Textos

A equilibrista da madrugada.

Seu desejo primordial era que o mundo acabasse em barranco. Deitada na minha cama, sem sair da minha casa há três dias. Bebeu tudo que tinha na minha geladeira, bebeu tudo que eu tinha nos meus armários, bebeu até o meu perfume. Ela desejava que o mundo acabasse, sua maior vontade. Não lembro como a conheci, talvez seja daquelas pessoas que não conhecemos, elas simplesmente surgem e bagunçam tudo. Um furacão trazendo tragédia as empresas de seguro, uma represa arrebentando e levando toda a história de uma humilde população ribeirinha. Talvez fosse a melhor definição da sua loucura por sempre estar louca. Com as mãos chacoalhando ela acendia um cigarro e a fumaça se dissipara no ar junto ao cheiro de suor, esperma e bebidas.

Eu espremia um resto de algo alcoólico na minha garganta, no parapeito da varanda. Os carros lamuriavam suas idas e voltas no negrume do asfalto. Uma madrugada triste de sábado, como qualquer outro dia triste de madrugada. Eu vestia-me apenas umas sujas cuecas e me debruçava perante ao imenso abismo de sete andares (de um prédio de 14) se outras pessoas pudessem me ver neste lamentável estado, possivelmente ligariam para a polícia, porém, esta polícia nunca chegara, então está tudo certo. Curiosamente, mesmo não lembrando de onde a conheci, mesmo trepando, bebendo e se entorpecendo com ela nestes últimos três dias, me vem a mente o fato de não saber seu nome, não saber sua idade, não saber de onde ela vinha ou onde morava. Conversávamos basicamente sobre literatura, arte, cinema e política, porém nunca falamos de nossas vidas pessoais. Também não lembro dela ter me chamado pelo nome. Mas, nesta altura do campeonato, que se foda.

Sinto suas pequenas mãozinhas agarrando-me pelo tórax e barriga. Ela esta vestindo uma de minhas camisas, e só. Está fumando um cigarro. Me pergunta que horas são e eu simplesmente não respondo. Os carros passam rasgando aquele silêncio ignorante. Talvez realmente fosse a hora dela ir embora, o assunto findara, e eu estava cansado daquele pequeno furacãozinho acabando com minhas reservas alimentícias. Não me importava se ela tinha algum lugar para ir, talvez fosse para uma festa, talvez fosse viver sua vida estranha com mais alguém. Em minha mente todos estes pensamentos surgiam, mas seu rosto magro, com lábios grossos, nariz afilado e olhos grandes. Seu cabelo cumprido, com mechas azuladas, e seu corpo magérrimo, com seios molengas ressaltados pela blusa, me encantavam. Ela decide sentar perigosamente no parapeito e me pergunta se ainda tem alguma bebida na garrafa. Passo para ela o vidro quase seco e ela dá um bom e fundo gole. Está com a perna do outro lado do parapeito, balançando no profundo abismo de cimento e concreto, sua pouca penugem vaginal em contato com o tosco parapeito me atiçava as vontades. Antes dela ir, pensei eu, teremos que trepar pelo menos mais uma vez. Ela fitava o vazio, ainda silente, balançando aquela perninha para o abismo, secando meu último vidro de Vodca. Com as mãos ocupadas, pela garrafa e o cigarro, ela era a equilibrista da meia noite, a mulher sem nome que me invadira a vida e o apartamento, a mulher Kamikaze que nada amedrontava, nem os poucos anos de vida que lhe restariam, nem os perigos dos homens que ela se misturava. Num súbito movimento vejo-a desequilibrando em direção ao abismo, a garrafa cai ao solo, estilhaçando-se (vazia). Mas eu consigo saltar, pisando nos cacos, segurando á pela cintura e braço. Tanto eu e ela rimos. Meu pé doía como o inferno, e um pouco de sangue brotava. Se ela tivesse caído seria o jeito mais bizarro que eu teria perdido uma mulher.

 

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

1 comentário em “A equilibrista da madrugada.

  1. Segredos da Juh Costa

    Uma história que te deixa preso e intrigado desde as primeiras palavras.
    Parabéns por conseguir isso.

    Segredos da Juh Costa!!!

    Curtido por 1 pessoa

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