Textos

Egocêntricos e Altruístas

Na grande maioria das vezes eu sinto que desprezo o ser humano. A maioria das pessoas é fútil e alienada, e não no sentido político e tosco de “não saber em quem votar”. Elas são alienadas de si mesmas: Não se conhecem e não têm o menor interesse em se conhecer (só as partes boas). Estão dispostas a passar toda a vida sem olhar no espelho para não se sentirem mal com o quer poderiam ver.

Mas as vezes eu penso que tenho mais respeito pelo ser humano do que a maioria pessoas, principalmente quando se trata de “ajudar os outros”. A maioria das pessoas se sente “na obrigação” de ajudar os outros e julga aqueles que se desinteressam por isso ou pela vida alheia como “egocêntricos”. Talvez sejam. Mas e quanto a esses “bons samaritanos”? Será que eles são tão altruístas assim?

O que significa quando dou um conselho a alguém? Talvez signifique que eu só queira ajudar, mas para isso, eu preciso acreditar que sou capaz de ajudar. E, considerando que cada ser humano é único, tem suas próprias escolhas e toda uma história de vida que o determina, me parece que ao acreditar nisso, demonstro um certo nível de pretensão:

  • Acho que entendo como você está se sentindo.
  • Acho que tenho o direito de opinar sobre suas escolhas.
  • Acho que sei o que é melhor pra você.
  • Acho que tenho o conhecimento necessário para resolver seu problema.
  • Acho que por mais complexo que seja o seu problema, você só precisa me ouvir e tudo vai dar certo.
  • Acho que, ao dar a minha resposta pronta a você, estarei te ajudando.
  • E o mais importante: A cada vez que você aceita tudo isso, meu ego é alimentado.

Eu posso estar errado, mas isso tudo me parece muito mais egocêntrico do que simplesmente admitir que você não faz ideia do que as outras pessoas estão vivendo, que elas não pensam nem sentem como você e que você não pode ajudá-las comparando a vida delas com a sua.

E outra coisa interessante sobre essas pessoas, é a forma como elas escolhem para ajudar as outras. Existem aquelas, por exemplo, que escolhem fazer medicina para “ajudar os outros”. Isso é interessante, por que elas poderiam fazer enfermagem, nutrição, psicologia entre outras áreas da saúde. Poderiam também fazer assistência social, missões na África, ser voluntária em grupos sociais, babá, professor, cuidador de idosos ou aqueles palhaços que visitam crianças com câncer nos hospitais, mas ao invés disso, escolhem uma das profissões mais difíceis, reconhecidas, respeitadas e bem pagas no país. Mas só fizeram isso para “ajudar as pessoas”.

Por outro lado existem aquelas que amam tanto o ser humano que querem ajudá-lo o mais rápido possível. Elas fazem cursos livres de técnicas diversas que duram alguns meses, semanas, ou finais de semana, e já se acham aptas o suficiente para ajudar outro ser humano. Agora elas não só acham que têm o conhecimento necessário para fazer isso, como têm um certificado para provar.

Eu já vi um cara fazer um curso de final de semana de hipnose, dizendo que queria usá-la para seu autoconhecimento e para “ajudar as pessoas”. Ele começou a hipnotizar os outros e a fazer vídeos para o youtube sobre o assunto. Depois de um final de semana.

Eu vi colegas de profissão que se formaram com dois anos de diferença uma sendo supervisora clínica da outra. Em alguns cursos de behaviorismo, os alunos atendem o mesmo paciente por revezamento de terapeuta, um aluno por semana, por que para eles basta a aplicação das técnicas, sem a necessidade de um vínculo maior.

Não duvido para que em breve surjam “cursos técnicos de psicologia”, onde a pessoa aprende um mínimo de teoria, decora um conjunto de técnicas de uma apostila e já está pronta para o mercado de trabalho.

Agora eu penso: São essas as pessoas que querem ajudar os outros? Alienadas e gananciosas, ou reducionistas que acham que já têm as respostas pra tudo? Onde está a humildade e o altruísmo que elas tanta pregam? Talvez a única diferença entre egocêntricos e altruístas seja que os primeiros são menos hipócritas.

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

2 comentários em “Egocêntricos e Altruístas

  1. Puts sabe que cada vez que leio seus texto eu mais me identifico, nos últimos dias diante das paralisações dos caminhoneiros e varias pessoas apoiando achando que só aquele movimento mudaria o pais eu fiquei realmente desanimada. Os egoaltruistas encheram as redes sociais de apoio e nem sabiam o que apoiavam. aff. Cada vez acredito mais que o melhor é cada um fazer o seu. Desanimada

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