Textos

Parem de Vender Falsas Esperanças para seus Filhos

“Fala o desiludido: Eu procurei por grandes homens, mas sempre encontrei apenas os macacos de seu ideal”.

Friedrich Nietzsche

Para a psicanálise, a grande maioria dos transtornos mentais é causado por traumas na infância. Se você acha forçoso acreditar que todas as crianças são traumatizadas, é por que você não sabe o que significa “trauma”. Você ouve “trauma na infância” e pensa logo em uma criança que era espancada pela mãe ou estuprada pelo pai, ou que teve seus pais mortos por um bandido quando saíam de um teatro em Gotham. Não é nada disso.

Uma maneira que encontrei de descrever um trauma é dizendo que se trata de um “choque de realidade”: Você possuía certas crenças e expectativas muito grandes sobre a vida, que serviam bem para explicar o mundo, até que um dia elas não funcionam mais. Claro que você apanhar ou ser abusado por alguém que você esperava que te amasse é um enorme choque de realidade, mas isso não quer dizer que coisas menores também não sejam, ainda mais quando se trata de crianças.

A descoberta da diferença sexual pela criança pode ser traumática: Ela achava que eram todos iguais.

A descoberta da relação entre os pais pode ser traumática: Ela achava que era a única que tinha o amor da mãe.

A descoberta da doença, da velhice e da morte pode ser traumática: Nós não nascemos sabendo que iremos morrer.

O trauma acontece então devido à ignorância sobre a realidade. Quanto mais idealista e utópica for nossa visão de mundo, maior será nossa frustração e nosso sofrimento ao perceber que o mundo não corresponde ao que esperávamos dele. No âmbito individual isso pode resultar em depressão, melancolia, niilismo, cinismo, uma insatisfação crônica com o mundo da vida. No âmbito social, pode resultar em uma sociedade ressentida e vitimista, que não faz nada ao invés de lamentar sobre como foram enganados, como a democracia é uma mentira e como ninguém se importa com o bem-estar de seus cidadãos.

Isso me faz lembrar de uma frase de Tyler Durden no clube da luta: “Todos nós fomos criados vendo televisão para acreditar que um dia seríamos milionários, e deuses do cinema, e estrelas do rock. Mas nós não somos. Aos poucos vamos tomando consciência disso. E estamos muito, muito revoltados”.

Por que é que fazemos isso então? Por que é que tentamos vender ilusões às nossas crianças? Por que é que dizemos a elas que o ser humano é “bom” e que se elas se comportarem “bem” serão recompensadas, quando sabemos que não é isso que acontece? Por que é que tentamos ensinar a elas valores que nós sabemos que não correspondem à realidade? Vocês acham que estão protegendo elas da violência do mundo ao mentir e dar garantias que vai dar tudo certo?

“Estamos dando a elas esperança!”, gritam os idealistas, nos lembrando que tudo pode mudar. “O mundo é uma merda, mas se…”. “Se”. O maldito “se” idealista. “Se todo mundo se comportasse igual”, “se todo mundo se importasse”, “se todo mundo tivesse empatia”, “se todo mundo se unisse”, “se o proletariado tomasse os meios de produção”, “se a ditadura militar voltasse”… O que vocês estão dizendo? Que se o mundo fosse diferente tudo seria melhor? Que se o mundo fosse do jeito que vocês queriam que fosse, do jeito que vocês foram ensinados pelos seus pais e professores ele seria melhor?

Que seja, mas ele não é. Seus pais mentiram para você. Seus professores mentiram para você. E agora você continua mentindo pra si mesmo da mesma forma que vai mentir pros seus filhos para tentar protegê-los do mundo real. Você irá achar que os está protegendo, mas na verdade os estará tornando-os fracos. Estará dando a eles a base para que, depois de passarem por dificuldades em suas vidas, eles se tornem niilistas amargurados, desgostosos com o mundo da vida. Vítimas ao invés de heróis.

Por que não tentamos lutar um pouco contra a covardia e encarar o mundo como ele é? É horrível? Sim. Doloroso? Demais. Mas é o único jeito de sermos realmente livres da culpa e de outras ilusões e nos tornarmos fortes o suficiente para encarar a vida, e não fugir dela. Celebrá-la, e não lamentá-la.

Você tem coragem o bastante?

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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