de sede.
Outros disseram:
“não tem água, vá embora!”
E assim, o mundo girou.
Nunca será culpa nossa.
Divindades já disseram
que o homem não tem culpa.
que os pais serão perdoados.
que as mães serão esquecidas.
filhos e filhas abençoadas.
Batizadas nas secas terras
das cadavéricas planíces
Ninguém se lembrará mais
que gosto tinha, como era
e que felicidade trazia.
Ninguém se lembrará mais
da sua doçura incauta.
translúcida, inodora.
sem alma, porém
a alma de tantas coisas

O resto de nós desistiu.
O lago secou.
Nosso destino está escrito,
nestas duras terras da planície.
letras que nada além do vento levará.

O resto de nós partiu.
e ninguém nunca mais ouviu
histórias dos que se foram.
dizem que encontraram fartura
mas os que disseram morreram sem desmentir.
nunca ninguém voltou
nunca ninguém ousou ir

E eu cá estou.
Observando os últimos minutos de vida
de um pobre coitado
que apenas uma última mulher
um último gole
um último sorriso
desejaria antes de partir.

E cá estou
sacrificando o moribundo.
para que ele não sinta mais a dor
que é estar vivo neste mundo.

Cá estou
como próximo da fila
com sede, fome e raiva.
de não ter ido e nem ter ficado.
ter pirado.
enlouquecido na nostalgia
de um tempo melhor do passado
que nunca existiu.

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