Textos

Sociedade McDonald’s

Imagine a seguinte situação: Uma pessoa é membro de um clube gastronômico no qual ela paga uma mensalidade fixa e tem direito a comer em qualquer dos restaurantes daquele clube de graça. Dentro dele existem restaurantes de todos os tipos: Japoneses, chineses, coreanos, árabes, americanos, franceses, ingleses, italianos, entre outros, e essa pessoa pode comer em qualquer um deles, pagando apenas a mensalidade fixa do clube. Mas essa pessoa, sempre que vai lá, come no McDonald’s.

Todas os dias que ela vai até aquele clube ela vai no McDonald’s daquele lugar e pede o mesmo sanduíche. As vezes ela enjoa e acaba indo no Bob’s, ou no Burguer King, mas não sai desses três, aqueles que têm a fórmula mais simples, um sistema de linha de produção e o valor nutritivo mais baixo (se é que há algum) dentre todas as outras dezenas opções que ela tem à sua disposição.

O que você pensaria a respeito dessa pessoa? No pior dos casos, que ela é uma imbecil. Talvez, se for mais gentil, ache apenas que ela está desperdiçando todas as oportunidades que ela tem de desfrutar aquele clube, e que talvez ela deveria parar de pagá-lo. Pois é. Agora imagine que a maioria das pessoas faz isso com tudo nas suas vidas.

Eu sempre gostei de ler e estudar. Claro que não as matérias chatas do ensino fundamental, mas as coisas que despertavam o meu interesse. E meu interesse intelectual, principalmente, foi o que me levou a morar e estudar em lugares diferentes e então conhecer pessoas diferentes que eu achei que tivessem o mesmo interesse que eu, mas que acabaram demonstrando ser apenas mais um na fila do McDonald’s, para minha surpresa e decepção.

Falo “surpresa”, por que não é estranho que as pessoas não conversem sobre as coisas que elas estudam? Se você estuda psicologia, ou filosofia, por exemplo, e você diz gostar daquilo (já que as pessoas da fila sempre dizem adorar gastronomia) você espera que elas queiram conversar sobre o assunto. Diabos, se você faz qualquer graduação ou curso por opção e diz amar aquela área do conhecimento, eu espero que você queira conversar sobre ela, por que é natural que nós queiramos falar sobre as coisas que amamos, não?

Mas não, não é isso que acontece. As pessoas com quem eu estudei quase nunca conversavam sobre aquilo que elas estudavam. As mulheres falavam sobre homens, fofocas, baladas, cabelo e academia, os homens falavam sobre mulheres, drogas, fofocas, baladas e sobre merda (sim, literalmente a merda que eles haviam cagado na privada no dia da conversa). Por mais nutritivo que pudesse ser o curso que estavam fazendo, tudo sobre o que eles queriam falar era sobre o McDonald’s.

Eu achei que talvez fosse culpa da minha cidade de origem, interior, lugar de gente de mente pequena, como dizem. Mas eu fui para São Paulo e vi mestrandos de uma universidade de renome conversarem sobre os mesmos assuntos. Eu fui em um congresso de psicanálise na Argentina, que, depois da França, é o país mais avançado nessa área, e as pessoas que foram comigo, no tempo livre, conversavam sobre os mesmos assuntos. Todos eles, diante de um universo inteiro de restaurantes da mais refinada culinária, o qual pagaram caro para ter acesso, queriam apenas o McDonald’s.

Mas você não precisa sair do país ou morar na capital para perceber isso, basta navegar pela internet. Eu posso dizer que aprendi muito mais sobre diversidade cultural, pensamentos e ideias opostas em fóruns do facebook ou em palestras e vídeos que assisti pelo youtube, do que interagindo com pessoas cara a cara. Mas as pessoas não fazem isso. Elas usam esses sites para assistir vlogs de moda, compartilhar vídeos de humor e de gatos engraçados e postar fotos de suas férias em praias comuns, como se ninguém nunca tivesse visto céu, mar e areia antes.

Outro exemplo é o Netflix, talvez o exemplo que mais se assemelhe à metáfora do clube gastronômico: Uma invenção incrível, de baixíssimo custo e que possui uma infinidade de filmes, séries e documentários de diversos gêneros e países diferentes. Ainda assim, ouço pessoas dizendo que “não têm nada para assistir”.

O curioso é que o gênero favorito das pessoas que disseram isso é o de séries de investigação criminal, que estão na moda hoje em dia, e que são basicamente a mesma série. Elas têm a mesma história, o mesmo roteiro, os mesmos personagens e funciona da mesma forma: É um supergênio (ou uma equipe de supergênios) que resolve crimes em 40 minutos, tem um romancezinho problemático que parece nunca dar certo mas no final, tudo se resolve. Ou é o capeta que veio pra terra pra resolver crimes em 40 minutos, tem um romancezinho problemático que parece não dar certo, mas no final, tudo se resolve. Ou é uma zumbi vidente que resolve crimes em 40 minutos, tem um romancezinho problemático, e no final tudo dá certo. Ou uma antropóloga forense. Ou um médico. Ou um neurologista esquizofrênico. Ou um escritor. Ou um vampiro. Ou mesmo policiais ou investigadores normais*.

É só mais um exemplo da sociedade McDonald’s: Nesse caso, uma linha de produção de roteiros de Hollywood, que nunca muda, por que não precisa mudar, já que as filas estarão sempre cheias. As pessoas reclamam de Malhação, de Chaves ou de novelas mexicanas, mas é só colocar atores americanos que elas não percebem a diferença.

E aí, a grande piada que resulta disso tudo, que é talvez o principal motivo de eu escrever esse texto, é que esse bando de obesos mórbidos e viciados em conteúdo lixo, tem a coragem de dizer que a culpa não é deles, e sim do mercado, de Hollywood, do governo, da puta que pariu. A culpa é do “Sistema”. É o Sistema que manipula essas pobres almas indefesas tornando-as burras e fazendo-as se viciar em conteúdo de baixa qualidade. O Sistema não dá a elas oportunidade de pensar. O Sistema as aliena. O Sistema torna as coisas do jeito que estão.

Tenho uma novidade pra vocês: “O Sistema” não precisa manipular vocês. Por que vocês não são uma ameaça. Vocês são tão burros, que mesmo tendo acesso a todo um universo de informações e conteúdos diferentes, vocês acabam escolhendo por conta própria aquele que é mais podre, que não te acrescenta em nada, que é lixo transformado em carne que eles colocam com molho especial em um pão com gergelim e vocês comem.

Vocês comem, não por que são obrigados, ou por que são pobres, ou por que não têm acesso a algo melhor. Vocês comem por que é disso que vocês gostam. Vocês preferem o lixo, o mais do mesmo, o medíocre, a fofoca, o banal. O Sistema apenas sabe como vocês funcionam e se aproveitam disso para ficarem mais ricos, enquanto vocês ficam mais burros, doentes e pobres. E quer saber? Visto que essa foi a escolha de vocês, talvez seja isso que vocês mereçam.

 

 

 

*As séries mencionadas (as que me lembrei, já que existem dezenas):

– Equipe de gênios: Scorpions, Criminal Minds

– Capeta: Lúcifer

– Zumbi vidente: Eu, Zumbi

– Antropóloga forense: Bones

– Médico: Rosewood, House (não resolve crimes, mas desvenda mistérios da medicina)

– Neurologista esquizofrênico: Perception

– Escritor: Castle

– Vampiro: Blood Ties, Angel

– Policiais/investigadores: CSI (todas as versões), NCSI (todas as versões), entre outras

 

 

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

1 comentário em “Sociedade McDonald’s

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