Que o brasileiro é um povo corrupto, isso ninguém nega. É algo que está disseminado na população. Aliás, não sei nem se se pode chamar de “corrupção” algo que parece ser tão natural em um povo. É como se fôssemos engrenagens em um grande sistema que funciona a base da corrupção: Se você não é corrupto, o sistema emperra e você é rapidamente substituído por uma outra que cumpra sua função da forma certa.

Todos sabem disso. Todos sabem que existem momentos em que se você não quebra as regras, você não faz nada. Todos já quebraram, todos já mentiram, todos sabem como esse mundo realmente funciona, mesmo que mintam para seus filhos e os condenem a ter crises existenciais na adolescência quando têm idade para perceber isso. Somos todos hipócritas.

E é disso que eu quero falar hoje. Não de corrupção, mas de hipocrisia, e de uma das frases que parece ser o ápice dela atualmente: “É por isso que o país tá desse jeito”. Parece que essa frase virou uma explicação pra tudo, como dizer que mulheres bravas estão com TPM, ou que depressivos bravos não tomaram seus remédios.

“É por isso que o país tá desse jeito”, disse um cidadão exemplar ao pedir para que um homem idoso se levantasse no metrô para uma grávida se sentar e ter seu pedido recusado. Logo depois disso ele chamou o idoso de “verme” e ficou o resto da viagem resmungando como queria “arrancar aquele velho dali na porrada”.

“É por isso que o país tá desse jeito”, disse o bostinha de esquerda que morou comigo por um tempo, depois de ir à uma exposição de artes em um shopping onde o artista criticou seu adorado Marx.

– Senti vontade de quebrar a cara dele. Ele disse que enchia a cara, chegava em casa e ia pintar, sem consciência crítica nenhuma.

– É, e você fuma uma tora de maconha no quarto e depois vai pintar, o que é muito diferente, não é mesmo?

Silêncio.

“É por isso que o país tá desse jeito”, disse a coordenadora de um curso que fiz aos seus alunos, ao criticá-los por sujar o chão da sala de aula. “As faxineiras têm apenas 20 minutos para limpar, e é assim que começa, o povo em Brasília é um reflexo nosso, tudo começa com aqueles que jogam lixo no chão”.

É claro, o problema não são as condições de trabalho a que as faxineiras e professores são submetidos pelas escolas, o problema é o lixo que os alunos jogam no chão.

O problema não é a intolerância e a violência cometida contra aqueles que discordam da nossa opinião, o problema é que as pessoas não dão seu lugar no metrô.

O problema não é que uma elite pseudointelectual de merda fica fechada em seus prédios em Perdizes produzindo artigos que ninguém vai ler, e que servem apenas para alimentar o próprio ego, o próprio Lattes e o CAPES do curso, o problema é que artistas plásticos independentes enchem a cara e não lêem Marx o suficiente.

O problema nunca é você. O problema é que as pessoas não concordam com você. O problema é que você não tem controle sobre elas (por que é isso que você quer). O problema é que você é um bosta que não se olha no espelho e fica julgando o mundo segundo suas próprias fantasias.

E é por isso que o país tá desse jeito.

Anúncios