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A Árvore que criou Consciência

Imagine se uma árvore criasse consciência.

Da mesma forma que o ser humano criou a sua: Todos os milhões de árvores existentes vivendo da mesma forma, até que de repente, graças a uma mutação genética, uma delas nasce e começa a pensar sobre a própria existência. Seu tronco cresce e engrossa, seus galhos se ramificam e suas folhas e flores nascem e aumentam de quantidade. Ela perceberia isso tudo.

Mas ela continuaria sendo uma árvore.

No que ela pensaria? Talvez ela visse vários animais se movendo: Zebras e antílopes correndo pela savana, pássaros e insetos voando, transando e se reproduzindo, e aí talvez ela se sentisse mal por ser um ser enraizado, condenado a viver sempre no mesmo local. Ou talvez ela visse os mesmos animais sendo devorados por predadores, lutando pela sobrevivência, morrendo de fome ou de sede, e aí talvez se sentisse abençoada por ser capaz de produzir seu próprio alimento e de não depender de nada além da luz solar e da água da chuva para fazê-lo.

Mas ela continuaria sendo uma árvore.

Talvez ela ficasse feliz pelos beija-flores e abelhas que se alimentam de seu pólen, pelos pássaros que fazem dela sua casa ou dos mamíferos que abrigam sob sua sombra. Talvez ela achasse que estaria cumprindo seu papel no universo ao prover esse tipo de coisa para as outras espécies e se sentiria útil e grata por desempenhar essa função. Ou talvez ela odiaria essa função, desprezando os outros animais que dependem dela para sobreviver, e se sentiria parasitada e usada por seres ingratos que não têm consideração por ela.

Mas ela continuaria sendo uma árvore.

Talvez ela visse outras árvores ou plantas morrerem, e se questionasse sobre para onde elas iriam, e sobre o que seria dela quando o mesmo acontecesse com ela. Talvez ela imaginasse se alguém a criou, talvez um deus-árvore, no início dos tempos, que ela viria a conhecer após sua morte. Ou talvez ela imaginasse que não haveria uma “pós-morte”, e ela simplesmente se tornaria adubo para as plantas ao redor, ou lenha para os homens que de vez enquanto cortam suas irmãs para fazer fogo com seus corpos.

Mas ela continuaria sendo uma árvore.

O fato de termos consciência não muda tanta coisa assim. Podemos refletir o quanto quisermos sobre a existência, sermos ateus, capitalistas, crentes, comunistas, dissertar sobre a melhor forma de viver a vida ou de criar uma sociedade, mas no final, não passamos de um amontoado de células com prazo de validade.

O fato de termos desenvolvido uma consciência não é diferente de peixes desenvolverem guelras ou de pássaros desenvolverem asas: Uma mera mutação adaptativa que nos permitiu aumentar a taxa de sobrevivência de nossa espécie. Podemos sorrir, chorar, sofrer ou gozar, mas no final, nosso destino será sempre o mesmo.

No final, continuaremos sendo humanos.

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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