Textos

Burro ou Vagabundo?

O curso de medicina é um dos mais disputados e difíceis de todo o país. Você tem que estudar igual a um filho da puta pra entrar, estudar pra caralho pra se formar, mais ainda pra passar na prova de uma residência e então pra se formar nela.

Além disso, o tempo é diferenciado: Enquanto a maioria dos cursos é de quatro anos, medicina é de seis. Enquanto grande parte deles tem a opção de aulas noturnas ou a distância, medicina é integral é presencial. Diferente da maioria das profissões, depois desses seis anos você não é livre para atuar com o que quiser, precisando obrigatoriamente se especializar em algo por mais anos antes de poder trabalhar com o que quer.

Então as vezes você para e pensa: Como isso é possível? Será que essas pessoas são algum tipo de super-humanos? Será que o dia delas tem mais de 24h, ou o cérebro delas funciona de forma diferente? Eu nunca aceitei essa hipótese. Ao invés disso, comecei a prestar atenção em quem eram os meus colegas e a ouvir suas reclamações.

Os exemplos que vou dar são de duas garotas ricas, minhas colegas de sala. Elas tinham 22 anos, sem filhos, não trabalhavam, faziam o curso integral e estavam sempre bem maquiadas, bem vestidas, com o cabelo bem tratado, iam na nutricionista, faziam academia, dança, entre outras atividades extra curriculares. Quero que isso fique bem claro para que não usem aquele argumento de “têm família pra cuidar”, de não terem tempo ou dinheiro ou coisas do tipo.

Uma dessas garotas estava sempre em um “grupinho” com outras nos intervalos, com quem conversava. Eu tinha apenas duas pessoas com quem conversava, que acabaram mudando de horário no curso, então eu passava a maior parte do tempo livre ouvindo música e lendo. Eu não tinha interesse em conversar com mais ninguém, por que diferente das conversas que eu tinha sobre filosofia, o sentido da vida e sobre “por que existe algo ao invés do nada”, as mulheres (que correspondiam a 98% da sala) conversavam de homens, dieta e dicas de cabeleireiro.

Isso não é um preconceito, eu estudei quatro anos em meio a elas. Mas o ponto que quero chegar aqui é que um dia, enquanto eu estava lendo um livro que havia pego na biblioteca da faculdade e que não estava na bibliografia do curso, a tal garota, em meio ao seu grupinho, sentada do outro lado do corredor, disse:

– Nossa, é por isso que você é tão inteligente, né, tá sempre lendo…

Aquilo não foi um flerte, foi como que um legítimo momento de “eureka” na cabeça dela. Mas eu sabia que ela iria esquecê-lo assim que o assunto do cabeleireiro recomeçasse, então apenas a encarei com um olhar estranho de “duh” e continuei a ler em silêncio.

A outra garota acabou fazendo estágio comigo, o que eu achei ruim, mas não tive outra opção. O problema dos estágios é que era uma merda conseguir encaixar todos eles enquanto ao mesmo tempo se fazia um curso integral. Por isso, tínhamos dias em que tínhamos a tarde inteira livre para encaixar esses horários. O “problema” aí era que as vezes, devido à disponibilidade do local, acabávamos ficando com umas lacunas entre os estágios, como um semestre em que teríamos que ir no local às 13h30 e depois as 17h, com um enorme vazio no meio.

Isso não era exatamente um “problema”, eu sempre tinha algo para fazer, como por exemplo ler (já que aparentemente os intervalos e horários livres que tive na faculdade me tornaram mais inteligente do que as aulas), estudar, mexer no celular, escrever, desenhar. Quando se tem imaginação, nunca se fica entediado.

Infelizmente, minha parceira discordava:

– Que absurdo! Eu não vou perder três horas do meu dia pra fazer esse estágio! Eu não vou! Eu. Não. Vou.

Ela repetiu essa frase algumas vezes, em fúria. Aparentemente o dia dela era importante demais para sacrificar três horas pelo estágio do curso dela. Curso esse que era necessário para dar a ela o direito (diploma) a atuar na profissão que segundo ela era o maior sonho da sua vida. Três horas.

O engraçado é que esses alunos, com discurso semelhante ao dela, eram os mesmos que iam em baladas e festas sexta, sábado e domingo (alguns do curso noturno inclusive faltavam às aulas de sexta para isso e de sábado de manhã por estarem de ressaca) e que reclamavam que não tinham tempo para estudar.

“Não tenho tempo”, “é muito difícil”, “você quer que eu leia um livro INTEIRO?”.

Por outro lado, existiam aquelas que realmente tinham muitos afazeres em suas vidas. Mães, casadas ou solteiras, com filhos, emprego e outras obrigações. Essas reclamavam que não tinham tempo para estudar, ou que não importa o quanto tentassem entender os livros, por mais que lessem e relessem, aquilo não entrava na cabeça delas e aí se o professor não explicasse direito a elas, se tornaria impossível para elas aprender. Não existe outra opção: Ou o professor muda seu método de ensino (o que é sua obrigação), ou elas não iriam aprender.

Agora eu lhe pergunto: Será que você iria querer que um cardiologista ao operar seu filho pensasse assim?

– Porra, mas eu não tive tempo de estudar sobre a artéria do pulmão, eu tava estudando a aorta, mas aí o laboratório ia fechar e só ia abrir três horas depois e eu não vou perder três horas do meu dia só pra ir estudar, né? Além do mais não tem como você querer que eu vá pra aula de cardiopatia numa sexta a noite, né?

Ou:

– Mas que culpa tenho eu?! Você não sabe o que é querer fazer medicina e ter três filhos pra cuidar em casa! Você acha que eu tenho ajuda? Enquanto meus amigos riquinhos estavam na aula de cardiologia eu tava levando a beatriz no médico pra cuidar da infecção de ouvido dela! E você vai me dizer que eu sou uma médica ruim por querer cuidar da minha filha?!

Por favor, me digam que eu não sou o único que acha essas justificativas ridículas. Mas se achamos elas ridículas na medicina, por que é que não tratamos com a mesma seriedade quando outros profissionais (principalmente das áreas de humanas e licenciatura) as usam? Só por que ninguém morre por causa disso?

Ainda assim, ninguém é perfeito. Ninguém exige que você seja perfeito, é por isso que existem as médias. Você tem uma média que vale de zero a dez e você precisa tirar apenas 6,0. Metade da nota é conseguida com uma única prova, enquanto a outra é conseguida com a somatória de trabalhos menores apresentados em sala. Alguns por escrito, alguns em grupo, alguns tem que ser apresentados, mas você tem tempo de sobra para ensaiar. Você pode recuperar a média do primeiro semestre no segundo. Você pode fazer provas substitutas e exames, e você pode faltar em até 25% das aulas, dois meses inteiros e ainda passar de ano (isso sem atestado médico, do contrário, pode ser por tempo ilimitado.

E você reprova. O que mais vocês querem?

Você quer ver as ruas cheias de profissionais que foram aprovados mesmo sem terem conseguido atingir a nota mínima necessária para concluir o curso? Você quer ser este profissional?

Qual é sua desculpa? Pelo que eu vejo, você só pode ser burro ou vagabundo. Vagabundo no sentido de que seu cérebro e suas funções cognitivas têm um funcionamento adequado à aprendizagem do que você se dispôs a aprender, além de você ter o tempo e os recursos necessários para ter sucesso nisso, mas, por falta de esforço seu e por culpa sua e de mais ninguém você não conseguiu aprender nem o mínimo necessário para concluir sua graduação. Por que você é um vagabundo.

A segunda opção é que você é burro. Tá, não vamos chamar isso de burrice, vamos dizer apenas que seu aparelho cognitivo não têm capacidade o suficiente de aprender o que lhe está sendo ensinado no ritmo exigido pela universidade e pela sua vida (uma dona de casa trabalhadora teria que aprender a mesma matéria que um adolescente ocioso tendo menos tempo para estudar mas fazendo as provas nas mesmas datas que ele). Ou seja, você é intelectualmente incapaz (seja por uma limitação cognitiva, seja por falta de tempo) de cumprir as exigências mínimas requisitadas por aquela instituição para obter seu diploma.

Nesse caso, o que você faz? Exige furiosamente que a instituição use padrões menos rígidos de avaliação para que você possa ser aprovado? “Você têm filhos, então ao invés de ter de ler 4 livros por ano, vamos reduzir pra dois”. É isso que vocês querem?

Ou vocês preferem mudar seus métodos de estudo, organizar melhor sua agenda com os afazeres domésticos e trabalho (talvez pedir uma transferência, redividir as tarefas domésticas), procurar aulas particulares, vídeoaulas, fontes diferentes, livros diferentes, ler e estudar durante os intervalos… Porra hoje em dia você tendo um celular e estando em um lugar com wi-fi você acessa o youtube e vê palestras e vídeoaulas de 5 – 10 minutos em qualquer lugar. O conhecimento nunca esteve tão acessível ao ser humano na história da humanidade.

Então qual é a sua desculpa? Você é burro ou vagabundo? Ou é alguém que corre atrás daquilo que quer?

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

3 comentários em “Burro ou Vagabundo?

  1. Olá, tudo bem?

    Simplesmente amei seu texto, pois ele casou com muitas das coisas que penso a respeito de educação e da faculdade, no geral. O curso de medicina é algo para se admirar mesmo, pois essas pessoas passam mais de 8 anos estudando, com uma dedicação exclusiva, mas isso não quer dizer que não tenham vida fora dali.
    As pessoas muitas vezes acabam colocando uma lista de prioridades em suas vidas, e não fazem as coisas mais importantes, não se dedicam ao tempo livre que tem. Elas preferem sair, se divertir e depois está lá reclamando da reprovação. Vi esses casos muitas vezes, tanto na graduação, como no mestrado. Acho que essas pessoas estão querendo ser vagabundos…

    Beijos!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Olá!
    Gostei do seu texto e no início da faculdade eu também escutava um monte de perguntas: “como vc consegue fazer tantas matérias e ainda trabalhar?” Eu simplesmente separava o meu tempo e sempre que ia estudar, eu ia estudar. Quando tinha tempo, adiantava uma coisa ou outra. Claro que as vezes batia aquele cansaço, mas nunca desanimei, porque sei que se eu não fizer, não farão por mim. Acredito que muitas pessoas se acomodam e acabam arrumando desculpas para tudo.
    Beijo

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  3. Excelente texto, para que qualquer aluno reveja, o que pretende fazer com o curso/educação que os seus pais lhes provêm e que no qual, no futuro, irão desenvolver como ferramenta de trabalho!
    Querem ser burros, ou profissionais, naquilo que escolheram fazer para a vida?

    Curtido por 2 pessoas

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