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(In)ternidade – 11 – Universozinho

O carro desliza fácil no asfalto, nunca fui muito fã de direção, mas dirigir é igual a tomar banho, nossas principais decisões e pensamentos são tomados no trajeto, infelizmente, no trânsito, não é muito seguro bater uma punheta. Os vôos da madrugada são historicamente mais barato, então, quando se vai buscar alguém em um aeroporto, normalmente o avião chegará às 16:00, se não houver nenhum atraso. Desço, tranco o carro e espero, tem um pequeno bar, decido ir beber alguma coisa enquanto a porcaria do avião chega. Peço uma Vodka com suco de limão, o atendente me olha com cara de estranho, todos estão tomando seus cafés com cupcake, ou comendo algo “geração Healty”, enquanto eu, o gordão escrotão pede um copo de Vodka com suco de limão. Por causa das malditas legislações atuais não posso fumar também. Beber sem fumar me deixa ansioso, e quanto estou ansioso fico com vontade de roer as unhas. Encosta no bar uma figura conhecida, era a Mãe, do ritual de Caliope. Ela não me reconheceu de primeira, porém fiquei olhando para ela, buscando informações daquela estranha mulher. Também pensei em Calíope, no tempo que ela não entra em contato comigo e vise-versa, também pensei em Tália, e como ela não apareceu para terminar o serviço.

Entre um gole e outro da Vodka, penso em Tereza. Estamos indo para nossa casa, era segunda-feira de noite e ela precisaria voltar a sua rotina de merda, nas suas aulas de merda, na sua vida de merda. Segunda-feira eu fico muito mal humorado. Entramos, ela quer se despedir, não sei quando no veremos novamente. Estava tudo do jeito que eu deixei, me deu um alívio, imaginei que encontraria tudo queimado, tudo destruído, talvez aqueles idiotas tenham mudado de ideia, desistido de tentar me matar, não sei, eu também não pensava em arriscar, mas estava bêbado, Tereza também, loucos, dane-se se alguém quisesse me matar. Ela vestia calcinha e sutiã vermelhos, ela sempre teve um sorriso sacana, Tereza com seus rubros cabelos esvoaçantes, eu sou o único que fode de graça com aquela mulher. Fodemos o fim de semana inteiro, penso em quanto isso custaria se fosse pago. Vou preparar alguns drinks, ela vai para o banheiro, encontro alguns cigarros de maconha, acho que eram de Tália. Volto, lá está Tereza, preparada, nunca, mais bela que nunca. Ela me diz que prefere trepar na minha cama, daí pode sujar os lençóis sem culpa. Bebemos, fumamos e trepamos. Tereza é uma profissional, não poderia esperar nada diferente, sempre supera minhas expectativas. Ela chupa com uma voracidade e uma delicadeza, seria como contratar um alfaiate para fazer um terno, mas não qualquer alfaiate, e sim um que nasceu para aquilo. O cheiro de Tereza também se torna único, ela tem cheiro de noite, mas não qualquer noite, noite de natal, noite de festa, quando se prepara e se veste bem para sair de noite. Tereza está deitada no meu peito, ainda não são duas da tarde, ela diz que precisa ir embora, precisa estudar e a semana começa de novo, para quem trabalha. Ela diz que está feliz por mim por existir mais alguém que me ame, eu pergunto o porquê dela dizer “mais alguém” e ela me responde da mensagem no banheiro, eu dou um sorriso, mas ela me conhece bem, quase como se soubesse o que eu estou pensando. Também me diz que eu deveria guardar aquela garrafa de Coca-Cola na geladeira. Digo que é uma simpatia nova, para atrair bocetas escuras, rimos. Tereza me chama de bobinho e sai mais uma vez da minha vida, vamos ver quem vai salvar a bunda de outro agora.

Eu ainda estou sorrindo, pensando em Tereza, quando Mãe vem falar comigo. Ela pede um igual ao meu, eu dou um sorriso e brindamos à deusa Brigid. Realmente, muito cedo para tomarmos um brinde de Vodka, mas tanto eu quanto ela estamos fodendo para estas convenções. Sorrimos e começamos a conversar. Finalmente vou parar de chamá-la de Mãe, pois ela me diz que seu nome é Eva. Bem, Eva tem um jeito de mulher forte que você gosta de conhecer. Trabalha como tatuadora, e vai para eventos. Bebe sempre quando pode e tem uma vida fodida de família desestruturara, mas soube dar várias voltas por cima. Tomamos mais um drink. Ela pergunta sobre mim, digo do meu ofício de escritor, dai ela diz que deseja ler o que eu escrevo. Falo que escrevo sobre coisas que acontecem comigo, poemas bobos, coisas da vida. Existem pessoas que gostam de ler velhotes reclamando e se lamentando, e, enquanto existir este mercado, terei pão na minha mesa. Ela ri, tem um riso sério. Seu cabelo raspado do lado direito, a trança escorrendo pelo ombro, parecia uma Viking. Lembro que a vi nua, é uma coisa infantil minha, pensar nas mulheres que já vi sem roupa. Eva teve que retirar um seio, foi diagnosticada com câncer aos vinte cinco, sua mãe e sua avó morreram desta mesma forma, dai ela quase foi para o mesmo caminho, bem, ainda existe risco, bem, ela sabe que provavelmente irá morrer disto. Perguntei sobre o ritual, ela disse que não pode falar nada sobre, tudo daquele dia ardeu junto com aquela fogueira. Eu concordo, tomamos mais um drink pela fogueira. Ela me pergunta qual é a minha relação com Calíope, pois para que um homem seja levado ao ritual ele precisa ser muito especial. Respondo que não sei, nunca me senti especial e nunca entendi o motivo de me acharem especial, ficamos em silêncio, perguntei o que ela estava fazendo no aeroporto, dai ela responde, pegou um voo barato, terá uma reunião de tatuadores, ela estará lá, fará seus desenhos, sua arte. Disse que a tatuagem é uma das artes mais fantásticas, pois é algo eterno perambulando no corpo de outrem. Somos artistas, dissemos juntos, e tomamos mais um drink pela nossa arte. O atendente já estava espantado como poderíamos nos alcoolizar tanto naquela hora da manhã, bebezinho, essa geração saúde não sabe o que é fugir de um traficante depois de ter mergulhado em uma montanha de pó. Dou meu telefone para Eva, disse que ela poderia me ligar, quando voltasse, beber mais alguns, ela me sorri com amabilidade, disse que ficará feliz em terminar esta manhã em uma noite! Rimos, meu celular se acende como uma árvore de natal,

Euterpe toca piano desde os doze anos de idade. Eu tenho a porra da sorte com mulheres em nomes gregos. Ela faz algumas apresentações como pianista, mas ganha mesmo dinheiro em praças de alimentação pelos shoppings do país. É frustrante, pois, mesmo ela executando uma peça completa de Bach, as pessoas continuam mastigando como vacas hindus. Seus pais são aqueles hipócritas que projetam os seus sonhos nos outros, daí quando ela apareceu com Érica, uma das coralistas, eles surtaram, seu pai deve ter dito que nunca aceitaria uma filha que leva dedada de outra mulher, entre tantas outras coisas. Daí anos investidos na guria foram jogados fora pela sua opção de amar, mundo louco este não? Euterpe está com a cabeça apoiada no ombro de Érica, e elas estão bem cansada, disseram que foi um voo complicado, o avião atrasara ou adiantara, sei lá, eu estava um tanto bêbado para prestar à atenção na conversa. Eu disse que minha casa estava uma bagunça. Elas iriam ficar uma boa quantidade de dias, eu disse que poderiam dormir comigo na cama, elas riram, eu disse sério, mas ainda levaram na comédia. Meu relacionamento com Euterpe é um pouco mais antigo, na época era apenas uma meninota que me mandava e-mails sobre meus textos, ela dizia que eram fortes o bastante para deixá-la excitada, dai, um dia, um belo dia apareceu na minha porta. Bem, trepamos. Isso foi antes dela conhecer Érica. isso também foi antes dela fazer dezesseis anos. Dai fui em uma de suas apresentações, achei fantástico, era em um shopping center, fui o único a prestar atenção. Ela começou a tocar música clássica, músicas que as pessoas não conheciam, tocava divinamente bem, seus dedos corriam nas teclas como se estas fizessem parte dela. Não sei se Érica sabe de nosso antigo relacionamento. Muito tempo se passou, acho que Euterpe deve estar com 21, não sei, o tempo corre para estas coisas, também não a vejo desde então, mas conversamos pelo celular, ela me atualiza das coisas, me manda suas músicas.

Érica me fala do seu relacionamento com Euterpe, e diz como começou. A distância do meu apartamento para o aeroporto é considerável, deu tempo de Érica me  contar todos os detalhes, principalmente o distanciamento da família de Euterpe. Eu disse que entendia destas coisas, minha família também não se dá muito bem comigo. Euterpe ainda era uma meninota, sua mentalidade não melhorara daquela época, Érica agia como uma tutora, parecia mais nova, mas tinha trinta anos, cabelos curtos e castanhos, pele clara e olhos claros. Já Euterpe, um geniozinho bizarro, cabelos cumpridos, bem loiros, quase brancos, algumas tatuagens, muito magra, tem uma clave de sol tatuada no ombro, está com uma blusinha e calça Jeans, é bem pequena, em relação a Érica, parecem mãe e filha. Érica fala demais, eu gostaria que ela calasse a boca. O dia começa a amanhecer, o álcool a bater também, o carro vai duas vezes no acostamento, não gosto de acordar cedo e dirigir, aquela manhã estava um inferno para mim. Com o volume do transito aumentando, junto à minha dor de cabeça, ficamos preso no tráfego. Os carros buzinantes nas idas e voltas, muitos daqueles iriam para seus trabalhos, justificar suas vidas inúteis com ofícios odiosos, justificar suas contas à pagar e os motivos de suas vidas não terem dado certo. Era o necessário para manter-se ocupado, com a mente quieta e sadia. Mente vazia é oficina do pastor. Os carros buzinantes e Érica tagarelando. Euterpe finalmente dorme, como uma pequena anjinha, cabisbaixa, silente, inútil naquele banco. Cada vez mais lembro-me de Calíope, agora lembro-me de Eva, e também lembro-me de Tália. Estamos numa rede intrínseca, somos moléculas de carbono, modelos atômicos pensantes, nossos genes querem a reprodução, precisamos servir nosso papel para a humanidade. Milhares de espermatozoides mortos em uma noite de sexo anal, eles nunca saberão que, o que foi fecundado não era um óvulo.

Preparo uns ovos com bacon para três. As meninas vão dormir na minha cama e eu dormirei no sofá, como bom anfitrião que sou. Tentarei dormir na mesma cama com elas mais tarde, tudo o que eu preciso é de um divertido jogo de beber e dormir. Para o meu sossego, elas passarão o dia fora, ensaios entre outras coisas, fui convidado à assistir, mas não confirmei nada, não quero ter uma obrigação para o resto do dia, uma vez que estou com a cabeça explodindo de dor. Euterpe está tomando banho, demorando bastante, estou louco para dar uma mijada. Érica assiste televisão, ela está entretida nestes programas de fofoca que passam pela manhã. Eu raramente acordo antes do meio-dia, e quase nunca ligo a televisão, então, aquela programação é novidade para mim. Misturo os ovos, queimo o pão na chapa, o café já está pronto, tenho vontade de mijar e vomitar. Euterpe aparece na cozinha, está usando unicamente um roupão branco com xícaras coloridas estampadas. Seu cabelo molhado gruda nas costas. Ela senta à mesa, vejo seus tornozelos e coxas brancas e magras. Talvez o fato dela não fazer tantos exercícios físicos contribuam para esta constituição meio apática. Euterpe está feliz de me ver, ela me pergunta sobre aquela frase no espelho do banheiro. Eu digo que é um caso meu, um dos meus vários. Ela pergunta se estou fazendo algum tipo de ritual espiritual. Olho para a cara de Euterpe com uma expressão de “por que?” Dai ela me questiona da garrafa de Coca-Cola caída na porta do banheiro.

Estamos os três à mesa, Érica não parece tão animada, acho que ela está com ciumes de mim e Euterpe, pois, ela mesmo me relatou nunca ter visto a menina tão animada. Érica, na beira dos seus 30,  já tinha experiência o bastante em saber que eu já me alimentei daquela horta. Euterpe, ainda menina, talvez acreditasse no amor, também eu nunca saberia que ela insistira o máximo com Érica de se hospedar na casa de um “amigo” e que seria fantástico. Euterpe também sabia que eu deveria aceitar. Lembrando de nossa primeira transa, ela por cima, eu por baixo, eu não sabia bem a idade dela, dezesseis e fodendo como uma mulher de trinta, ela agarrou meu pescoço e começou a me sufocar, eu, a princípio achei estranho, mas depois, quando meu pau explodiu em prazer, orgasmo e gozo, Euterpe riu, disse que eu tinha cara de que iria gostar de sufocamento erótico. Eu perguntei para ela se já tinha feito isto antes, e Euterpe me diz que matou um cara assim.

Até hoje eu não sei se ela estava brincando comigo.

Ela sempre teve azar de arranhar namorados que gostavam de fio-terra. Isso destrói a magia, segundo Euterpe, saber que o cara gosta de ser cutucado no mesmo buraco que ela também gosta. De tantos erros seguidos, e por eu estar distante, Érica se tornou a hipocrisia pronta de Euterpe, a mulher, mãe, namorada protetora, romântica, amante e ciumenta. Cantora. Uma maneira de insultar pai e mãe num relacionamento problemático e proibido. Uma maneira de gerar uma impressão naquele círculo de amizades paternas, do qual ela achava medonho. No fim, o desgosto fora tanto que ela resolvera sair, ganhar o mundo com sua arte. Bem, pelo menos é esta imaginação sonhadora de Euterpe. Ela decidiria que teria, pelo menos uma vez, o coração dilacerado, pois este é o álibi perfeito dos poetas para justificarem suas tristezas. Não sei se é um amor que precisamos de fato, eu  justifico minha depressão com a morte de Poliana, meu alcoolismo com meu jeito de escrever e meus vícios com as mulheres. Eu poderia justificar de várias outras maneiras estas dores, eu poderia encontrar outras máscaras, mais belas e vistosas, tal qual Euterpe encontrou. Mas, devido a minha idiotice, fico com os clichês. Coitada de Érica, apenas uma passageira nestes gestos e olhares estranhos, eu e Euterpe nos olhamos diversas vezes na mesa, Érica afundava seu rosto cada vez mais, uma sensação de raiva, talvez? Ela queira me falar algo, não duvidaria de seu amor pela menina, mas Érica, apesar da idade, mal chegaria aos meus pés em experiência, e, Euterpe faria muito mal para sua vida, uma vez que ela também decidiria abandonar tudo para acompanhá-la.

Érica também vêm de família tradicional, cantou em coral de igreja e estas merdas todas. Nunca se ajustou, sempre teve atração por outras mulheres, porém a famosa culpa católica a impedia de ganhar uma felicidade plena, conhecera Euterpe no coral da faculdade, viu uma possibilidade de fuga de seu universozinho desanimado e pulou, mas não por vontade própria, pulou por uma necessidade de novo começo. Queimou os navios, disse aos familiares quem era, e agora estava aqui, olhando meus olhares famintos para Euterpe e sendo correspondido, vendo seu mundinho criado ruir. No fim das contas, nesta mesa, apenas Érica, de fato, precisava de um álibi para seu coração que viria a ser partido. Daí em diante eu estaria fazendo um ato de bondade a ela, dando um sentindo para sua falta de sentido em existir.

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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