(In)ternidade – 10 – Proporção Áurea.

A água escorria pelo ralo, rodopiando e rodopiando. Meus cabelos grudavam nas costas, meus pelos, pelos por todos os lados: peito. braços, costas, pubianos. Olhava com tristeza aquela água sumindo no buraco escuro do ralo. O pequeno banheiro, um box decorado com peixinhos, um tanto quanto infantil até, não mesclava bem com o ambiente daquele kitnet. Eu apenas deixei a água escorrer, eliminando todos os traços de dores. Na privada o vômito boiava, os restos que não desceram junto à descarga. O cheiro de azedo com bebida, a dor na cabeça, a dor nos tímpanos, dor em geral. A água era um analgésico, mas paliativo, como tudo na vida deve ser. A sensação de ter sido esmagado vinha à tona, quase em um máximo de sentimentos obtusos, uma força da natureza instável, pronta para mastigar, moer, comer. Uma morte, a visão de estar diante da morte, de escapar por pouco. Os olhos assassinos daquela vadia sacana. Tália, Tália, sua boceta quase me acabou por vez, uma boceta assassina, problemática, cruel. Sua irmã seria assim também?

Escuto a porta abrir.

Tereza adentra deu pequeno Kitnet, quando não está vestida com seu uniforme de boate, ela de fato parece uma garota comum, estudante de economia. Os cabelos ruivos presos e a roupa sem graça, os óculos de armação grossa. Sua beleza chama à atenção, como se todo aquele conjunto não fizesse parte dela, ela, agora, era o Clark Kent, disfarçado de boboca na sociedade, porém, como super pole-dance girl, seus super-poderes de levitar paus entraria em cena e faria sucesso. Tereza economizaria cada centavo daquela vida desgraçada para, enfim, tomar um rumo. Abandonada pelos pais e pela sociedade em geral, ela buscou meios de vida confortável, para, depois, arrepender-se e tentar o caminho acadêmico. Desligo o chuveiro, ela pergunta se eu estou bem. Respondo que sim apertando a descarga. Adeus resto de mim da noite passada.

Na mesa: curativos, algodões com acetona e marcas de esmalte, um saco com pão de forma e alguns livros de cálculo. Também havia uns Dvds de filmes desinteressantes e uma revista. Tereza talvez fosse mais desorganizada do que eu, ela conseguia transformar aquele pequeno espaço de 30m² em uma zona de guerra. Roupas espalhadas pelo chão. Tomamos uísque no café da manhã, o sol já estava alto, era algo próximo do meio dia. Lá fora o calor deixava tudo mais lesado, lento. Carros buzinavam diante ao farol, pessoas iam e voltavam, para seus trabalhos, para comprar coisas desnecessárias. A grande dança social acontecia naquele sábado animado e quente. Os únicos perdoados eram as crianças, pois não era comum aulas aos sábados, mas esta prática estava na beira da extinção. Tereza parecia preguiçosa, acendeu um cigarro, bebericou mais do uísque com um costume muito forte, e foi para a janela. O Kitnet ficava no terceiro andar, que também era o último daquele conjunto de quartos. Seu vizinho da esquerda era um solteirão tarado que já roubara umas duas vezes suas calcinhas do varal, e o vizinho da direita era uma família, mãe, pai, e quatro filhos, que ocupavam os mesmos 30m² que Tereza. Não era incomum ouvir as brigas do casal, as crianças chorando e os barulhos de pancadas. Naquele pequeno inferno era possível ter paz, Tereza tinha esta paz, pensava no futuro e isto a impedia de se matar. Ela doava seu corpo, era uma troca razoável. Deitava-se com os homens mais escrotos do mundo em troca de pensar no futuro e programá-lo. Sua beleza, neste ponto, fora de grande ajuda, tinha este dom, de ser bonita, em tanta dificuldade. Podia comer o quanto quisesse e não engordava, poderia dormir o quão tarde fosse e não ficaria com olheiras, poderia apanhar e não ficaria tão roxa. Era sábia, com respostas rápidas, uma mente que trabalha com muitas variáveis. Gostava dos números, segundo ela, estes algarismos não mentem.

Rimos e conversamos sobre o passado. Lembro como Tereza chamou minha atenção. Um festa na faculdade onde ela estuda. Conversava com um grupo de amigas sobre coisas frívolas. Eu estava mais distante, bebendo gratuitamente. Vi a expressão que ela fez ao acender o cigarro, uma cara de tristeza, como se estivesse ali sem estar, uma intrusa. As amigas, todas ricas, falavam sobre carros, casas, viagens. Ela fingia que também fazia parte deste mundo, sem ser, ela ainda não tinha a maturidade que tem hoje, ela não imaginaria um dia as amigas descobrirem seu verdadeiro ofício. No fundo todas sabiam, as fotos do Livro Púrpura já correra por todas as salas, e, por mais que ela usasse uma máscara de gatinha, seu corpo é inconfundível. Depois o seu jeito se tornaria inconfundível. Isto causa um distanciamento para com outras pessoas. Tereza conseguia enxergar um mundo diferente, tanto para os seus clientes, como suas colegas, até comigo. Ela enxergava que, mesmo naquela montanha de merda, um futuro brilhante poderia vir, então, ela se agarraria àquele destino como uma leoa faminta na presa. Ela também tinha pressa, queria resolver tudo muito rápido. Nossa primeira conversa foi sobre isto, a fiz rir, como sempre faço com todas as outras, fazer rir é a melhor caracteristica que um homem pode ter, o humor é um sinal de dominação, rir, gerar graça, é gerar empatia. Depois do riso entramos nos assuntos pessoais, depois disto entramos nas relações pessoais. Eu entendia sobre a proporção áurea, conversamos bastante sobre números e números. Talvez os números tivessem se ligado em sua cabeça, há muito não se divertia. Os clientes não sabiam conversar, mesmo quando acompanhante, ela seria apenas um “olha o que eu estou comendo” e quando eram relações legítimas, também não deixava de ser um “olha o que eu estou comendo”. Antes de tranzarmos pela primeira vez eu disse que não buscaria nada sério, por mim, não estaria nem ali. Ela também disse, falou que pela primeira vez sentiu-se empolgada, não pela tranza em si, pois trabalhava com isto, mas sim pelo pós, pela conversa de cama, aquela conversa feita no travesseiro com as bundas para cima.

Foi quando ela me contou o que fazia.

Também não dei importância, já paguei uma vez, me senti vazio, muito vazio. Ela me disse, em tom de brincadeira, que não cobraria nada de mim além de boas risadas e conversas. Para mim era fácil, muito fácil. Para mim aquele jogo de faça-me rir e dou-lhe meu corpo era muito simples. Claro que Tereza não estaria sempre disponível. Entre seu trabalho e seus estudos, eram raras as vezes que nos doávamos para encontros casuais, porém, mesmo assim, eu ia assisti-la dançar. Ela se comportava muito bem naquele pole-dance. Talvez fosse a melhor dançarina do lugar. Uma boate padrão médio para alto, clientes importantes. Cobrava-se alto pelo serviço de acompanhante, era como alugar um filme, mas para o serviço da prostituição em si, os preços eram razoáveis. Algumas das vezes estes clientes se acreditavam donos das meninas. Em um dos seus momentos de folga comigo, bebíamos em um Pub até movimentado. Normalmente Tereza pagava nossas saídas, por mais que eu não quisesse, ela insistia, dizia que ganhava muito bem, poderia arcar. Um cara qualquer da multidão começou a se engraçar de maneira exagerada com ela, além de querer tirar briga comigo. Ele estava com uma faca. Parecia querer confusão e Tereza aparentava ser a Olivia Palito da jogada. Fiquei calado, sem responder os insultos, o sujeito perguntou se eu era viado, disse que talvez, ele estava certo de arranjar uma confusão, também pelo respaldo dos seus amigos. Eu e Tereza decidimos ir embora, porém o sujeito nos seguiu. Ele resolveu agir quando entrávamos no carro, mas, não contava com a chave de boca que eu sempre ando no porta-luvas. Quebrei uns dois dedos do sujeito e tudo deu-se bem.

As vezes as coisas eram mais graves. Tereza me ligou no meio de uma noite, estava com problemas. Seu cliente queria fazer uma suruba com ela, isto não estava no acordo, alias, ela nunca atendia mais de um. Tereza se trancou no banheiro e me ligou. Fui até seu encontro, eram três da manhã. Um conjunto de casas numa parte bem distante da cidade. Desliguei os faróis e liguei novamente para Tereza. O celular tocou, tocou e nada de atender. Eu tinha bebido bastante, decidi entrar com minha heroica chave de boca. Os caras ainda estava insistindo para que Tereza chupasse seus paus, ela tinha ganhado bastante tempo. Os ameacei com minha chave de boca. Tive que acertar um sujeitinho magrinho no ombro antes de sair. Eu havia salvo o rabo de Tereza, e depois dos eventos de Henrique estávamos quites.

Nestas idas e voltas seria muito difícil dizer se nos apaixonamos. Sei lá quanto tempo que conheço Tereza, talvez uns dois ou três anos? Ela é focada, eu estragaria todos os seus planos. Penso nisto deitado na sua cama, vendo a luz do sol invadir o pequeno quarto empoeirado. Os grãos de poeira flutuam brilhantes na contra-luz. No rádio alguma música aleatória. Eu e Tereza estamos deitados, em silêncio. Contei tudo que acontecera entre um e outro copo de uísque. São exatamente duas e meia da tarde, estamos acordados há duas horas e meia e já secamos meia garrafa. Estou longe de ficar no estado completo de embriagues, mas sinto que Tereza está meio fraca. Deitada no meu peito, ainda mantem o silêncio, olhando para o vazio, pensando no vazio. Gostaria de perguntar o porquê dela estar calada e triste, mas o tempo que a resposta poderia levar me desestimulava. Eu amo o silêncio, amo escutar meus próprios pensamentos funcionando na cachola, por mais que eu tente resolver problemas alheios, escutá-los me causa grande enfadonho. Tereza estava ali, calada, silente. Seus seios quentes na minha pele, minha perna entre suas pernas, sentindo o roçar dos pelos raspados de sua xota. Seus lábios escorrem para meu pescoço, escuto ela dizer que estava com saudade, que devíamos nos ver mais. Eu fico com medo, algo deve ter acontecido para tirar Tereza dos trilhos? Se ela quisesse um relacionamento, como iria fazer? Talvez estivesse dormindo, fosse sonâmbula. Ela me beija, sinto seus lábios quentes, tanto os de cima como os de baixo. Ela está bêbada, ela bêbada se sente a mulher mais feia do mundo.

Talvez eu fosse o pior homem do mundo. Muitas dúvidas abarcam em minha cabeça quando estou assim, olhando para o nada, vendo a tinta secar. Aquele ambiente, o kitnet, Tereza agarrada a mim, aproveitando o máximo do seu estado de embriagues, uma vida inteira pela frente e uma vida inteira de histórias para contar, dentre tantas coisas. Não consigo me imaginar feliz na grande linha do tempo que é a vida, me falam que sou pessimista, mas quando uma sequência de atos dão errado, é difícil pensar diferente. Agora analisando toda uma sequência de eventos até ali, aquele lugar com Tereza, a cama, sua xota raspada na minha perna, os milhares de problemas para resolver, Calíope, Tália, Henrique e o inferno que os parte. Imagino diversas formas e diversas consequência de meus atos. Se Tereza deseja mudar de vida, deseja me tornar no bastião de sua mudança, eu não saberia lidar, não saberia fazê-la feliz. Não sou apenas o corpo e o sexo, gosto das conversas e dos momentos, mas desde que Poliana morreu eu perdi minhas ligações com as pessoas, como se tudo que eu tenho de bom tivesse um prazo de validade, uma data de vencimento, então eu prefiro usar o máximo até cansar. Quem morre deixa como herança os problemas e as tristezas.

Tudo o que Tereza fazia era algo belo, sua ciência, sua dança, sua forma, seu jeito de ser. Deixei-á dormindo. Era um fim de tarde, da janela do seu quarto eu conseguia ver as grandes e pesadas nuvens marrons de tempestade se aproximando. Tereza morava relativamente próximo à praia, se não fosse por um ou dois prédios seria possível ver o mar, porém o cheiro da maresia infestava todos os cômodos às 4 horas da tarde, e me trazia muitas lembranças da época da adolescência. Da varandinha o movimento das pessoas, vivendo seu final de semana, era algo letárgico, leve, lento, como uma dor de cabeça de fim de tarde para começo de noite, uma ânsia de vomito, uma ressaca. Pouco a pouco tudo vai ficando escuro, sombrio, lúgubre. O silêncio misturado ao barulho dos carros e o ir e vir do dia. Sinto mãos me abraçando pela cintura. Tereza está nua, mas protege seu corpo da visão do lado de fora com o meu corpo. Seus seios pressionam minhas costas e seus lábios (os superiores) beijam meu pescoço. Ela me pergunta o que foi, se eu sentia alguma coisa. Disse que estava preocupado se aqueles idiotas colocariam fogo na minha casa, ela riu, eu ri. Voltamos para o quarto, e logo eu estaria enterrado entre aquelas grossas pernas.

 

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Autor: Rhuan Rousseau

Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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