Textos

A Carneia – Parte 3 – Duas garotas e suas garrafas de Vodca.

O irmão de Rebeca iria sobreviver. Passamos praticamente toda a segunda de carnaval no hospital. Minha cabeça latejava. O hospital era um circo dos horrores, pessoas indo de um lado ao outro, bêbados acidentados, crianças feridas, gente com goma e sangue misturados em seus corpos. Um ou outro coma alcoolico, um ou outro esfaqueamento, acidente de trânsito e afins. Gritaria, comoção, choradeira, gritos de dor. Um exercício praticamente mental para quem deseja observar a carnificina de perto. Os pobres médicos plantonistas faziam o que podiam com uma quantidade ínfima de recurso e um tanto quanto de força de vontade. Eu pagaria uma cerveja para cada um destes se tivesse dinheiro. Dona Valdevina parecia mais tranquila agora, vaso ruim nunca quebra. Rodson sobrevivera aos tiros nas costas e Valdevina agradeceu à Deus por isso, mesmo com o pobre do médico perdendo o feriado para salvar o incauto do filho.

Deixei Rebeca em casa e retornei ao meu apartamento com uma promessa de ligação. Estava tudo muito escuro. Era domingo seis da tarde, guardei o resto do dia para beber e dormir. Daí lembrei que não havia mais uma única bebida em minha residência, dai decidi dormir, decidi que iria dormir e só acordar quando todos os meus problemas fossem resolvidos.

Porém eu sou movido na geração de problema.

O telefone tocou várias vezes e eu ignorei. Dai o telefone se tornou batidas na porta. Eu não sabia que horas eram, também não me importava. Só despertei quando eu ouvi, lá fora, uma vozinha conhecida me surpreendeu, a pessoa dizia: “sou a Ângela, lembra de mim? Roberto me deu seu endereço. Trouxe Vodca”.

Ângela vestia uma camisa do Daft Punk e uma saia Jeans, ela me apresentou para Fernanda, uma guria gordinha de cabelos bem curtos. Segundo ela, Fernanda é grande fã das besteiras que eu escrevo. Ambas traziam garrafas de Vodca, uma bem vagabunda, de nove reais, porém para quem não tem nada, meio é o dobro. Elas foram entrando se se instalando como se a casa fosse delas. Eu estava apenas de bermuda, com meu barrigão saliente e meus cabelos desgrenhados. Fernanda foi direto nos meus discos enquanto Ângela colocava as garrafas no chão da sala.

– Você sabe que já são onze da manhã, não é? – Ângela sorria, eu duvidava que ela tinha apenas dezesseis anos, era bem forte, formada. Seus olhos sorriam junto com as bochechas salientes. O cabelo cumprido e encaracolado, pintados de um laranja meio loiro. Ela e Fernanda tinham um lance, porém ela falou o que tinha acontecido. Fernanda achou fantástico. Era daquelas garotas que enchem a cara de vinho barato e gritam “Yuhuu” para todos os lados. Ela bisbilhotava meus discos. Perguntou quem era Wynton Kelly e eu fingi que não escutei. Preparei um drink de Vodca com refrigerante de limão, pelo menos uma meia garrafa que sobrevivera na minha geladeira, e servi para as gurias. Pouco tempo elas começaram a falar da vida delas.

– Foi muito difícil para que eu me assumisse para minha família – dizia Fernanda – minha mãe no fundo sabia, mas fingia que não via nada. Eu sempre preferi as “coisas de meninos”.

Ela fez sinal de aspas com os dedos.

– Daí uma vez ela me viu com uma menina no colégio, e foi uma merda, uma merda pura! Pouco tempo depois ela me pegou fumando maconha no banheiro – Fernanda se vangloriava de suas atitudes adolescentes. Ela tinha dezessete anos, mas uma mentalidade débil.

– De onde você tira as histórias que escreve João? – Uma garrafa de vodca já tinha ido embora.

– Eu apenas vivo, vejo as coisas que acontecem e saio escrevendo, não sou nenhum grande escritor nem nada. Apenas pego acontecimentos cotidianos e recheio com mentiras. Metade das histórias que acontece com um escritor são superlativadas.

– Então se fosse escrever sobre a gente, você diria que fodeu nós duas em um mènage? – Fernanda já estava bebendo Vodca pura no meu copo.

– Sexo não é tão fácil como na literatura, guria.

– Bem – Ângela, tirava sua blusa e seu sutiã, fazendo seus seios esparramarem. Ela toma um gole da Vodca diretamente da garrafa – pelo menos desta vez você pode dizer que foi bem verdade.

 

Parte 2

https://desacocheioemauhumor.blog/2018/02/11/a-carneia-parte-2-cabelo-rosa/

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

1 comentário em “A Carneia – Parte 3 – Duas garotas e suas garrafas de Vodca.

  1. Pingback: A Carneia – Parte Final – O maior prazer do carnaval. | De Saco Cheio e Mau Humor

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