Um ano da minha morte.
Um ano crendo que tudo foi diferente
e que tudo seria diferente
No seu rosto, em cada detalhe do seu rosto
a expressão do sarcasmo, da ironia, da rebeldia.
Quando explodiu o soco em mim, um soco frágil
tosco, bobo.
Mas que me marcou física e mentalmente para todo o sempre.
Em algum ponto do multiverso, se provado tal teoria
agora eu estou morto e enterrado.
Agora eu sou ossos.
Agora todos que me conhecem prosseguiram em suas vidas
enquanto vermes roeram minhas frias carnes
até os ossos aparecerem.
O moleque, o bandido, o marginal ainda sorri, aproveitando-se dos bens
roubados dos quais nunca consegui substituir.
A vítima jaz morta, a vítima é esquecida
e o bandido enaltecido pelo seu ato nobre de ser amigo do alheio
a vítima, o onagro, o espurco.
A vela, as milhares de lágrimas
o Oblívio.
Um ano da morte de outro eu em outro lugar.
Um ano da minha morte, um ano do terror
de sonhar com os olhos do meu assassino
com o cheiro do assassínio
misturado ao sangue que lavou meu rosto.

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