Textos

A Glândula da Consciência

Lacan disse que o único ato que o ser humano consegue realizar com sucesso é o suicídio. Ele não considerava o suicídio um sucesso, muito pelo contrário, seria como se entregar à pulsão de morte, abrir mão da responsabilidade sobre seu desejo (num sentido sartreano de responsabilidade) e ser derrotado pela realidade.

Dito isso a frase parece um pouco menos pessimista. Um pouco. O que ele quer dizer é que, com exceção do suicídio (que tem o objetivo de acabar com uma vida, e é o que acontece quando se tem sucesso no ato), nenhum outro ato humano consegue cumprir o objetivo a que se propõe. Nossa linguagem é insuficiente para expressar nossos desejos reais, e acabamos condenados a nunca ter uma satisfação 100%. Há sempre um resto.

Eu não sei. Mas parece realmente que nada funciona como deveria funcionar. Você já pensou nisso? E querem que sejamos felizes!

Pense: Desde o momento em que você acorda até quando vai dormir, quantas coisas não aconteceram da forma como você gostaria? O dia estava chuvoso, o trânsito estava parado, a impressora do serviço emperrou, o celular não reconhecia o wi-fi, o vídeo estava travando, seu chefe estava bravo, o café estava sem açúcar, ou talvez doce demais. Tudo o que você imaginou que aconteceria aconteceu, mas parece que de forma pior. Digamos que no máximo, em um dia bom, você consegue obter uns 80% de satisfação. Você é promovido, mas ainda assim, há um resto.

Esse resto pode ser angustiante. Pode ser sentido como um sentimento de inadequação, de desencaixe, e levar a pessoa inclusive ao suicídio, numa tentativa desesperada de acabar com ele (e fazer um ato bem sucedido pela primeira – e última – vez na vida). Mas também pode motivá-la a seguir em frente, a nunca parar, a nunca se acomodar, a usar todo esse resto, essa sobra, para conseguir mais. Lacan, seguindo Freud, chamava isso de desejo. Nietzsche chamava de vontade de potência.

O desejo é a única forma que temos de usar esse resto. Do contrário, ele acaba tomando conta de nossa mente e transformando tudo no vazio do tédio e da melancolia. A vida é definida tanto na química como na psicanálise como energia em movimento. Não num sentido espiritualista escroto, mas a energia que é recebida e gasta pelas moléculas de todos os seres vivos do planeta. A vida é energia em movimento, e tentar paralisar essa energia, buscando um “equilíbrio” ou “harmonia” – como muitas religiões orientais pregam – é querer compactuar com a pulsão de morte, a mesma do suicida.

A vida é energia em movimento. Nisso os espiritualistas estavam certos. Mas como puderam acertar e errar tanto ao mesmo tempo, não? Pois desse lance de energia, Nietzsche também falava, mas ele não teve a pretensão de separar a energia em “boa” ou “má”, afinal, será que a eletricidade julga um raio que mata um humano como “mau” e uma corrente elétrica que aquece uma casa como “boa”?

A vida é energia em movimento, é a energia está para além do bem e do mal. Talvez tenha sido isso que Nietzsche quis dizer, e que Freud e Lacan tentaram demonstrar com a ciência de sua época (afinal, eram neurologistas e psiquiatras e não escritores fracassados*).

Se a vida é energia em movimento, cabe a nós escolher o melhor caminho para deixá-la fluir. Nisso os espiritualistas também acertaram, mas erraram ao achar que a melhor forma para isso era eliminando o desejo. O desejo é a única arma que temos contra a falta.

Os espiritualistas nos fizeram achar que tínhamos grandes missões na vida, cheio de lições de moralismo, humildade e busca por harmonia, mas pode ser que na verdade nossa consciência não seja muito mais do que um pâncreas.

O pâncreas controla a insulina no corpo. Muita insulina = ruim, pouca insulina = ruim também. Também existem outras glândulas que controlam outros hormônios em seu corpo para garantir um equilíbrio entre o hipo e o hiper. Talvez a consciência seja como uma glândula: Sua função é garantir que a quantidade adequada de energia está sendo gasta. Gaste demais e poderá explodir com estresse ou burnout. Deixe-a acumular e cairá no tédio e até na depressão.

Isso coloca a responsabilidade pela sua felicidade de novo nas suas mãos, e isso volta a ser bem sartreano: Seja você um mendigo ou um burguês, você como Ser é o único responsável pela sua felicidade, que pode ser traduzida como ter um gasto adequado de energia em sua vida. Isso é semelhante à visão aristotélica da razão, talvez, como sendo uma ferramenta para melhor satisfazer suas paixões, buscando a virtude na moderação.

Mas lembre-se: Há sempre um resto. E o ciclo recomeçará.

 

 

 

*como um tal de Skinner

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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