(In)ternidade – 12 – Vestido manchado de branco.

Érica bateu a porta ao sair do apartamento, chorava copiosamente enquanto descia as escadas, porém lembrou que trouxera bagagem, e o seu dinheiro estava entre as roupas. Retornou ao lugar e começou a juntar seus trapos espalhados pela sala, o que estivesse no quarto ficaria lá. Fechou a mala toscamente, com meias saltando pelas suas bordas, e finalmente decidiu sair. Ela não teria dinheiro para comprar passagens áreas assim, pois quem estava bancando sua ida e volta era a faculdade de música. Pensou em ligar para sua mãe, talvez, pedir um dinheiro emprestado para a passagem, um dinheiro emergencial. Ela tremia, poderia ter usado o elevador, porém desceu todos os andares de escada. Sua garganta queimava, seus olhos vermelhos, sua raiva, era tristeza e raiva, um sentimento difícil de escrever, tão difícil como encontrar uma rima com Azul que não fosse a palavra sul ou algo pejorativo. Não deveria demorar para imaginar que tenho praticamente um boleto inteiro de parcelas na culpa deste evento. O que acontecer com Érica será minha responsabilidade, por mais que ela já tenha idade o bastante para entender o que se passa no mundo. Meu pai sempre me dissera, quem mexe com criança, acorda mijado. Bem, Euterpe já também tinha idade o bastante para saber o que quer, mas, sua mentalidade sempre foi infantiloide, talvez este seja seu maior defeito. Érica se via perdida, não saberia o que fazer nem em mil anos. No mais, não soube o que fazer quando abriu a porta do quarto e viu Euterpe cavalgando no meu pau, nada disto está aqui para surpreender, era o processo normal que tudo seguiria. Talvez isso já fosse sabido no dia que eu recebi aquela ligação, inquieta ligação de uma visita prolongada de Euterpe e sua namorada e salvadora Érica. Bem, também não pediria para que Érica fosse entender ou deixar de entender, em toda sua idade, aceitar o fato da namorada estar com um pau dentro da mesma xota que a deliciara por muito tempo, fosse de fato algo doloroso de se ver. Quando se chega num estágio, semelhante ao meu, onde nada mais importa, as únicas dores que doem de verdade são as físicas. Érica já tinha o que perder, e Érica também perdeu, logo, nada mais poderá fazer além de se lamuriar, e muito.

Bem, Érica havia entendido quando viu meus olhares para Euterpe serem correspondidos, ainda não havia acontecido a apresentação, e quando esta aconteceu, não fora muito bem, Érica desafinou, estava desatenta, talvez uma apresentação que encerraria uma carreira, quem sabe? Euterpe estava linda, sentada naquele piano, com seu melhor vestido. Os seus dedos magros se perdiam no branco marfim das teclas daquele piano, peças famosas foram tocadas, mas o vestido púrpura de Euterpe continha uma pequena mancha branca, do qual ela escondia muito bem, Euterpe não estava em sua melhor apresentação, o banquinho do piano incomodava suas magras carnes, uma vez que sua calcinha ficara nos corredores do acesso ao palco. Fui deixar um singelo presente para as artistas, antes da apresentação. Todas ficavam no mesmo camarim, me diverti bastante conversando com as meninas, com Érica e Euterpe. O evento começaria em quinze minutos, então me despedi e decidi sair. Euterpe me seguiu até a metade do corredor. Ela disse que estava nervosa por eu estar ali, perguntei se ela queria que eu fosse embora, ela disse que não, ela disse que era importante eu ver como sua progressão fora rápida. Eu sorri, e, involuntariamente beijei-a. Euterpe é baixinha, me curvei para beijá-la, de longe parecia que eu estava roubando sua alma. Euterpe, com seus dedos de artista, passeou sua mão pelo meu peito, barriga, cinto, calça, pau e agarrou com força. No meu ouvido ela me disse que tínhamos treze minutos. Virei-a, desci sua calcinha, do qual ela, sem muita inteligencia, apenas chutou para um canto do backstage. Levantei seu vestido e fodemos ali mesmo. Euterpe estava muito molhada, mas sua boceta estava estranhamente fria. Ela segurava no suporte do extintor de incêndio, enquanto eu empurrava, várias vezes, meu pau para dentro. O tempo sempre passa mais rápido quando se está trepando, logo ouvimos vozes, e senti vontade de gozar, quando fui gozar fora, acabei esporrando seu vestido, deixando a marca genética do crime naquele ato tão divino. Corri para o lado oposto do corredor enquanto Euterpe se arrumava, largando no esquecimento eterno do teatro aquela evidente calcinha.

Agora Érica foi-se, estava determinada a deixar sua ex-amada para trás, determinada a esquecer tudo, talvez mudar de cidade, talvez largar a música. Algumas coisas acontecem na vida exatamente para tomemos uma decisão definitiva, outras são meras tragédias e nada mais, Érica sabia da tragédia, sabia da tristeza, e agora, traída pela sua amada, sim, mijou-se por deitar com alguém mais nova, sim, uma cicatriz que nunca melhorará, sim, sua fraqueza era se apegar demais nas pessoas. Tinham falado uma vez em casamento, Euterpe tratava o assunto com uma insignificância pura, já Érica velava seus sonhos de viver feliz com a pessoa amada, até que chegou o grande eu, monstro faminto, e destruí todos os seus anseios. Não pensei no que aconteceria depois, eu apenas era um espectador, tal qual naquela apresentação, eu apenas via Euterpe afundar os dedos nas teclas, sabendo que estava sem calcinha naquele banquinho frio, sabendo que a mancha branca nas suas costas chamara a atenção de Érica. Ela queria questionar, mas não conseguiu, logo isto abalou sua voz, todos olhavam ela não conseguir os sustenidos, enquanto Euterpe passeava os dedos no piano, como sempre fizera.

A volta para casa foi um silêncio.

Destes silêncios tenebrosos que eu tenho medo. Eu via o rosto de Érica pelo retrovisor, seus olhos pareciam querer chorar, mas ela disfarçava. Euterpe deitou a cabeça no seu ombro e aquilo deve ter pesado algumas toneladas, eu via as canelas brancas da pianista como praticamente duas pequenas teclas, pensei na sua boceta, apertada, fria, artística, pensei em comê-la de quatro naquele backstage como um homem das cavernas, com o foco apenas no gozo e nada mais, sei que isso excitou mais Euterpe do que um sexo normal com seu bê a bá comum. Esta menina mantinha uma áurea maligna, como se quisesse usar quem a rodeia, claro que comigo não funcionava, eramos apenas seres que se importavam com o prazer carnal e nada mais, eu não afetava Euterpe,ela não me afetava, talvez, ela tenha uma paixão por algum tipo de controle, do qual Érica falhara miseravelmente em mantê-lo e eu conseguia segurar, um cavalo selvagem em suas rédeas abismais. Com aquela cabeça pesando milhares toneladas, com Euterpe sentada no meu colo, na cama onde ela e Érica dormiram por quatro dias e eu durmo por muito tempo. Euterpe não poderia dizer-se bonita, talvez estranha, muito magra, magra demais, sem curvas, sem peitos, sem bunda. Sua foda era pela estranheza, pela maluquice. Pelo sufocamento, pela dor. Euterpe gosta que eu a sufoque também, ela me pede para meter o pau o mais fundo que puder, enquanto eu aperto seu pescoço até ela quase apagar. Não me importo, faço até ela ficar com lábios arroxeados. Um dia, ela morrerá disto, um dia, terá seu corpo enterrado ainda com esperma quente misturado na boceta com sangue coagulado. Érica não fazia nada disto, e não entendo como aqueles polos distintos se misturaram, talvez Euterpe queria uma normalidade, talvez um meio de sair de casa, alguma posição. Érica era mais velha, trinta anos, Euterpe vinte um, então aquilo tudo de proteção do mais velho pode ser contado.

Agora aquela mala gigante sendo arrastada, Érica chamou um, chamou dois, chamou três, mas apenas o quarto táxi parou. Ela pediu para ir ao aeroporto, mas não tinha passagem, mal tinha o dinheiro do Táxi. Ela vai ligar para mãe ou pai, não se sabe, o Taxista ficou preocupado pelo quanto que aquela menina chorava, pelo quanto que aquilo tudo era doloroso, ele tentou acalmá-la como alguma palavra bondosa, mas nada poderia ser feito. Nunca mais veríamos Érica. Euterpe seguiria seu caminho, e encontraria uma outra pessoa, mas aquele momento estaríamos ali, não se importando com tudo. Claro que o grande evento começou com uma discussão silenciosa. Eu preparava algumas linguiças, tomava uma cerveja e deixava as meninas a vontade no meu quarto. Eu ouvia murmúrios, pequenos murmúrios, mas pelo que meu pai e minha mãe brigavam, eu sei do que se tratavam. Estou bebendo cerveja, preparando linguiças inutilmente, sei que elas não irão jantar. A porta abre com um esbarrão, batendo na parede oposta, Érica saí, com ódio nos olhos, diz que vai tomar um ar, e sai do apartamento. Eu pensei em ir atrás de Érica, mas eu vi Euterpe sentada na cama, estava de shortinho e babydoll, suas pernas brancas balangando na cama. Perguntei o que aconteceu, ela disse que foi culpa minha, que viu o vestido manchado e perguntou o que era aquilo, que sabia que Euterpe se apresentou sem calcinha, a calcinha que ela havia ganho de Érica, e perguntou o que aconteceu. Euterpe não falou nada, ficou calada enquanto Érica enlouquecia, falava sobre amor e gratidão, sobre o que abandonou para viver com Euterpe. Muitos minutos de discussão e quase agressões, e o vestido jogado na parede, agora estendido no chão, com aquela fosca mancha branca. Euterpe estava sentada na cama com o babydoll, parecia triste, mas não tanto, ela me olha e pergunta se eu quero terminar o que comecei. Em pouco tempo eu estava em pé na cabeceira da cama enquanto ela me chupava, e como chupa bem, afagando minhas bolas como se fosse seu próprio piano, não tão distante ela estava sem roupa, cavalgando no meu pau, e eu apertando seu pescocinho.

Érica teria esfriado a cabeça, talvez se arrependido do que dissera para Euterpe, pensara que estaria exagerando, pensou até que a mancha branca estaria ali antes de tudo, que tocara sem calcinha para tentar excitar a namorada, ou por ser mais agradável, Érica tentou pensar o melhor da melhor maneira, um último suspiro do animal indo para o abate, talvez. Dai cometera o seu maior erro de voltar para o apartamento, abrir a porta, achar estranho o silêncio e a porta do quarto fechada, ver a panela no fogo, com o fogo desligado e as linguiças inertes, ver a garrafa de cerveja pela metade, daí abrir a porta do quarto e me ver fodendo Euterpe, meu pau dentro da boceta da menina, e ela branca com os lábios azulados, gozando e pedindo mais.

Depois seria a vez dela de me esganar.

Não sei quanto tempo Érica ficou assistindo, se segundos, se horas, se anos. Sei que Euterpe parou, eu abri minha mão, a cor voltou para a menina que com os olhos arregalados nada disse. Ela olhava para Érica assustada mais segura, depois olhou para mim e continuou o movimento, mais séria, mais silente, porém ainda sexual. Daí Érica saiu do apartamento batendo a porta. O vestido, manchado, caído ao solo. Euterpe rebolando no meu pau e as milhares crianças africanas passando fome. O mundo gira, sempre girará. Érica está no aeroporto, está chorando, tenta ligar para a mãe, precisa de uma passagem de avião, mas só conseguirá sair dali em dois dias, e assim ela passará dois dias no aeroporto, e assim ela viverá sem superar o acontecido, nunca mais tivemos notícias, nunca mais soubemos de Érica, estávamos ocupados trepando, agora Euterpe de quatro, e eu metendo naquela bunda branca e sem graça, mas metendo. As tatuagens faziam uma graça a mais, porém tudo se torna mais do mesmo. Enterrada com a cabeça no travesseiro, com a bunda para cima, e eu metendo fundo, uma, duas, três vezes, dai repetindo o processo. Não sei o que se passava na mente de Euterpe, ela pediu para que eu fodesse seu cu, mas eu sabia que ela não gostava, porque só sentia dor sem sentido. Ela queria sentir dor, talvez fosse uma forma de se desculpar pelo mal causado a Érica, uma forma estranha, abissal. Eu seguro aquelas ancas e continuo metendo, metendo, metendo, e nisto Érica está abandonada no mundo.

Quem não está?

Tomamos banhos juntos. Euterpe está com a cabeça apoiada no meu peito, disse que vai embora no outro dia, vai voltar para o teatro, continuar tocando. Ela pergunta se eu gosto mesmo da menina que disse que me ama. Eu pergunto quem, ela responde “a do espelho”, dai eu lembro de Calíope e do tempo que eu não a vejo, lembro de Tália e da sorte dela não ter aparecido até então, e um flash de memória me vem o rosto de Eva, misteriosa, bela, secreta. Agora eu ali com Euterpe, a água cai entre nós, como a chuva que esparrama a dor dos pobres do lado de fora. Como da primeira vez, como desta última vez. Euterpe havia pedido para e gozar dentro dela, disse que se engravidasse, era porque o destino quis assim, no meio de uma foda eu não consigo pensar, e gozei, dai o líquido jorrou e esparramou pelas suas pernas, também manchando minha cama, que já estava acostumada a este tipo de fluído. No banho, o resto de mim saída de Euterpe, eu disse que se ela engravidar, o nome da criança poderia ser Demian. Euterpe riu, disse que eu sou péssimo com nomes, e não seria justo para quem me ama de verdade. Seu olhar sacana, psicopático se afastou. No mesmo dia arrumou sua mala, no mesmo dia deixei-a no aeroporto e no dia seguinte recebi sua ligação, dizendo que chegara bem. Observando esta bagunça toda, tudo que acontecera eu dou risada, risos imbecis. Acendo um cigarro, arrumo o quarto, vejo o dia passar. Tropeço em algo, o vestido lilás, roxo, sei lá. Lá estava ele, esquecido, um presente? Não sei. Coloco ele com cuidado em cima da cama, fico observando-o enquanto fumo meu cigarro, lembrando dos detalhes da última semana. Não chego a escutar a porta abrindo, muito menos Calíope entrando no quarto, estava vestida como quem volta do trabalho. Ela dá um bom sorriso para mim e pergunta se aquele vestido é um presente.

Eu não responto.

Ela pega o vestido da cama, e sorri achando lindo. Se despe ali mesmo, estou fumando cigarro, ela veste aquele pedaço de tecido que lhe cai muito bem, melhor do que ficou em Euterpe, ela pergunta se ficou bom, eu respondo que sim. Calíope dá uma volta e eu vejo a grande mancha branca na bunda do vestido.

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Autor: Rhuan Rousseau

Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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