Textos

O Poder do Trauma

Qual é o poder real de um trauma? Ele pode te criar? Ele pode mudar a sua vida? Ele pode mudar a humanidade? Não é novidade o fato de que muitas das pessoas que mudaram o mundo eram “loucas” de alguma forma: É sabido que tanto gênios como Sartre, Heidegger, e Rousseau como ditadores como Hitler e líderes religiosos como Joana d’Arc e Martinho Lutero tinham transtornos mentais. Agora, será que a mudança que essas figuras causaram na humanidade poderia ser atribuída unicamente à loucura delas?

Harry Guntrip foi um psicanalista inglês que dedicou grande parte de seu trabalho ao estudo do chamado Transtorno Esquizóide de Personalidade. Apesar do nome assustador, esse transtorno não tem a ver com os delírios esquizofrênicos que estamos acostumados, e sim com um distanciamento do mundo: A pessoa não tem nenhum interesse em criar qualquer tipo de vínculo com outras pessoas, preferindo passar a maior parte do tempo sozinha.

Mas não é isso que nos interessa do trabalho de Guntrip, mas sim um argumento que faz em um de seus livros, onde escreve que “o Existencialismo é uma racionalização do transtorno esquizóide em uma filosofia”. “Racionalização” é o nome de um mecanismo de defesa no qual a pessoa inventa motivos aparentemente racionais para justificar seus comportamentos ou acontecimentos ruins em sua vida (poderíamos considerar como uma forma de mentir para si mesmo de forma sofisticada). Reescrevendo a frase então, temos: “O Existencialismo é uma forma usar a filosofia para mentir para si mesmo sobre o fato de que você tem um transtorno mental”. Absurdo, não?

Acontece que Sartre é talvez o existencialista mais famoso de todos os tempos. E ele era louco. Além de ser viciado em metanfetamina, ele se tratou com Lacan, pois tinha alucinações esquizofrênicas, onde via garanguejos que o perseguiam pelas ruas de Paris. Ele ganhou o Prêmio Nobel de literatura, e um de seus livros mais famosos, A Náusea, descreve com detalhes algo muito parecido aos sintomas do tal transtorno.

Heidegger, outro representante desse movimento, ficou conhecido tanto pela sua genialidade quanto pela dificuldade que todos tinham e ainda têm de entender seus escritos. Também ficou conhecido por passar boa parte de seu tempo sozinho em uma cabana na borda da Floresta Negra, onde achava que podia filosofar melhor, e onde escreveu a maior parte da sua maior obra, O Ser e o Tempo.

A filosofia existencialista é muito criticada por certos sociólogos e psicólogos sociais por ser muito “individualista”. A filosofia de Sartre sobre a liberdade – de que todos somos responsáveis pelas nossas próprias vidas e dizer que o Estado ou nosso Inconsciente nos obriga a fazer qualquer coisa é má-fé e covardia – é considerada por alguns como uma filosofia burguesa, de alguém que não precisaria se importar com o coletivo à sua volta. Não poderíamos ao invés disso, como Guntrip, considerá-la uma filosofia esquizóide? Não poderíamos então dizer que, não o estudo esforçado e a percepção apurada de gênios, mas sim um transtorno mental foi o principal responsável por uma das maiores revoluções na história da filosofia?

Os exemplos não param por aí: Rousseau era psicótico, Schopenhauer era odiado pela mãe (que inclusive tentou matá-lo uma vez), Cioran tinha insônia e depressão severa e Aristóteles, em seu livro O Problema XXX, já dizia que filósofos, políticos e artistas eram mais propensos à melancolia.

Não estou querendo com isso desmerecer o trabalho de todos esses filósofos – sendo que o único motivo de eu saber essas coisas sobre a vida deles é o fato de tê-los lido e admirá-los – e sim dar suporte à teoria de Freud que diz que o trauma, ao mesmo tempo que dá origem à sintomas neuróticos, psicóticos e terríveis, dá origem à nossa personalidade, aos nossos valores, às nossas filosofias de vida – que, em alguns casos, tornam-se a filosofia de uma época.

Eu conheci uma mulher uma vez que parecia uma máquina: Vegan, não usava nenhum produto animal, cozinhava sua própria comida, ex-modelo, fazia academia, esportes e mantinha seu próprio controle nutricional que havia aprendido estudando por conta própria e com a ajuda de nutricionistas. Tamanha dedicação, que alguns poderiam considerar obsessiva, exigia, é claro, uma enorme motivação. E que motivação é melhor do que um trauma?

Ela me disse uma vez que havia se tornado vegan depois de ser obrigada a matar uma galinha para comer junto do resto do grupo de escoteiros pelo seu instrutor. Aquilo foi traumático para ela, a ponto de ela prometer nunca mais participar de nada que envolvesse ferir um animal. O trauma pelo qual ela passou foi racionalizado na forma de uma filosofia de respeito à vida. Muitos vão criticar essa visão, dizendo que estou reduzindo filosofias sérias à traumas, mas ninguém parece se importar quando sobreviventes de acidentes brutais, estupros ou “experiências de quase morte” dizem o quanto sua vida e sua personalidade mudaram depois desse acontecimento. Depois desse trauma.

Eu conheci outro cara que também teve uma experiência ruim com animais e comida na infância. Este no entanto não teve uma racionalização tão boa, e acabou desenvolvendo uma fobia de carne: Peixes, peças de carne e galinha em açougues ou supermercados o incomodavam a ponto de ele não poder chegar perto deles. O veganismo para ele não foi bem uma “escolha filosófica racional”.

Mas falo de mim agora, e de meu próprio trauma, para aqueles que talvez me acusem de não me olhar no espelho: Aos quatro anos, descobri, ao ver a foto de meu avô ainda jovem, que todas as pessoas envelhecem e morrem. Se isso não parece traumático para você, saiba que pegar os pais transando ou descobrir que garotas não têm pênis pode ser muito mais traumático que isso, e, como já vimos, causar transtornos que podem mudar o mundo.

O sexo e a morte, Eros e Tanatos, sempre foram os maiores mistérios da humanidade. É algo que todos de uma forma ou outra sentem medo de se aproximar. Talvez por isso que Freud tenha dito que toda angústia é angústia de castração, e a psicanálise trata da sexualidade, enquanto Heidegger disse que toda angústia é angústia de morte e a daseinanálise trata da consciência do homem sobre este fato.

Talvez seja por isso que eu escolhi a psicanálise e o existencialismo como os vieses para explicar o meu mundo.

Talvez todos nós estejamos fugindo do medo da morte, da angústia, do inexplicável. Pela arte, pela religião, pela filosofia, pela ciência. Segundo Lacan, é para isso que essas coisas servem. Tentativas nossas de representar o Real de uma maneira que ele não nos enlouqueça.

Mas e se for justamente essa loucura que poderá nos levar à grandeza?

Anúncios

Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

0 comentário em “O Poder do Trauma

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: