Survivor

Bill tinha depressão e transtornos psicológicos, esse era o diagnóstico do ponto de vista psiquiátrico, mas esse fato é muito pouco para falar sobre quem era ele.

Às vezes ele se sentia bem, e o problema é esse; só as vezes. Era um homem que tinha uma sensação constante e persistente de tristeza.

Tinha dias que acordava e seu primeiro pensamento era; quero morrer.

E esse é o problema; são 365 dias em que acontece isso com ele, mas não se apegue ao detalhe, que isso acontece há alguns anos.

Ele era um  homem que se angustiava de ser quem era.  Bill era um homem que sentia que o mundo não dava o que ele precisava e sempre se sentia vazio, totalmente insatisfeito com a vida.

Mas não se engane. Existem os dias em que Bill levanta e, já quer logo ligar seu som, coloca-lo no máximo e dizer para o mundo que está vivo, para que todos escutem o quão feliz alguém pode ser, mesmo sendo infeliz. Não atoa esses sentimentos são opostos, pois eles se atraem.

De fato Bill era um homem que não sabia lidar com as frustrações do mundo. Tinha uma sensação constante de ser rejeitado. De não fazer parte.

E ninguém ainda percebeu que o click da sua câmera, o filtro do seu instagram, juntamente com seu compartilhamento no stories, mostra o labirinto de solidão onde ele se meteu, e que desde então não conseguiu nunca mais sair de lá, pois isso mostra o quanto um sorriso borrado engana até as melhores lentes.

Até que um dia a vida fez Bill entrar em uma grande crise existencial, então seu casamento acabou, perdeu o emprego e, ele passou a não poder mais entrar em contato com sua angustia, ele não suportava sentir, não podia sentir. Ele precisava superar, mas não conseguia confrontar sua angustia e começou usar drogas, álcool e se afundou nesse mundo.

Ele precisava de uma fuga da realidade, ele queria não ter sensações, ele precisava esquecer o mundo onde vivia, precisava ser alguém diferente de si mesmo, pois não se suportava mais, não suportava aquela realidade e encontrou suas válvulas de escape.

Notou tarde demais que andava perdendo a vitalidade, sentia-se um velho com vinte e poucos anos.

Mas não é sobre idade.

Não é sobre não se encaixar.

É sobre não ter energia.

É sobre se sentir congelado em um dia ensolarado.

É sobre não querer fazer o que gosta, pois de mais nada se gosta.

É sobre se cansar de ser você e se perder em si mesmo.

É sobre querer ficar só, mas não para ler um livro ou ver um filme, é querer não ter ninguém ao seu redor, pois você não suporta você mesmo, então imagina os outros.

É sobre estar doente e não poder falar, pois se falar vão dizer para você parar de frescura, que você precisa se levantar da cama e ir trabalhar, pois foda-se seus problemas, que depressão é coisa de quem tem tempo e dinheiro ou que você tem que dar um jeito de melhorar logo, se não ninguém vai querer mais ficar do seu lado.

E continuam falando esse monte de baboseira achando que é assim fácil, a vida não é fácil, nada é tão preto no branco, se as pessoas soubessem como suas palavras tem poder, talvez fosse mais fácil para Bill se abrir sem ser julgado e taxado de fraco.

Mas Bill adorava usar uma analogia sobre isso, sabe você não chega em uma pessoa com câncer e diz a ela para parar de frescura, você não diz a ela para que levante e dê um jeito de “melhorar”. Você não diz para um cara que quebrou a perna para que levante e ande.

Essa analogia de Bill mostra o quão  insignificante é dizer para um doente com câncer que ele deve sair dessa, chega a ser ofensivo, percebe? o doente não escolheu ficar doente, aconteceu. Mas eu ouço as pessoas dizerem sobre como Bill deveria ter sido, de como Bill foi um alcoólatra, drogado enfermo, que perdeu tudo para as drogas.

Eu não acredito que Bill perdeu tudo para drogas, o que Bill perdeu foi a si mesmo e sem ajuda ele nunca mais voltou a se encontrar, ele estava estilhaçado como um vidro que se quebra, e cada caco seu refletia suas angustias, seus medos, seus receios, seus problemas, mas ninguém o ajudou a recolhe-los e tentar remenda-los, e não me surpreende tudo  ter acabado com um dedo puxando o gatilho.

Hoje ouço pessoas dizendo sobre como sentem falta dele, de como ele era gente boa e o amavam, e só consigo pensar o que ele diria a essas pessoas se ainda estivesse vivo: Namastê filhos da puta.

 

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Autor: Thiago D.

Minha maior arte é a forma que eu vejo o mundo e as coisas que acontecem ao meu redor, tenho uma empatia muito grande, entendo como as coisas estão acontecendo ou devem acontecer e isso ajuda na minha percepção para fazer sistemas, estruturar raciocínios lógicos e a construir textos, contos e afins. Busco colocar em palavras os mais diversos sentimentos e sensações, o que escrevo não é autobiográfico, eu chamo de usar a vida como matéria prima. Meu jeito de escrever é esse, e se me perguntarem isso é ficção? Ou não é ficção? – Está no papel(no caso, tá no blog), aconteceu ou não, é ficção.

18 comentários em “Survivor”

  1. Texto muito bom so nao gostei do final, pois sobre as pessoas que nao o ajudou. A questão é que as vezes a pessoa esta tão afundada no seu proprio eu que não consegue pedi ajuda, o apoio da familia quando percebe o problema e muito importante, mas é necessario o acompanhamento de um proficional. Como voce falou é uma dença e como tal deve ser tratada. Mas conscientemente ninguém fica alheio à algo tão sério.

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  2. Caramba, Thiago… quando eu acho que você não pode melhorar, você me vem com esse texto foda! Me deu um apertãozinho no peito, aquela vontade de chorar. Pois, a cada palavra lida, foi como se enxergar no Bill, sentir suas dores. Quantas vezes não passamos por isso? Ou simplesmente não escutamos que é frescura?
    Ninguém conhece a dor do outro, ninguém sabe como é insuportável quase tudo na maioria das vezes… mas gritam, dizendo que é frescura.
    Eu amei teu texto, amei mesmo ❤

    Beijinhos|| Psicologia de Boteco
    http://www.johanymedeirosutopia.blogspot.com.br

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  3. Olá, um texto muito bem escrito e com uma mensagem necessária.. As pessoas precisam exercitar a empatia com o proximo e entender que sentimento nunca é frescura!

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  4. Interessante, mostra como a sociedade não esta ainda preparada a lidar com a doença do século(depressão).Vivemos um momento um paradoxo na globalização, ela engloba mercados, mas individualiza as pessoas deixando muito em estado de depressão… Sendo assim, meu apoio do total a conclusão do seu texto! Namastê filhos da puta.

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