Não haverá mais sofrimento, meu filho. O velho disse. Disse com a cabeça daquele pequeno ser enterrada no peito, num abraço forte. Os dias estavam quase chegando ao infinito, podia-se ouvir a tragédia cada vez mais próxima. Os olhos do velho tremiam, o medo era tão real quanto qualquer outro sentimento já presenciado por aquele corpo que não teria mais tantos anos de vida. Não haveria sofrimento? Pensou, eles estavam escondidos há quanto tempo? Estavam sem comer, bebiam a pouca água que conseguiam pegar, com sujas garrafas descartadas. O garoto tremia de frio, com ossos já aparente. O velho nada poderia fazer, apenas observava o pequeno definhando e definhando. Eram tempos difíceis, tempos ruins, de tão ruins se tornaram inexplicáveis, ninguém ao certo saberia dizer como chegaram aquela situação, nem o velho, nem o menino, nem ninguém, apenas ali estavam, definhando e definhando, alimentando-se de suas próprias salivas. Ninguém viria acudir, ninguém viria ajudar, tudo se tornaria apenas um passo vazio, uma míngua, uma fome que retorceria os vazios estômagos daqueles sobreviventes. O velho sabia disto, já passara fome, não seria a primeira vez, porém a criança não tinha esta experiência, não tinha esta habilidade. Ninguém um dia iria imaginar que este ponto chegou e o que deveria ser feito será feito. O velho dissera; “Não haverá mais sofrimento, meu filho” e com todo o resto de sua força sufocou o pobre garoto no próprio peito. O garoto já não teria forças para lutar ou reclamar, para tentar salvar o próprio resto de vida, ele apenas se debateu por alguns segundos e aceitou a escuridão eterna da morte. O velho, cansado pelo último esforço, respirou. Agora sozinho, contava-lhe os últimos instantes de vida, pensando que, naquela situação, quantos pais tiveram que tomar as mesmas atitudes com os filhos para evitar um sofrimento ainda maior.

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