Textos

Sobre o Niilismo

O problema de tentar explicar o niilismo, e com isso explicar minha visão e atitude para com o mundo e as pessoas, é que é algo parecido com explicar a fé (talvez uma anti-fé): Se você acredita, tudo faz sentido e aquilo mexe profundamente com você. Mas se não acredita, por mais que eu fale ou escreva, será difícil fazer você entender meu ponto de vista.

Para começar, se você acredita que deus, o destino, missões ou alguma harmonia ou força cósmica controla nossas vidas ou tem um plano para todos nós, esse texto já não terá o mesmo impacto, mas vou dar o melhor de mim. Talvez seja mais fácil se nós usarmos a sua imaginação. Imagine um universo fictício, onde deus não existe. Você consegue imaginar mundos com fadas, dragões e deuses, então você deve conseguir imaginar um mundo sem deus.

Imagine que nesse mundo não exista nenhuma ordem ou harmonia cósmica. Nada é certo. Nesse mundo a justiça divina não existe e a dos homens é falha. Existem pessoas que praticam o mal durante toda a vida e parece que até mesmo na morte são agraciadas, enquanto existem aqueles que desejam apenas fazer o bem e ajudar o próximo e vivem uma vida de miséria e doença.

Existem aqueles que teriam um futuro brilhante, mas por uma doença ou um acidente automobilístico, ou por qualquer outro motivo, têm sua vida encurtada de repente. Sem um motivo, sem um propósito maior, sem ter tido missão nenhuma a cumprir, eles simplesmente morrem. E você sabe que, como não existe um plano maior traçado para sua vida, não existe nada que impeça você de ser o próximo.

Não é que você fique pensando nisso o tempo todo, você talvez pense tanto quanto aqueles que acreditam em missões. Mas é diferente pensar nisso acreditando que existe algo que o protege no caminho ou não. É muito diferente andar na corda bamba sabendo que há uma rede de segurança embaixo de você de andar sabendo que não há, ou ainda, sem ter certeza.

Nesse universo a vida é insignificante. Ela simplesmente aconteceu milhões de anos atrás sem motivo algum, tanto que podia muito bem não ter acontecido. Ainda assim, ela poderia muito bem existir na forma de plantas e fungos, produtores e decompositores. A existência de consumidores como você, animal superior, é totalmente dispensável, mas acabe com a existência de fungos, bactérias e insetos decompositores e você acaba com a vida no planeta.

O que você seria nesse universo? Você, assim como sua mãe, seu cachorro e os milhões de ácaros microscópicos que devoram a pele morta de seu rosto enquanto você lê esse texto, seriam apenas aglomerados de átomos, combinados de formas diferentes na tentativa de garantir uma melhor metabolização energética. O carbono nas suas células é o mesmo das estrelas, sim, mas também é o mesmo da merda que sai pelo seu aparelho excretor.

Então você, nesse universo, seria o cúmulo da insignificância. Seu conhecimento é inútil, a não ser para manter sua vida, mas sua própria vida é inútil, assim como a de todos os seres vivos a sua volta. Você vê então todos esses seres discutindo fervorosamente sobre abstrações, política e moralidade, e sente como se estivesse em um zoológico, cheio de animais brigando entre si por pedaços de carne e fêmeas, incapazes de imaginar que a qualquer momento, outro grande meteoro pode chegar e acabar com tudo isso como se tudo fosse nada. Por que na verdade, é.

Agora imagine que a cada dia em que você acorda, que você se levanta para trabalhar ou estudar, você se lembra disso. Você se lembra que é nada. Que sua vida é nada, que tudo é nada. Isso não é depressão, você não está doente, essa é simplesmente a realidade. Mas as outras pessoas não sabem, ou não acreditam, ou não aceitam isso. Elas não gostam de falar sobre isso, então você fica calado.

Então você se sente preso no zoológico, cheio de animais que não conseguem te entender. Você tentar falar com eles sobre meteoros, mas eles só conseguem pensar em comida e fêmeas, e aí você percebe que você não está apenas no nada, está sozinho nele.

Resumindo, então, tudo isso, você tem um universo onde não existe um destino pronto, não existe rede de segurança, nenhuma vida importa e você está sozinho. Um universo niilista. Como você se sentiria vivendo em um mundo como esse? Alguns acham (ou fingem achar) que seria libertador, outros, que seria angustiante. De qualquer forma, assim que terminar de ler, você voltará para o seu mundo, enquanto eu voltarei para esse, e tentarei lidar com esses problemas que você vive tentando ignorar.

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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