Textos

(In)ternidade – 6 – foda para quinta, foda para sexta.

Cagando eu conseguia ver a garrafa caída de Coca-Cola na porta do banheiro, também consigo ver o “eu te amo” no meu espelho. Vejo o escrito sempre que vou escovar os dentes ou lavar o rosto, vejo o escrito sempre que vou mijar ou cagar. Vejo o escrito sempre que imagino Calíope sacando o batom, e com sua letra cursiva escreve tais palavras tão diabólicas. O único amor verdadeiro é o amor de mãe, Édipo tem doutorado no assunto. Agora tal escrito se transformou quase em uma entidade na casa, tanto ele quanto a garrafa caída no portal do banheiro, envelhecendo dia a dia. Se Talía comprou a bebida gelada, há muito que jaz na temperatura ambiente.

Várias ligações não atendidas no meu celular, vi que Calíope mandara uma mensagem, se desculpando por não ter aparecido, ela disse que precisava estudar para as provas. Não sabia que aquela porcaria de faculdade teria competência para aplicar algum tipo de prova. Talía também ligou, diversas vezes, não deixou nenhuma mensagem, apenas ligou. Havia outros números, no meu Whatsapp algumas fotos, uma Débora que me mandou uma foto de sua xana fantástica, e alguns outros grupos perturbando. Desliguei o celular e o joguei na cama, deitei logo em seguida, gostava de ficar deitado na cama, trabalhar como freelancer tem esta vantagem, a vantagem de não ter um patrão. Sonho com meu último emprego, eu vendia sapatos. Trabalhei em uma das maiores lojas de sapatos do país, atendendo todos os tipos de idiotas. Não entendo o que emburrece tanto o ser humano ao adentrar uma loja, ao reparar que haverá alguém para servi-los, um prostituto pronto para vender o corpo pelo salário suado, a labuta, o pão que o diabo amassou. Por diversas vezes eu fui humilhado por estes clientes, tratado como um analfabeto, um idiota. Perdi as contas de quantas escadas eu subi e quanto estoque eu manejei apenas para uma dondoca de pernas finas experimentar um ou outro sapato e descartar. O pior de tudo era precisar tratar com gente, eu não gosto de gente, não gosto de precisar ser simpático, precisar sorrir quando não quero. Esta foi minha maior barreira, sorrir.

Meu gerente dizia que eu precisava sorrir, um cuzão daqueles, as vezes aparecia um sujeito, um tal de Marvin. Eu apostei com meu amigo Dave que este Marvin comia o gerente. Realmente, Marvin comia o cu do gerente.  Talvez a maneira afetada do qual ele se dirigia para mim fosse o meu problema, o gerente não era má pessoa, tão escravo quanto eu, porém, como as abelhas, a rainha é a escrava enquanto a operária é livre para visitar outras coméias. O gerente nada podia fazer, tinha que manter um padrão de vida, tinha que manter Marvin, pelo menos quinze anos mais novo, tinha que manter todo um status quo e, por causa disto, ele queria me obrigar a sorrir. Por diversas vezes me dissera que eu seria um vendedor melhor se sorrisse, impossível, estas pessoas não compraria coisas nem das mãos de Jordan Belfort. Vendíamos sapatos porque precisávamos vender estes sapatos.

Mas meu pai sempre me ensinara: Se tem um ambiente ruim, transforme-o para mais agradável. Ou foi meu pai ou eu li isto numa embalagem de papel higiênico. De qualquer forma, quando eu subia para pegar a quarta caixa de sapato, eu fazia o favor de passar as palmilhas no saco. As dondocas iriam calçar um sapato coçado de saco. As vezes, quando era um saltinho, eu esfregava meu pau, quase gozando, os sapatos de couro eram os melhores, é quase a mesma sensação de comer um cadáver por causa do couro frio.  Gozei em inúmeros sapatos, dai apenas passava um papel higiênico para tirar o excesso. Quando a cliente perguntava o porquê do interior estar úmido, eu dizia que era um gel para proteger a palmilha, uma especialidade nossa. Aquelas putas acreditariam em qualquer merda que eu dissesse para elas, era simples assim, fácil assim. Dai comecei a comer e gozar em todos os sapatos que fosse vender, era divertido. Se a cliente me fizesse subir ao estoque, quatro lances de escadas, pelo menos três vezes, o quarto sapato iria descer gozado. Demorava um pouco mais, porém eu trazia o sapato para elas, decididamente batizado. Óbvio que todos os outros que ela experimentara já tinha sido esfregado por um belo saco escrotal, peludo e etc, mas, o trabalho de gozar nos sapatos era um plus. Dai, quando eu passava com a caixa de sapatos gozada, o gerente ainda me dizia para não esquecer de sorrir, daí eu sorria, sorria para a expressão de nojo que a cliente fazia ao sentir o líquido gélido na ponta dos dedos, daí a pergunta sempre era a mesma, sobre o que era aquilo, dai eu dizia que era um gel italiano para conservar a palmilha. Talvez eu deva ter alguma descendência italiana, nunca se sabe.

Óbvio que, por ser muito novo, eu não possuía a experiência básica de vida, como olhar onde as câmeras de segurança ficam posicionadas. Depois de um longo feriado eu fui chamado para a sala do gerente. acreditei que ele iria me passar um workshop de como sorrir, ou algo do tipo. Ele me pede para sentar, também pede para que o assistente dele saísse. Ele me observa, olha no fundo dos olhos. Imagino que ele vá me pedir para comer seu cu, ou vá me pedir uma chupeta, sei lá. Talvez tivesse brigado com o Marvin e queria me ter, por sempre achar meu sorriso bonito. Depois de um curto silêncio, o gerente começa a falar: Primeiro ele me lembra sobre a moral da empresa, sobre nosso cuidado com funcionários e clientes. Toda hipocrisia que se pode dizer antes de se comprar um escravo. Daí ele vai direto ao ponto: me mostra umas filmagens minha, pela câmera de segurança do estoque, claramente eu metendo meu pau nos sapatos e os passando no saco antes de entregá-los para os clientes. O gerente me diz que tem horas e horas de material, horas e horas disto. Ele realmente parece ter visto várias vezes estes vídeos, visto meu pau estuprando um Scarpin Jorge Bisshoff ou um tênis básico Slip Off. Esporrando sobre o couro de uma sandália Arezzo ou coçando o saco com uma delicada palmilha Luiza Barcellos. O gerente, ainda pálido, me diz que serei demitido por justa causa, me fala todos os problemas que uma demissão por justa causa pode fazer, também me diz que não vai acionar a polícia, e me pede para sair dali o quanto antes. Ele não vai acionar a polícia porquê eu poderia muito bem ir para todos os programas de televisão dizer que as mulheres mais chiques do país calçaram sapatos gozados por um funcionário irritado. Levanto-me da cadeira do gerente, agora que estou livre de suas ordens, não preciso mais acatá-las. Jogo o meu crachá em cima da mesa, e vou embora, ele me pede para assinar um papel, mas eu já havia saído de sua sala, agora só queria gastar o resto do dia bebendo. Passando pela saída encontro com o Dave e digo o que aconteceu, falo para ele não fazer mais isto no estoque porque eles têm câmeras, daí ele me responde um “tá tranquilo” porque ele faz nos banheiros.

A sensação de ser demitido é uma das piores, você está sendo descartado depois de ter sido utilizado, como um absorvente usado, ali, sozinho na lata do lixo. Daí tem todo o trâmite dos direitos trabalhistas a serem recebidos, neste meu caso, nem poderei, pois foi justa causa, ou seja, tomei no rabo. Abro a geladeira, cato uma cerveja e retorno para sala. Sento-me novamente no sofá, são três da tarde, está um silêncio no apartamento, apesar do mundo lá fora acontecer. É estranho, acordarei e dormirei todos os dias sem a obrigação de ir trabalhar, não terei a tristeza de segunda-feira, agora todos os meus dias são segundas-feiras. Não me animarei com a chegada de uma sexta ou sábado, pois todos os dias são segundas-feiras, depois que  somos demitido, tudo vira segunda-feira, e, agora, a odisseia para procurar um novo emprego, participar de dinâmicas de grupo, participar de seleções complexas, até parece que eles querem contratar o próximo homem a pisar na lua, quando, no máximo, vou limpar algumas privadas. Tudo muito complicado, tudo muito complexo. Estou de volta para a estatística, demitido por ter gozado nos sapatos dos outros. Era uma forma de amor, não era? Bem, sempre fui um vendedor merda de qualquer forma, e por causa disto, as clientes não davam bola para mim, você servir sinaliza que você é menor, um reles. Mulheres que gastam sete mil reais em um sapato não dão a boceta para um reles vendedor, por mais que se tenha habilidade, porém, se você consegue fazer uma fantasia para ela, como o bombeiro hidráulico ou o jardineiro, terá mais chances. De qualquer forma, meu esperma tocou os pés das pessoas mais ricas da cidade, uma espécie de ascensão para meus filhos abortados.

Meu celular vive de Wi-Fi, nunca tenho crédito, nunca ponho crédito. É um belo pré-pago sem utilidade falatória. Eu estava deprimido, tinha acabado de ser demitido, ainda vestido o uniforme da loja, chegando em casa mais cedo. Há muito tempo que eu não sabia o que era uma quarta-feira às duas da tarde, não lembrava se ainda havia uma programação televisiva neste horário, mas não fora nada além dos programas de fofoca e das notícias inuteis. Uma tarde televisiva seria equivalente a usar heroína. Uma perca de tempo sem tamanho, uma anestesia. Lá estava eu, sentado no sofá, ainda vestido como se fosse trabalhar, com o controle remoto na mão, ouvindo os programas de fofoca. Pensava no “e agora?” Mas não iria martelar muito isto, amanhã iria atrás de outro emprego, e depois de outro emprego, e daria um que se dane. Meus textos faziam algum tipo de sucesso na internet, nada que desse retorno, então, só para continuar os escrevendo como uma maneira de desestrestressar. Por algum motivo, por mais machista que meus contos parecessem, muitas garotas adoravam, me mandavam mensagens nas redes sociais, até marcávamos alguns encontros. Meu ato de escrever só me renderam bocetas, bocetas fáceis, sem tanto esforço, sem precisar ir para uma boate, ouvir música ruim, para ter bocetas. Eu poderia dizer que estava sendo pago em bocetas.

Continuei trocando de canal, buscando alguma coisa para assistir, para distrair. Eu desisti e apenas deitei-me no sofá, tirando meus sapatos, ficando apenas de meia. Eu gosto de dormir no sofá, é uma maneira informal de se dormir. Apaguei por alguns instantes e sonhei com Silvia, uma garota destas que um dia veio me visitar, trouxe Vodka e Uísque. Trepamos a tarde toda, uma boceta fantástica, um gemido muito gostoso. Suas pernas não eram lá grandes coisas, mais valera a pena. Acordei pensando em Sílvia, aonde ela poderia estar. As vezes penso nos meus erros do passado, nas mulheres que passaram na minha vida, nas minhas escrotidões. Penso nas cagadas que fiz. Vou dar uma mijada, o espelho reflete meu rosto cansado, o mesmo espelho que alguns anos depois seria marcado com o “eu te amo” escarlate. O mesmo espelho que eu vi este rosto ficar cada vez mais decrépito, cada vez mais doente. Dou a descarga, meu mijo desaparecerá em algum mar, onde crianças mergulham e bebem aquela água salgada. Estou com sede, não tem cerveja, apenas um resto de uma garrafa de Vodka. Bebo-a pura, sinto queimar, minha cabeça gira, lembrei que não tinha almoçado, que se foda, volto a deitar no sofá, agora só de cuecas, deixarei este dia passar, não terei vivido, apenas existido, nenhum propósito.

Agora pensando naquela época, deitado no mesmo sofá vejo minha evolução… Vi o entardecer toma conta de mais um dia. Não perco mais meu tempo com estes programas de fofoca, não perco mais meus dias com estas imitações de vida. Alguns aspectos mudaram, outros não. Recebi um convite para escrever redação publicitária, me pagavam por texto, um freelancer e pagavam para viver uns dois meses sem trabalho. Era como ganhar na loteria. Vivia em casa, escrevia o que precisava escrever, pagava as coisas que eu devia e torrava o resto com bebida e mulheres. Não pensava em longevidade, imaginava que iriam encontrar meu corpo putreficado neste apartamento, iriam dar por minha falta e quando descobrirem, meus osso já estariam saltando na carne podre. Pensava que queria viver o agora, pensava que viveria este presente. Agora nada mais importava, viveria um galho de cada vez.

Mas um dia eu pensei que teria estacionado. Agatha, me completava, era uma pessoa fantástica. Estava doente e morrera, assim, como se deve ser.

Segui em frente, pelo menos acho. Fumo cigarros, olho para janela. Nunca saltar daqui me pareceu tão chamativo. Tomo alguma coisa, e vivo, vivo, vivo até onde der. Atendo o meu celular, era Talía. Ela começa a chorar e diz não ter entendido o que aconteceu, porque eu não dissera que estava com outra. Poderia dizer que era um mal entendido, poderia dizer que esta era minha vida, poderia dizer que não estava com outra. Eu apenas perguntei se poderiamos nos ver amanhã, ela fica muda, sem saber o que responder diz que pode sim, poderia sim, talvez depois da escola. A palavra escola me faz sentir mal, parece que estou raptando uma criança para estuprá-la. Digo que tudo bem, que também deixei um abraço para dona Mônica. Talía desligou, se me perdoara ou não, não importa. Sua garrafa de Coca-Cola estará esperando, assim como a mensagem no espelho que não apagarei. Ligo para Calíope, ela atende, sonolenta, digo que dá para sentir o mal-hálito dela pelo telefone e ela ri, pergunto se ela vai fazer algo na sexta, ela diz que não, diz que estava pensando em me chamar para sair, perguntou se eu gostaria de conhecer a melhor amiga dela. Eu digo que melhor amigo é coisa de criança, mas se fosse para fazer um ménage. Calíope ri novamente, mas um riso nervoso, um riso de ciumes. Ela me chama de idiota, sorrindo, e diz que amanhã me liga de novo para combinar direitinho. Pronto, eu tinha uma foda para quinta e uma foda para sexta, com possibilidades de virar um ménage. Eu tinha dinheiro para comprar algumas bebidas, e poderia pagar o mês atrasado do aluguel, eu tinha contatos em uma agência de publicidade famosa e mulheres desconhecidas mandavam as fotos de suas xanas para mim pelo Whatsapp. Mesmo com tudo isso, ainda sim, eu não estava feliz.

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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