Sou um pedaço de sujeira na calçada, não faço sentido nem nas palavras deste texto. Se tem alguém o escrevendo, que irônico seria, de sujeira a Deus, todo o universo que entra em contato com a ponta de meus dedos se transformam em uma verdade factual e absoluta, até mesmo o mais podre dos homens consegue criar um universo sagrado e quântico, na sua dimensão. Ainda sim, este pequeno pedaço de sujeira, saco de ossos, átomo que sabe que é um átomo, não consegue encontrar o motivo da existência em si, talvez se fosse filosofar com meus botões os verdadeiros motivos dos acontecimentos mais extraordinários, ficaria sem saber contar, ou até mesmo, buscaria entender algum novo motivo que tentasse explicar a solidão, a dor, o sofrimento e o desespero. Talvez como pedaço de sujeira na calçada eu não conseguisse compor a linha de eventos que me levou até esta calçada, me levou até a embriagues de ser um sujo perdido neste áureo e apolíneo mundo da insipidez. Como café que esfria de tempos em tempos, o amor também se torna amargo a boca, doloroso ao peito, pesado para as costas. Talvez, envelhecer seja uma dádiva positiva apenas para os alcoólicos.

Agora com tais olhos cansados, boca seca e ventre dolorido, sentado no meio-fio, mendigando a atenção dos que um dia me aplaudiram (infância) não nego minha ilegítima ficção, minhas histórias estranhas, minha má gramática. Não nego que minha vida, este texto que se transformou em uma frase entre vírgulas, não fará mais tanto sentido para quem se torna além da poeira na calçada, e esta, que me alberga, é uma moradia ímpia, herege, mas como colo de mãe, acalenta até o amor do mais desgraçado psicopata, tal ardil pronúncia destes párias são, nada mais, que um texto de uma poeira que ousou um dia criar um universo, este universo – estranho – é uma das milhares de facetas tridimensionais que esta poeira pode representar, porém, no fim, será reduzida a nada quando a chuva decidir despencar. A vida não deixará de ser difícil quando ela não existir, se seremos abençoados com o nada eterno ou seremos amaldiçoados com uma pós vida cristã, não se sabe, e tal qual o buraco negro do centro da galáxia, nunca, ninguém responderá tal questão, mas, sou apenas a sujeira em meus solilóquios, sou apenas o ímpio rezando, temente a Deus quando o avião cai, fazendo os cálculos para descobrir quantos religiosos foram salvos por rezar. A vida é saborosa, tal qual café quente, porém vai perdendo o sentido de acordo com que vai esfriando. E a chuva que irá limpar a calçada nada mais é que o alívio da dor de estar sujo.

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