– Você é uma das poucas pessoas que eu conheço que ainda possuem um cinzeiro. – digo retirando o artefato de vidro que ocupava o seu espaço sobre o criado-mudo. Enterro os restos mortais do meu cigarro no cemitério de tabaco e devolvo o semicírculo transparente para o pequeno móvel de madeira. O cheiro da fumaça ocupava grande parte do minusculo quarto de pensão, localizado em um boêmio bairro de minha cidade.
          Aquele lugar, tal qual sua moradora, tal qual o cinzeiro, era um aglomerado liliputiano de depressões e momentos ruins, nãos meus mas de sua dona. O momento pós-sexo, aquele momento na madrugada do qual apenas o som dos carros (das buzinas especificamente) as luzes alaranjadas e os risos e as tosses de um fim de semana, conseguem adentrar ao recinto. Os gemidos cessaram, o suor começou a secar e os corpos se mantem inertes, após um cigarro, após outro cigarro. De madrugada a televisão brilha no seu esplendor, na nata da programação. Algumas conversas, solilóquios, pensamentos perdidos que não serão transcritos por não haver necessidade de manchar estas descrição com tais infames palavras. O pós-sexo é semelhante ao momento da viagem, aquela diversão de olhar na janela do ônibus. Um momento após transa, um momento após a luxúria guardar por nós por um Deus falível, humano, humilde. Ela pede o cinzeiro, e novamente me estico, agarro a peça monumental de vidro e ponho entre nós. Logo em seguida, saco mais um amigo do maço e o faço brilhar, como as estrelas mais distantes, como as tristezas mais profundas.
                Roupas espalhadas, enterradas, esquecidas pelo chão. O cheiro de suor, esperma e fumaça no ar. Os lençóis já sujos, desfalecidos ao solo como mantos brancos de pudicas virgens. Se dormíssemos com os cigarros entre os dedos, provável que incendíamos todo o ambiente, pois partes do colchão agora estavam empapados de restos de uma garrafa de cerveja caída. Devolvo, novamente, o artefato de vidro ao seu lugar de origem. Mais dois cigarros, menos alguns anos de vida. Nos agarramos naquela pseudo-escuridão. Estávamos sujos, bêbados e pelados. Estávamos excitados novamente da maneira que deveríamos estar. Nossas bocas eram cinzeiros e nossas línguas bitucas de cigarro. Ela desliza para baixo, para baixo, para baixo, chega até meu pau e começa a chupá-lo. Eu apenas sinto. Sinto. Sinto. Ela sabe muito bem o que faz, se diverte comigo, com meus gemidos pornográficos. Desta vez não haverá o último bastião de responsabilidade, desta vez eu colocarei na mão do destino a espada que irá decidir se uma decisão mal tomada levará á glória ou ao infortúnio. Puxo-a para cima e começo a foder, foder, foder. Gozo dentro, vejo o rio de sêmen espalhar-se no seu interior como uma dose letal de veneno humano. Não tenho tempo para pensar nas consequências do futuro quando penso em que poderia ter morrido no passado. Ela sorri, sorriso preocupado, mas sorri. Voltamos a fumar.
                 – Me dá o cinzeiro – ela diz, esticando a mão para mim.
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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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