Textos

Traidor.

Ele me entregou o copo de cerveja como se fizesse um movimento numa peça de Xadrez. Eu estava comendo a mulher do meu amigo há quase dois anos, ele deve ter descoberto e por isso me chamou para beber. No seu rosto apenas alguns lampejos de raiva e de tristeza, nos seus gestos uma dúvida sutil, crescente, amargurada. Bebi o líquido em um só movimento, desejando intimamente que estivesse recheado de veneno. Ficamos em silêncio. Era uma tarde quente, as crianças retornavam da escola com seus pais e mães, ônibus passavam levando o futuro do Brasil para as faculdades, lá estávamos nós dois, sentados em uma mesinha redonda, com cadeiras de metal, tomando bons copos de cerveja, quase como se fossemos amigos íntimos. Falando em intimidade, quando eu comecei a trepar com a mulher deste meu amigo, eu não sabia que eles eram casados. Eu a conheci em um ônibus, num destes trajetos da vida. Ela sentou do meu lado e a marca de caneta vermelha em sua mão me levou a sugestão dela ser professora, com o começo do assunto iniciado ali no transporte público e terminado nas redes sociais, em pouco tempo eu a convidei para beber alguma coisa, como meio de caminho, para ela desfrutar de meu velho colchão no meu pequeno apartamento. Quando perguntei da aliança, ela me disse quem era, depois com uma pequena confirmação de rede social, pude ter certeza. Ficamos dois anos nestes encontros semanais até aquele presente momento.

Carlos, ainda em silêncio, apenas levantando o polegar como se pedisse a palavra para um professor, chamou o garçom. A segunda garrafa disposta na circular mesa, ele enchera nossos copos e tomamos a beber. Eu não conseguia dizer nada, apenas uma névoa fria pairava em minha mente enquanto eu espiava as mulheres de calça legging saindo de uma academia. Minha barriga empurrava a desconfortável mesa, e talvez esta fosse a única coisa que me mantinha desconfortável, eu estava bem, bebendo supostamente de graça, com a chance de levar uma facada, tiro ou ser envenenado e ter uma morte digna de um autor literatura de sacanagem. Aquele momento não me preocupava, nem o que Carlos estava sentindo, de fato, sua mulher era demais para ele. De fato, ele mal saberia encontrar um clitóris, de fato, ele trabalhava demais, trabalhava muito.

– Eu vi suas mensagens no whatsapp da Ana – diz Carlos ao final da segunda garrafa – também vi as fotos que ela tem te mandado.

– São muito boas – disse sem sorrir.

– Ana me disse que vocês se encontram já há dois anos.

– Não contei os dias – disse sem sorrir.

– Eu suspeitava que Ana me traía, mas não pensaria nunca, na minha vida, que poderia ser com você. Ela é tão certa e organizada, tão direita, tão correta. Você é tão largado, vivendo cada dia sem pensar no dia futuro. Vivendo deste jeito irresponsável.

– Você deveria escrever livros de auto-ajuda, tem uma mão boa para isso.

– Você não consegue levar nada a sério!? – ele disse mais exaltado – descobri que Ana tem me traído contigo todo este tempo, eu ainda estou abalado. Pensei em diversas coisas que poderia fazer. Sabe que eu ando armado certo? Eu poderia agora atirar em você, eu poderia agora quebrar esta garrafa e rasgar sua garganta fora. Eu poderia te matar de mil maneiras.

– Mas eu sei que não vai – disse entornando o resto do copo e preparando-me para levantar – também sei que vai pagar esta conta, e também sei que não vai largar sua mulher. Provável que a Ana nem saiba que você descobriu, e vai manter assim porque você não quer perdê-la, mas também não sabe como fazê-la feliz. Infelizmente Carlos, eu não me importo com o que você acha ou vai deixar de achar, também não me importo se está feliz ou triste, também não me importo se é ou não meu amigo.

– Eu nunca duvidei disto, mas sabe que pelo menos eu fico tranquilo que é com você – eu teria engasgado se não tivesse já bebido tudo – eu te conheço há um bom tempo, sei que você não trataria mal uma mulher, sei que sabe satisfazê-las como eu nunca saberia. Fico tranquilo por saber que ela está me traindo contigo.

– Então está tudo bem para você?

– Sim.

– E qual foi o intuito desta conversa?

– Rendição – Carlos respira fundo – prefiro assim do que viver uma vida de amargura e rancor. Sei que perdi e sei que sempre irei perder.

Continuamos a beber, os olhos de Carlos brilhavam em lágrimas, o que ele queria era uma resposta para a sua falha, ele queria enfrentar o gorila que tomou o seu território e aceitar a derrota como um herói abatido.

Parei de ver Ana depois de algum tempo. Ana e Carlos puderam ser um casal normal novamente sem a minha intromissão. Voltei para o meu recanto de solidão enquanto eles assistiam as sombras nas suas cavernas platônicas.

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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