Textos

Anjo masturbatório.

Conversávamos trivialidades num bar. Ao nosso redor uma massa de juventude buscava vida em pequenos frascos de vidro. Os líquidos dourados e refrescantes que adentravam pelas gargantas e sairiam, futuramente, pelas uretras, na forma de mijo, faziam parte do ritual da sexta-feira. Bêbados até o fim da noite, bêbados até o fim da vida, aquele ambiente era tão familiar para mim quanto a velha casa de minha mãe, cada mesa, cada gotícula suada de uma garrafa recém aberta pelo garçom, cada cheiro esvoaçante no ar, o perfume misturado ao cigarro e os murmúrios de diversas conversas tão triviais quanto as minhas. No escuro do bar todos eram anônimos, todos eram insensatos, todos eram viciados. Ali era a igreja do herege, nos ajoelharíamos nas privadas e despejaríamos o santo daime do arrependimento e da ressaca. O bar era a religião e o salvador sacrificado os petiscos. Minha companhia tentava manter uma conversa, do qual ela julgaria ser inteligente o bastante, não sei. Vestia-se de preto, saia acima dos joelhos, camisa de alça também preta. Talvez ela quisesse provar algo para alguém, talvez ela tivesse dito para a mãe que iria dormir na casa de uma amiga, e esta suposta amiga emprestou aquela roupa muito mais sexy do que ela deveria ser no cotidiano, os óculos não combinavam com as roupas, eram óculos de alguém que passaria horas e horas estudando assuntos chatos.

Eu acendo o cigarro, pergunto se ela quer um, ela disse que sim, mas eu noto que ela não sabe fumar, o que ela estaria tentando provar? Que é uma rebelde sem causa, uma garota descolada, que entrou na faculdade com dezessete anos, e está saindo com alguém muito mais velho para provar aos amigos que é capaz? Ela também não sabe beber, não tem nenhuma classe de bar (ou falta de) não tem nenhuma capacidade de se virar, caso vomite na própria saia e não tenha dinheiro para ir embora. Aposto que ela tiraria foto das bebidas para postar no Instagram se estivesse sozinha. Se estivesse sozinha ela passaria a noite se masturbando assistindo alguma novela. Ela se engasga com a fumaça, vem em minha mente o dever de perguntar que personagem ela estaria interpretando, ela também não saberia, ela também não diria, não sei. As vezes precisemos interpretar novos papéis, mas ela não tinha motivo, seu rosto afilado, seus óculos, sua pele clara, seus cabelos curtos, cortados por uma amiga lésbica,  e sua roupa emprestada estariam distante do que ela é de verdade, uma garota que frequentou a igreja até determinado tempo e que escolhera veterinária como impulso juvenil.

Ali existe um embate entre um demônio e um anjo, aquela noite terminará comigo em cima dela, fodendo, fodendo, fodendo, e virando de lado. Fodendo e percebendo com ela se depilou para aquele momento, fodendo e percebendo que se rolasse algo ela estaria preparada, porque provavelmente tenha perdido a virgindade com um amigo de colégio e tal coisa tenha se tornado um segredo muito bem escondido. Ela foderia comigo como uma liberdade, como uma auto-afirmação, ela gostaria de sentir um outro pau, ela não se lembraria como era sentir um outro pau. Até os anjos mais puros se masturbam numa solitária noite de domingo. Eu vejo isto nos seus olhos enquanto ela faz careta bebendo a caipirinha, enquanto ela tosse tragando o cigarro, enquanto ela me pergunta se tenho maconha, mesmo sabendo que ela nunca um dia colocara um cigarro destes na boca. Ela é uma vergonha, uma farsante, mas talvez isso me deixa louco por ela, por sustentar uma mentira que não vai durar muito tempo e não sentir remorso por isso.

No mais, estaremos bêbados naquela madrugada, foderemos, isso é certo, não responderei as mensagens, não ligarei no outro dia, a ignorarei como vingança por ela ser falsa comigo, por ela ter mentido para mim. A tratarei com indiferença para que ela não entenda que o mundo funciona através das mentiras que ela rega. Ela aprenderá que aos anjos masturbatórios, o pecado da carne se torna algo muito mais cruel do que para os demônios fodedores. Ela pensará, após o programa Silvio Santos, deitada naquele monte de livros desinteressantes, que a vida é cruel, ou ela aguenta ou ela se manda.

 

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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