Textos

(In)ternidade – 7 – heroína da castidade

Tínhamos nos casado em Janeiro de um determinado ano. Ela era veterinária. Foi um namoro rápido, coisa de poucos meses, não chegamos a noivar e casamos. Eu estava menos cansado do que estou hoje, como se a vida fosse um bocado mais fácil, não sei. A festa fora numa igreja católica do interior, nunca fui católico, não sou de religião nenhuma, sempre acreditei que a religião era uma forma de deixar as pessoas idiotas ou atrair mais idiotas. A mãe de Poliana era muito fervorosa, foi contra o nosso relacionamento até o fim, ela gritava sempre para a filha como ela podia escolher um homem sem curso superior para casar, como ela iria dar sua virgindade para um homem sem curso superior. De fato, Poliana caso-se comigo virgem, outra loucura religiosa. Pergunto-me se no céu, Jesus tem um grande cartório de hímens rompidos, com a data e o motivo do rompimento, onde cada mulher deverá prestar contas. Pela lei católica nem as estupradas serão salvas, pois graças a uma santa que conseguiu resistir a um estupro e morreu por causa disto, quem é estuprada vai para o inferno da mesma forma.

Benígnia, santa da castidade, acho que é isso, fora uma menina que resistiu a um estupro em 1941 e fora canonizada por causa disto, agora quem é estuprado vai para o inferno por causa desta garota. A castidade para este pessoal acaba se tornando um assunto mais sério que a própria saúde. Uma loucura! Como se a junção carnal fosse um pecado, um câncer, uma doença, como se juntar apenas pela procriação fosse o certo. Se nascemos com a cabeça de um pau e um clitóris é um bom sinal que não precisamos gozar dentro para que foder faça sentido. A mãe de Poliana não entendia isto, teve só esta filha e fechou a fábrica. O pai de Poliana, seu Geremias, morrera de Câncer de próstata.

No mais, minha sogra não aceitou. Foi ao casamento porque precisava ir e entrar com a filha, já que o marido jaz falecido. Sempre fora um relacionamento difícil por causa do gênio da mãe, sempre precisando pisar em ovos. Poliana, por outro lado, deve ter sido adotada (ou puxado o falecido pai, que infelizmente não cheguei a conhecer). Dulcíssima e delicada, escolhera veterinária porque gostava muito de bicho, seu sonho era montar um aras, pois seu animal favorito eram os cavalos. Foi desta forma que eu a conheci, tinha uma bandinha que tocava nas faculdades, a música Wild Horses do Rolling Stones, chamou sua atenção, naquela época ninguém mais tocava Rolling Stones. Conversamos depois disto, ficamos depois disto. Ela foi para meu apartamento, que era em outro lugar, começamos anos beijar. Quando fomos para cama ela disse que poderia ficar apenas deitada, mostrou um cordãozinho que usava por debaixo da blusa, era o simbolo da seita maligna “escolhi esperar”. Um bando de imbecis que só querem dar a primeira foda depois que casarem, nunca gostei deles. Eu pensei em dispensá-la, mas algo em seus olhos verdes e seus cabelos castanhos encaracolados me seguraram, eu disse que se poderíamos fazer amor depois do casamento, então que casássemos logo. Poliana me perguntou se eu teria coragem de casar ainda naquele ano. Eu respondi que sim, ou então compraria uma bicicleta.

Não chegamos a casar em dezembro por conta de sua saúde, acabamos casando em Janeiro. Poliana tinha uma saúde muito debilitada, por fora parecia ser uma menina muito forte, porém ela estava apodrecendo por dentro e muito rápido. No fundo eu sabia que o motivo deste casamento às pressas era exatamente porque ela não duraria muito. Cada dia mais cansada, cada dia mais fraca. Em outubro teve que trancar a faculdade, passamos o natal e o ano novo no hospital, casamos em janeiro e por fim, em agosto, ela faleceu.

Na cama Poliana era horrível. Transava mau, não sabia chupar e não tinha sensualidade, era quase uma múmia, o que transformavam nossas transas em momentos divertidos. Poliana era muito apertada, por isso sentia muitas dores, demoramos quase uns dois meses para conseguir fazer direitinho. Ensinei algumas coisas para ela, coisas básicas, mas ela não se importava em aprender, para onde ia, os anjos não tinham sexo, logo, não trepam. Quando o médico deu a sentença de morte e falou quanto tempo ainda faltava, não nos sentimos estranhos, no fundo eu sabia disto, sabia sobre sua situação. Ela me perguntou se eu diria para as outras que era viúvo e eu disse que não, seria ridículo isto. Seria uma história mal-contada até por mim mesmo, permanecer casado por menos de um ano, as pessoas iriam pensar que eu havia a matado para ficar com alguma herança, dai teria que sempre contar a mesma história, e me ferir e me ferir. Eu amei Poliana, talvez amei seu estado também, amei o fato dela estar e não estar, dela ter um prazo de validade tão curto e nossa separação ser dolorosa unicamente para mim, que iria ficar sozinho. No fundo (também) Poliana fora egoísta, decidiu ficar comigo para sentir os últimos prazeres da vida e se despedir sem ter que ver a cara da mãe como última coisa.

Não precisamos comprar toda a mobília, ficamos morando no meu apartamento, ficamos usando minhas coisas. Sua mãe aparecia as vezes, mas ela se tornou diferente quando o estado de Poliana piorou. No fim das contas, todos nós fizemos um elo. Antes de morrer Poliana me disse que iria partir feliz, pois realizara o sonho de amar alguém. Daí, faleceu segurando minhas mãos. Eu não sabia o que dizer, apenas uma dor em meu coração, dor profunda. Não sei se Poliana conseguiu ouvir o eu te amo que eu disse, ela fechou os olhos e as máquinas pararam.

Lembrei disto quando estava olhando para meu reflexo no espelho com o “eu te amo” escrito. Estava pronto para sair com Calíope quando batem na minha porta. Era a mãe de Poliana. Demorei pare decidir se iria abrir ou não, fiquei espiando a velha mãe de Poliana no olho mágico, a deformidade da lente a deixou com o narigão, com as rugas mais aparentes, ela tinha um jeito alemão, nunca perguntei se o pai de Poliana tinha algum parentesco com alemães, depois de mais uma batida na minha porta eu decido deixá-la entrar. Meu prédio não tinha porteiro, subia e descia quem bem entendesse, era uma maneira do mercado de drogas continuar aquecido. O sindico era um coitado que ganhava algum dinheiro dos condôminos para comer travecos quando sua esposa estava trabalhando. A mãe de Poliana me olha cima a baixo, baixo a cima, vê meu estado deplorável e entra sem ser convidada. Fecho a porta atrás dela, ficamos em silêncio. Ela veste um vestido acima dos joelhos azul florido e uma blusa branca sem graça, um grande colar com um crucifixo de madeira, quase do tamanho de um celular. Ela também carrega uma pequena bíblia de capa rosa. Seu rosto está muito enrugado, pregas pelos olhos, parece que ela envelheceu duzentos anos. Não lembro quanto tempo que Poliana está morta, mas aquela mulher pequena, de pernas fortes e roliças e olhos curiosos não parecia em nenhum aspecto com sua mãe, mais um sinal que possível ser apenas puxada do falecido pai. Mãe de Poliana se senta, põe o pequeno livro no colo e começa a falar. Pergunta o motivo de ter desaparecido, não respondo, pergunto se ela quer beber alguma coisa. Ela aceita água, eu sirvo a água para mim e para ela. Daí ela prossegue perguntando se eu consegui seguir em frente depois de sua filha ter morrido. Eu confirmo, apesar das coisas não terem sido mais como eram antigamente, eu não sentia mais prazer, comida e trepada eram como serragem, eu não sentia mais o sentido das coisas, era como se viver fosse dor, eu suportava esta dor. Sei que a mãe da Poliana estava na mesma onda, seu rosto, seu jeito. Meu vício era foder e beber, o vício dela era Jesus e celibato, éramos dois fodidos, dois viciados, bêbados. Vivíamos a nossa maneira, do jeito que as coisas precisavam ser. Éramos fracassos, nunca teríamos nos encontrado se Poliana não fosse o elo de ligação, e agora que, para sempre, esta corrente partiu-se, só sobrara a angustia, dor, e as auto-mentiras.

Mãe de Poliana prossegue: diz que nunca concordara com o meu casamento com ela, nunca concordara com sua filha perder a castidade comigo, um sujeito mundano, um sujeito da rua, se ela não soubesse que Poliana estava doente antes de ter me conhecido, ela acreditaria piamente que aquilo teria sido um castigo enviado por Deus para castigar tanto mãe como filha, um castigo por ter se deitado com um ímpio, um ser da vida, do mundo. A mãe da Poliana disse que nunca se perdoou por ter deixado a filha ir embora comigo, por não ter aproveitado o calor daquela vela antes de se apagar. A filha sempre fora um poço de doenças, um poço de cuidados, mas se descuidara, por um tempo, quando achara que tudo teria passado. Agora ela estava sozinha, marido e filha mortos, um genro que não serve para nada e uma vida de devoção a Jesus, uma vida que será doada para a igreja até o último dia. Eu, para a mãe de Poliana, devo ter sido o violador, o estuprador, porém, por sua filha ter cedido, ela não será transformada em santa. Este era o maior sonho da mãe da Poliana, que a filha morresse virgem, que virasse santa, mas agora nada poderia fazer, eu tinha “violado” a menina, tinha feito ela pagar pelo preço do pecado, apesar de ter pedido muito a Deus que um raio me matasse. Eu dou um sorriso, pergunto se ela deseja mais água. Ela nega, diz que já chega, que vai embora. Eu pergunto o real motivo dela ter aparecido, depois de tantos anos. Ela também não sabia responder, a mãe da Poliana não tinha esta resposta, ela simplesmente apareceu, descobriu onde eu morava e apareceu. No fundo ela queria falar com alguém, alguém que não fosse hipócrita, alguém que não fosse dizer que tudo estaria certo, que tudo daria um jeito, minha esposa estava morta, a filha dela estava morta, enterrada, os vermes já haviam comido tudo, agora eram só ossos. Nada poderia ser feito, daí para frente seria viver a miséria de nossas vidas medíocres, com ou sem Deus. Era isso que a mãe da Poliana queria ouvir, e foi isso que eu disse. Ela não agradeceu, ela não respondeu, ela não balançou. Era esta a verdade, no fim as coisas não vão dar certo, as coisas não vão acabar bem, perderemos, seremos de, alguma forma derrotados. Não estou sendo pessimista, é a mais pura realidade. A felicidade é encontrada em poucos momentos, no mais, apenas nos recordaremos das nossas piores dores, e não dos nossos melhores gozos.

A mãe da Poliana, por menos que concorde, precisava ouvir tais coisas. Ela estava em pé, segurava sua bíblia com força, quase atravessava as páginas com aqueles dedos magros. Recordei da minha primeira noite com Poliana. Seu corpo forte, branco, limpo, sereno. Cabelos encaracolados esparramados pela cama. Ela estava nua, eu era a segunda pessoa no mundo a vê-la sem roupa. Além e mim apenas sua mãe (ela só começou a ir para um ginecologista depois que casamos) Nem seus médicos chegaram a ver o que eu vi. Os fartos pelos pubianos na mesma tonalidade de seu cabelo e sobrancelhas, ela parecia tímida, estava vermelha. Foi uma dificuldade tirar o vestido e ficar prostrada ali na cama, como uma donzela esperando a adaga de sacrifício na cerimonia de invocação de Belzebu. Eu tirei minha roupa e deitei do lado dela, começamos a nos beijar. Sempre gostei de beijar, quando beijei a primeira vez, com quinze anos, foi muito mágico, queria fazer aquilo para sempre. A beijava, a beijava, a beijava. Minhas mãos deslizaram pela sua barriga, minhas mãos brincaram com os seus seios, minhas mãos acariciaram sua vagina. Num primeiro momento Poliana pensou em resistir, mas acho bobo, me puxou e começou a beijar-me. Bolinei sua boceta até ela desabrochar, bolinei, bolinei, bolinei até sentir que estava preparada o bastante, dai a cobri e penetrei lentamente, como quem procura uma mina com um detector. Depois de romper a barreira da castidade, comecei a bombar lentamente. Saiu muito sangue, as coxas ficaram vermelhas e uma poça surgiu no lençol. Como se tivéssemos cortado o pescoço de uma galinha. Jogamos os lençóis no chão e continuamos.

Depois de alguns meses ela morreu.

Depois de alguns anos sua mãe me encava.

Ela me pergunta onde é o banheiro. Aponto para a porta aberta a direita. Ela se encaminha até lá, empurra a garrafa de Coca-cola para fora e fecha a porta. Escuto o barulho do trancar. Penso que aquela velha fodida pode estourar os miolos no banheiro para me incriminar, daí fico preocupado com o que ela vai fazer. Sento na cama, acendo um cigarro e espero, olho para a porta marrom do banheiro, olho para a garrafa de Coca-Cola, sinto saudade de Poliana, mais do que de Calíope ou Talía. Eu teria arrumado minha vida se não vivesse permeado pela tragédia. Agora, como disse, os vermes tomaram conta da carne e a alma está nas nossas lembranças. O passado engoliu tudo, como sempre faz, como sempre irá fazer. O cigarro esfumaça, acendo aquela ponta luminosa com meus lábios e largo a fumaça. Olha para a janela que tenho do lado da cama, meu ponto favorito de beber uísque, lembro-me de Talía sentada ali, semi-nua, quase caindo sete andares para a morte, e eu jogando bolinhas de papel amassadas na sua cabeça. Ríamos.

Dai me vem Poliana na cabeça novamente.

Merda, merda, merda.

A visita da mãe da Poliana estragou meu final de semana. Eu estava bem, até um pouco feliz. Agora ficarei pensando na Poliana, ficarei sem dormir. Isto fora uma vingança dela por eu estar saindo com tantas mulheres? Não sei, no dia que ela me amaldiçoar com impotência ou com ejaculação precoce eu me preocupo.

Ou com alguma doença venérea.

Ou comer uma mulher e descobrir que é um cara. Não, isso nunca aconteceria comigo, eu sou bom com detalhes.

Dou alguns risinhos. Isso seria coisa que Poliana faria, ela tinha um bom senso de humor. Fazia piadas pesadas mesmo quando estava no leito de morte, ela morreu sorrindo, morreu leve, partiu sem dor, sem angustia. Deixou estes sentimentos para quem ficou, deixo toda esta dor para mim, para sua mãe. Poliana foi cuidar do pai, quem sabe… Me pego pensando nestas coisas surpreso, quem diria, eu um super cético acreditando nestas baboseiras de vida após morte, eu que preguei tanto que morreu, morreu. Acho que devo estar mudando, ou então, a idade começa a me fazer louco.

A Mãe da Poliana sai do banheiro com uma pressa estranha. Ela fita o cigarro que estou fumando, que ainda está pela metade, quase querendo dar um tapa na minha mão, para fazê-lo cair. Mãe da Poliana está com um rosto nervoso, sobrancelhas caídas em uma legítima expressão de raiva. Ela aponta para o banheiro e eu vejo, o “eu te amo” no espelho. Dai ela sai do meu apartamento dizendo que não respeito a memória de sua filha morta saindo com estas vadias rampeiras. Ela saiu e bateu a porta.

Termino o meu cigarro.

Anúncios

Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

0 comentário em “(In)ternidade – 7 – heroína da castidade

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: