Textos

FEMINISTA.

Flaviana era uma amiga lésbica que eu tinha. Na maioria dos meus textos, eu conjugo o tempo verbal referente aos meus amigos no passado, uma vez que sou um péssimo cultivador de amizades. Minha falta de paciência com as pessoas vai se tornando crônica com o passar dos anos, tal qual uma artéria rompida que enche o pulmão de sangue e nos afoga lentamente num mar de solidão. Grande parte das amizades que eu tive foram hiatos de vida onde compartilhamos um mesmo lugar, um mesmo momento e perdemos, por fim o contanto, sobrando apenas ecos de risos e bons sentimentos que se perderão no oblívio da senilidade. Grande parte destes meus amigos da adolescência e princípio da vida adulta já tomaram seus rumos, deixando apenas as amarguras deste escritor com espinhos nos dedos. Na época em que eu e Flaviana vivíamos nosso hiato, participávamos de movimentos sociais com mais afinco, eu conhecia um porrilhão de gente dos cursos de humanas, e por eu parecer mais velho do que a idade que eu realmente tinha, todos ficavam meus amigos. Convenhamos também que as meninas de humanas sabem foder muito melhor do que as meninas das exatas. Flaviana se tornara a porta voz do movimento feminista, muito antes de grande parte do movimento se resumir a textões nas redes sociais.

Os discursos de Flaviana eram realmente muito bons, se ela não tivesse passado em um concurso público, ela com certeza seria uma excelente oradora em algum grupo de defesa das causas sociais. Quando ela falava do poder do macho opressor perante as suas vítimas mulheres, eu até me sentia envergonhado por ter nascido com um pau entre as pernas, quando ela falava sobre fidelidade, ou sobre como o homem (não ser humano) tinha uma tendencia a ser infiel, machucando assim o sentimento das suas parceiras, ou quando não respeitavam o direito da parceira sentir prazer, ou pior, quando ela falava de relacionamentos abusivos que levavam a agressão, eu realmente sentia-me compelido de ir até o banheiro e, com uma navalha, cortar meu pênis bem na base. Seus discursos me faziam refletir todos os relacionamentos que eu tinha passado até aquele momento e as meninas que eu abandonei por não ter paciência de contornar situações. Eu realmente pensava que meu único desejo era a saciedade do extinto sexual, da minha vontade libidinosa se ter prazer sexual, deixando assim o desamparo e a solidão no coração destas que eu havia me envolvido, por mais que eu tenha feito elas atingirem orgasmos múltiplos.

– As músicas, os filmes, os artistas misóginos que transformam as mulheres em objetos para os seu deleite, que influenciam os meninos na cultura do estupro! Abaixo ao macho opressor! Fim da arte misógina! – ela gritava perante a microfonia do pífio equipamento de som, mas ela não precisava deste equipamento, Sem ironias; Flaviana sabia mesmo enaltecer uma causa e inflamar as pessoas, tal qual Alexandre da Macedônia (que também era gay). Durante este hiato eu andei muito com o grupinho de Flaviana, eles curtiam muito minhas poesias, apesar de não terem ideia quem tinha sido Allen Ginsberg.

Num destes perdidos finais de semana, durante uma rodinha de bebedeira e cigarros, perguntei para Flaviana o motivo de Brenda não ter aparecido. Brenda era a namorada de Flaviana, garota tímida, pacata, porém muito gente boa. Flaviana, bem bêbada, disse que ia me contar um segredo. Sacou o celular e me mostrou a foto de uma guria morena, de cabelos bem cacheados. Ela era fotógrafa de alguma revista importante, Flaviana estava ficando com ela e com Brenda, porém estava começando a dar um fora na Brenda, por ser uma menina boba, segundo a própria Flaviana, para ficar com a Fotógrafa.

– Caramba, isso é uma merda hein Flaviana! – disse eu, entre um gole e outro. No fim das contas, eu acabei trepando com a Brenda durante um tempo.

A fotógrafa se chamava Camila, gente muito boa. Muito simples. Ela não era lésbica por completo, ainda estava se descobrindo, indo mais para a onda bissexual. Elas não se levavam a sério, Flaviana diste que era só uma parada sexual entre as duas, e que não iria se aprofundar em nenhum relacionamento. Eu dei risada, disse que quando menos se deseja se aprofundar em alguma coisa é que já estamos submersos o bastante para morrer afogados.

– Você está muito dramático hoje! – disse Flaviana.

– Camila é gente boa, você já fodeu tudo com Brenda! Tá pior do que eu guria.

– Não me compare com suas escrotidões! – Eu e Flaviana ficamos algumas semanas sem nos vermos. Fiquei sabendo que o lance com Camila terminou e ela resolveu cair na farra. Muitas vezes vi Flaviana dançando divertidamente as mesmas músicas que um dia ela protestou contra.  Nos esbarrávamos entre uma festa e outra, coisa comum quando se tem os mesmos amigos. Nos atualizávamos. Também fui para alguns comícios prol feminismo. Fui rechaçado, certa vez, por ter defendido demais a causa feminista em um debate. As feministas me acusaram de “tirar o seu protagonismo”.

– Que se foda! – foi o que eu disse na época antes de pular fora. Foi quando parei de participar destes movimento sociais. Até hoje tenho alguns poemas sendo utilizados de maneira indevida por estes grupos.

Flaviana começou a namorar uma amiga minha da época do colégio. Elenita era daquelas gurias que sempre brincaram com os meninos. Crescera e se tornara um mulherão. Ter amigas lésbicas é sempre muito vantajoso, beber e conversar qualquer assunto na neutralidade do jogo da sedução, você se concentrar em apenas conversar, sem o intuito de foder. Apenas conversa pela conversa. Elenita foi criada por uma família religiosa, isso a tornou muito insegura sobre si mesma. Notei que Flaviana tinha um gosto por estas meninas inseguras, como se sentisse prazer em fazer gato e sapato delas. Eu avisei Elenita que poderia ser um problema, mas ela queria tentar, dissera que Flaviana havia mudado. Este argumento de mudança me fez perder a fé na humanidade. Flaviana poderia ter mudado, de fato, porém sua alma cafajeste estava impregnada. Um relacionamento inofensivo se tornou abusivo, por algum motivo obscuro Flaviana sentia um ciumes mordaz de Elenita, sem ser motivado, pois a mesma nunca demonstrara nenhum sinal de traição. Flaviana seguia e abusava moralmente da coitada, tal coisa gerou comentários até mesmo aos amigos mais próximos.

Quando Elenita um dia me dissera que não poderíamos mais nos ver eu perguntei:

– Flaviana que mandou não foi?

– Não, nada haver. É porque eu não acho certo eu ver um homem…

– Elenita, nem seus amigos e suas amigas sabem como você está. Quantas brigas vocês tiveram na última semana? Não acha que este relacionamento está fazendo mal para vocês duas.

Nunca, nunca meta a colher.

Flaviana, sabia qual o bar eu gostava de beber minha cerveja e foi tirar satisfações.

– O que você está metendo na cabeça da minha mulher!? – disse ela esbravejante. Flaviana ficava muito bonita quando estava com raiva, eu até entedia o motivo das meninas ficarem hipnotizadas por ela.

– Eu? Você está mantendo a coitada da Elenita em cárcere privado. Desde que ela foi morar contigo a coitada não sai de casa, não vê mais os amigos. Até para a faculdade dela você vai junto!

– Com qual moral você pode falar isso? Um cara que é conhecido por ter vários relacionamentos, por trair as garotas com quem está! As pessoas te conhecem!

– Flaviana, primeiramente eu nunca traí. Não firmo relacionamento sério com ninguém exatamente para isso não acontecer. Não vou dizer que sou santo, deixo claro quem eu sou quando vou me relacionar com alguém. Você era para ser exemplo e não cometer os mesmos erros que os machos opressores cometem. Para quem defendia a causa feminista, para quem falava sobre as músicas, sobre a cultura do estupro, para quem protestava contra relacionamento abusivo, o que eu vejo? Uma mulher com um relacionamento abusivo, que bate a bunda no chão e que vive em relacionamentos paralelos. Sinceramente, você é a feminista mais machista que eu já conheci.

Eu estava bêbado, quando eu estou bêbado eu falo as coisas que eu queria falar mas, meu bom senso não permitiria se estivesse sóbrio. Ainda discutimos por um bom bocado de horas até que desistimos e daí então ficamos sem nos falar até hoje. Curiosamente eu conheci outras garotas lésbicas que também possuem algum tipo de relacionamento machista, muitas delas defensoras de ideologias feministas, porém com a incapacidade de olhar para o próprio quintal.

O problema das pessoas está no respeito que elas tem pelas outras, ou por si próprio. Feminismo ou Machismo, quem tem mais e quem tem menos direitos. Não adianta brigar pela paz mundial se você chuta cachorro na rua. Não adianta balançar bandeiras de protestos se a sua convicção não está formada.

Não adianta tentar mudar o mundo se
o mundo já nos infectou com suas obscenidades.

As pessoas mudam, com grandes passos. A ideia deste texto, que é mais uma biografia floreada de um momento na minha vida, me veio após ver, em uma rede social,  que Flaviana casou-se com um rapaz administrador de empresas e “crosfiteiro” e  que ela vai votar no Bolsonaro nas próximas eleições.

 

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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