Já notou como algumas coisas na vida temos que aguardar dar muito errado para só depois tentar fazer com que dê certo?

Algumas coisas precisam dar errado para você aprender que machuca, que mágoa, que dói e que parece que nunca, nunca vai sarar. E sabe, a ferida parece que nunca vai fechar, e acho de verdade que algumas nunca se fecham mesmo, que elas ficam abertas para o resto de nossas vidas e, por isso não se tornam cicatrizes.

Pois bem, eu tô cansado de ver borrões, de não reconhecer rostos, de não enxergar pessoas e ou lugares, pois tudo que vejo são borrões. Tô cansado de perder um transporte atrás do outro porque não consigo ler a porra de um letreiro, e quando o transporte fica perto o suficiente para que eu enxergue já é tarde demais para dar sinal, sei la, eu cansei de ir ao cinema e a cada vez notar que preciso sentar mais próximo da tela, pois a legenda fica toda embaçada cada vez mais.

Acho que quando o mundo é um borrão, percebemos o quanto enxergar é bom, em quanto ver com nitidez é maravilhoso, notamos que viver em um mundo sem detalhes é áspero demais.

É rude, é frio, é quase cinza demais.

Depois que parei de enxergar o mundo pela minha lente de vidro, pois machucava demais, notei dia a pós dia a vida se tornar um emaranhado de luz fosca, dia a pós dia via um palmo a menos e precisava de um passo a mais para conseguir identificar algo.

Acho que o ruim de ter doenças degenerativas é isso, é você sentir na pele que tá se deteriorando, que tá piorando e o pior de tudo isso é saber que não pode fazer nada a respeito, é angustiante entender que tudo que você pode fazer é esperar piorar, é esperar não enxergar mais.

Aonde quero chegar dizendo todas essas coisas?

Só quero dizer que ficou ruim demais todos esses borrões e que por ter  ficado ruim demais, agora chegou a hora de operar o olho direito, tive que esperar ficar pior para tentar fazer com que ele dê certo, com que ele fique melhor, com que eu consiga voltar enxergar.

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