Vocês já viram uma mãe que faz de tudo para educar os filhos, por que seu marido inútil que não os quis chega em casa depois do trabalho e os ignora pra jogar um vídeogame estúpido? Ela faz o melhor que pode, é rígida, mas é obrigada a deixar a criança com os pais para trabalhar, e esses desfazem todo o trabalho que ela fez durante o dia.

Já viram uma mãe cuja filha, após uma briga, tenta se matar e essa mãe, após ser repreendida por familiares, diz que “se ela tivesse conseguido, eu não me sentiria culpada. Fez por que quis”? E que tal uma mãe que foi morar na rua para não mandar o filho crackudo que a espancava diariamente para a polícia?

Já viram coisas desse tipo? Não? Então não me venham com esse papo escroto de que o amor entre pais e filhos é “incondicional” ou “natural”. Vocês não sabem de 1% do que acontece na merda do mundo inteiro e continuam aí agindo como se o Papai Noel existisse. Até mesmo ateus, que se julgam tão inteligentes e superiores por não acreditarem em deus, dizem merdas desse tipo.

Nós só começamos a nos importar realmente com as crianças no período pós guerra, quando, da mesma forma que aconteceu com as mulheres e os gays, o capitalismo percebeu nos duendes a possibilidade de um enorme mercado consumidor, e aí começaram a investir na saúde e no conforto deles. Antes disso elas eram vistas como “miniaturas de adultos”, “projetos inacabados”, que deveriam ser “vistas e não ouvidas”. A empatia é recente – e ainda rara – na espécie humana.

“Mas agora pensamos diferente”, você pode dizer. “Agora nós nos importamos”.

Será mesmo? Vamos ver: Dois zumbis¹, no ápice de sua aventura amorosa – ou depois que ela já tenha se esgotado e se tornado tediosa – decidem ter um filho para ser a cereja no topo do bolo – ou para salvar o casamento. Nos primeiros meses ele é maravilhoso, e cumpre a função de validar a existência do casal. Mas logo ele começa a dar trabalho.

Os zumbis então o colocam nos depósitos de duendes² de hoje em dia que chamamos de “creches” ou “escolas de educação infantil”, onde o objetivo das professoras é alfabetizá-los antes dos cinco anos a qualquer preço e fazê-los gastar energia correndo e gritando para que consigam dormir na hora da soneca.

O duende cresce, e vai para o ensino fundamental. Mas a escola só armazena os duendes durante metade do dia, e aí os zumbis precisam descobrir onde colocá-lo no tempo restante. Se forem ricos, “pra não ficar na rua”, vai ter acesso a diversas atividades extracurriculares. Se for da classe média, fica no escritório do pai, mofando até ele sair do serviço. Se for pobre, vai ajudar no trabalho dos pais ou fica na rua mesmo.

E ninguém liga para o duende ou sabe o que está se passando na cabeça dele. Para os zumbis está tudo bem, até que ele começa a ir mal na escola. Notas baixas, inquieto na sala de aula: Levam-no ao psicólogo.

O psicólogo percebe que a angústia do paciente tem a ver com problemas no relacionamento dos pais e por se sentir sufocada por eles, e a estimula a pensar por si mesma e a resistir às vontades dos pais com as quais ela não concorde. O paciente começa a “responder” para os pais, e esses acham que ela está piorando e vão tirar satisfação com o psicólogo. Quando este sugere que os problemas podem estar no relacionamento do casal que se reflete no comportamento do filho, eles o retiram da terapia.

Levam o duende em um psiquiatra. Ele ouve sua mãe por cinco minutos e fala que o psicólogo estava errado. É muito mais simples, na verdade: TDAH. Receita Ritalina e está tudo resolvido. O filho era apenas uma peça defeituosa que o médico conseguiu resolver. Agora os zumbis podem voltar para sua bolha cor de rosa, acreditando em coisas com que o amor entre pais e filhos é natural e incondicional.

O duende cresce e desenvolve depressão. Dizem para ele que é apenas um desarranjo hormonal, que não tem nada a ver com suas relações ou familiares, que essas ideias bobas já haviam sido superadas com os estudos da genética e que podem resolver isso facilmente com uma pílula. Os zumbis continuam na bolha, e agora o duende já tem idade para fazer parte dela.

O duende cresce e se torna um zumbi. Ele conhece outro da sua espécie com neuroses compatíveis com as dele e os dois passam a ter uma vida juntos. Seus problemas não foram resolvidos, e os problemas com seus pais também não. Eles decidem fazer um duende, e então cometem todos erros que seus pais cometeram.

O ciclo recomeça.

Será que passamos realmente a nos importar? Ou só inventamos drogas e distrações para não ligar para nossa indiferença?

 

 

Dicionário do David:

 Zumbis:

/s/

Analogia a você, o “everyday normal guy”, humano ordinário e medíocre que infesta o planeta.

Sinônimos: Macacos (pelo barulho e bagunça que fazem), Drones (pelo automatismo de repetição)

Duendes:

/s/

Analogia à crianças pequenas por aparecerem correndo do nada em shopping centers ou locais lotados falando em uma língua desconhecida.

Sinônimos: Sacos de carne, demônios (ambos autoexplicativos)

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