– Olá fundo do poço! – eu estava bêbado, caído num beco. Meus punhos machucados, tinha entrado em uma briga com algum João por alguma garrafa. Estava sem dinheiro, tinha sido roubado, meu lábio estava cortado e, das piores coisas, eu não sabia que horas eram. Olá, olá fundo do poço, aos cacos partidos no chão, o brilho ululante dos postes nas poças faziam uma magia bonita naquela madrugada complicada. Como eu dissera, meu dinheiro havia acabado, e meu rosto ensanguentado iria impedir todas as hipóteses de encontrar um leito quente e uma xota molhada. Este é o fundo do poço, mas eu ria, estava bêbado, o que importava? Lembro da minha infância, brincando de futebol debilmente, caindo de cara, comendo terra. Lembro da minha adolescência, comendo as amiguinhas e as namoradas dos amiguinhos. Daí fiquei solitário, larguei a faculdade, caí para o bar com várias promessas e nenhum a certo, e de fracasso em fracasso perdi o entusiasmo, agora, no fundo do poço, o brilho da lua distante é confundido com a serena luz do poste, que e diz com bravias palavras que meu limite havia se rompido.

– Vem brigar mais! – eu digo para mim mesmo – eu aguento ainda mais um round seu babaca!

Sou patético, falo sozinho. Um casal de garotas se assusta comigo, estou ensanguentado, ferido, sujo, podre e bêbado, elas devem achar que é alguma espécie de estuprador ou algo do tipo, cambaleio para cima delas e caio sobre algumas latas de lixo, escuto o farfalhar das baratas e dos ratos pelas latas e garrafas de plástico, as meninas saem correndo gritando, e eu continuo gritando:

– Eu sou um escritor famoso! Vocês não querer dar para mim, suas, suas vadias! Suas vadias…

Estou bêbado, começo a chorar, repito para mim mesmo “suas vadias” enquanto busco voltar a minha consciência. Uma barata anda pela minha perna, Gregor Samsa? Eu tento esmagá-la como um mosquito, mas erro, e erro, e erro. Levanto-me cambaleante, devo ter me cortado, o sangue escorre pelo meu braço, gotejando pelo chão. O que eu me tornei? Este é o fundo do poço. Me arrasto, não sei onde moro, não lembro se ainda tenho casa. Alguns lampeijos de minha família, meu trabalho, do motivo de eu ter largado tudo. Eu estava triste? Eu queria morrer? Depois de algum tempo você não quer mais morrer, a vida já te bateu o bastante, agora você quer necrosar cada pedaço saudável, se tornar pútrido de dentro para fora, vomitar os próprios dentes.

– Vadias… Vadias…

Não haverá cigarros que me salvarão, não haverá mão amiga, nem ombro para chorar. Apenas me arrasto, me arrasto na escuridão das esquinas e da madrugada. A lua está alta, mas não tenho certeza se é a lua ou se é um sóbrio poste. Alguns últimos carros que passam buzinam para mim, evitando atropelar-me, evitando o infortúnio de um bêbado amassar-lhes o pára-choque. Não haverá xotas esta noite, apenas meu balangante e solitário pau, pênis, pinto. Eu desejaria comer lixo se estivesse cavando ainda mais o fundo do poço. Sinto que a barata passeou por minha barriga e saiu pela gola da minha camisa, dou um peteléco nela e o inseto voa, desaparece. Me sinto aquela barata, na hora mais perigosa do dia.

Agora do fundo do poço eu observo os sapatos das pessoas, tal qual aquela barata sacana. Eu  observo o vai e vem dos apressados calçados. É madrugada, quem fica na rua vira notícia na parte policial do jornal. Vejo como sou ignorado, vejo como não sou nada. Os pés vão e voltam, eu, do fundo do poço, posso sentir a vibração de não ser nada. Estou ficando sóbrio, estou começando a sentir a dor do mundo real, de pensar nas oportunidade desperdiçadas, dos sorrisos não dados, do que me arrependo.

Me lembro das xotas.

Vadias, vadias.

Levanto e me arrasto para casa. Preciso tomar alguma coisa. Ficar alto o bastante para sair do fundo do poço.

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