Textos

(In)ternindade – 13 – Flores para ela.

Poliana, eu realmente sinto sua falta, hoje seria o seu aniversário e no mais, o que me sobram são lembranças, sentimentos passados e estas flores que trouxe para o seu túmulo. São violetas, as que você mais gostava, ainda sou um alcoólatra, ainda sou um mulherengo, faço pessoas tristes com meu desprendimento da vida, mas sinto que as coisas precisam ser do jeito que são, eu mesmo já desisti, desisti de uma alegria pura, ou de um motivo para ser feliz, eu também desisti de encontrar um caminho em meio à tantas palavras e escritos, eu estou igual a você, apenas esperando, talvez uma morte por idade, talvez uma morte por violência, não paro mais para pensar o que vem depois, seja lucro seja perca, seja qualquer coisa. Você descansa, deixou o mundo seguir seu rumo, enquanto eu resolvo os problemas que sobraram, você sabia que seu tempo era restrito, sabia que deixaria, como sua memória, não uma lápide num cemitério, não os restos mortais que os vermes comeram. Você sabia que suas lembranças, e o que tu me fizera sentir eu precisaria carregar para sempre como uma maldição ou uma boa memória, talvez isto tenha desandado tudo de uma vez, tu escolheste um vaso quebrado, rachado, furado, para depositar suas boas esperanças, talvez tenha apenas puxado o gatilho na cabeça do feto que seria abortado, e isto eu posso dizer, sou um aborto do mundo, da vida, da sociedade, um sem rumo tentando ruminar as verdades contidas nestas linhas mal escritas, nestes cálculos errados, nesta química falha e  física ilusória, Poliana, você sabia, tinha a visão do que iria acontecer e do que tudo iria se tornar, agora vê este mundo pegar fogo, vê estes dias se tornarem longos e cruéis, vê eu tomar todas as decisões erradas, fazer as mulheres mais honestas do mundo se apaixonarem por um vadio salafrário que eu sou. Tu jogaste, despejaste um barril de lixo tóxico em todas as lagos do mundo partindo e me deixando só, me deixando livre.

Hoje existe a Calíope, estamos juntos há algum tempo, e vejo que as coisas estão se moldando para algo mais sério, não sei Poliana se desejo algo assim, não me sinto preparado, não quero te comparar a um cachorro, mas, estas coisas são que nem quando cachorros morrem, você não quer ter outro. Eu ainda não me sinto bem, pleno, para me fixar em uma única linha, em uma única pessoa, sou um cavalo selvagem, fui selado uma única vez e agora, que minha domadora morreu, não tenho mais como voltar a vida de cativo, porém aqueles olhos e aquele jeito não me permitem terminar tudo, ela me levou para uma espécie de ritual, algo assim, algo muito importante para ela, quase uma festa de formatura, daí aparecem e se vão todas as outras, Tália, que quase me matou, Vânia que foi para o exterior, Euterpe e suas loucuras, Tereza, Cléo, Mel, dentre muitas outras que surgem, reaparecem, vão e voltam. Como se cada uma roubasse um pedaço meu, levasse para si, guardasse este pedaço e agora, estou cada vez menor, cada vez mais simples. Estou me perdendo aos poucos, e vejo isso como uma tragédia maior, pior do que a morte, estou ficando cada vez mais fraco, meus textos não tem mais a mesma força  e meus dias não me satisfazem mais, sabe do meu medo de ficar louco ou cego, sabe do meu medo de começar a fraquejar, de não saber o que fazer. A morte seria um alívio, porém nunca terei a coragem o bastante para ir até ela, como se, morrer, enforcar-se, desaparecer fosse uma decisão tomada pelos tolos ou pelos corajosos, viver é um ato normal, decidir morrer é necessário esta coragem, e Poliana, você me conhece, eu não tenho.

Agora estou aqui, com uma vontade louca de beber alguma coisa, de ir para algum lugar, mas queria que você fosse comigo Poliana, que pudéssemos jogar tudo para o ar e ir embora, sua mãe aparecera um dia destes, reclamando como sempre, dizendo que eu te desgracei e etc. Sua mãe é a minha lembrança viva que você existiu, e, vai passando o tempo eu vou esquecendo como era sua voz, como era sua risada, como era o seu jeito de ser, muitos anos passaram, agora você é apenas um punhado de ossos, que logo será pó, que logo será nada, toda sua beleza, toda sua inteligencia, toda sua personalidade se misturou a terra do qual estou em pé, as árvores deste lindo cemitério e aos minerais que estão espalhados por todo lugar, você agora deve viver eternamente, misturada na natureza, porém eu estou miserável, sofrendo, solitário. Sinto falta de um sorriso pela manhã do qual eu sinta que este sorriso será correspondido por mim, me sinto mal por não poder dar a estas mulheres um pouco de reciprocidade sincera, eu imagino que elas devam imaginar que eu as amo, ou que eu sinto algo por elas, mas não consigo sentir, e pior ainda, Euterpe que sente algo maluco, Calíope que sente algo tenro, e Tália que sente ódio e sente amor, além de todas as outras que, ou eu decepcionei como Mel, ou foram levando algo de mim como Vânia. De fato, sinto como se enganasse cada uma delas, dando algo que só dei a você, e, infelizmente, não poderei dar novamente. Você está ai, escondida debaixo desta terra, mas nunca conseguirei tirar da mente seu rosto morto, seus olhos frios e sua carne esbranquiçada no dia que fomos te velar. O semblante sério da sua mãe, como se eu fosse um assassino, as pessoas da sua família julgando-me como se eu causasse sua doença. Tais coisas permeiam a minha mente, tais coisas se escondem no fundo das garrafas que eu bebo, tais coisas me assombram nas madrugadas, me fazendo acordar suado, tonto, doente. Preciso sempre buscar imaginar outras coisas, me tranquilizar, tomar meus remédios, fumar um cigarro. As vezes dormir alcoolizado e começar a beber ao acordar.

Uma leve brisam farfalhou as árvores do cemitério, como um pensamento oblíquo, algo que internamente gritava, mas eu mantinha em um segredo para mim mesmo e para qualquer um, eu busquei silenciar a dor, esta dor, a dor daqui de dentro. Poliana, existe nesta sua nova morada uma paz que inexplicavelmente não pode-se transformar, não pode-se se distanciar, Realmente, Poliana, agora que você em paz, agora que você vive aqui, olhando a natureza de baixo para cima, sinto que deve estar feliz em pensar em mim como um idiota que tenta segurar as pontas. Mesmo no vício, usando os cigarros ou a bebida como minha eterna fuga, mesmo procurando escrever, como um idiota, os antigos já diziam Genus irritabile Vatum, e tenho levado isto como um mote, um poema mal escrito, uma verdade mal feita, um aborto, a vida abortada. Poliana, não dê risada, talvez no fundo da sua perversidade estas flores violetas representassem um luto lúdico, o mesmo luto que uma criança possuí. Não é uma tristeza de um término, pois eu ainda te veria, saberia que você existe. Mas, passam os dias e eu esqueço de como era sua voz, passa os dias e esqueço como era a textura de sua pele, como eram os sorrisos, você se torna um borrão na minha mente, uma pequena pedra afundando na água, um vestígio de nada, um silêncio oculto em mim mesmo.

Curiosamente, Poliana, pensando nestes dias, pensando em Calíope, e no que ela tem de você. Pensando no amor, o que seria? Eu nunca imaginei que poderia um dia me apaixonar, isto aconteceu e você morreu, logo, pode ser que este meu amor se prolifere como uma doença, alguma sina de um Deus demoníaco que deseja me punir pela tristeza que eu causei e pelo que causaria. Talvez, a ideia de ter alguém apegado a mim, me tornar responsável me assuste, Calíope não chega ao seus pés, principalmente quando falo de intelectualidade, ela ainda é muito menina, muito boba, você, também não era um Einstein, mas se virava, sabia ligar os pontos. Calíope ainda é muito pura, vive uma adolescência que já passou da hora, tal qual todos os jovens destes dias, vive um dia de praia, por mais que trabalhe, por mais que exista uma realidade batendo em sua porta diariamente, Calíope busca sorrir para isso, idiotamente, sim, Poliana, ela tem o mesmo sorriso idiota que você tinha, o mesmo, igualzinho (sinto sua falta) agora eu entendo que as mulheres mais espertas nos ludibriam com os sorrisos mais bobos. De fato, são bobos, mas esta bobeira faz parte também. Tornamos-nos poeira, esta poeira suja do cotidiano, Poliana, esta merda toda que nós vivemos, e viver esta merda toda sentindo uma dor, uma dor que não se sabe onde doí, não nego, já tentei me matar algumas vezes, mas não tenho nenhuma coragem para isso.

Talvez você também não tivesse.

Nem Calíope, nenhuma das outras.

Tália provavelmente. Ela me ama ou me odeia, eu sei que sou venenoso para esta guria, mas ela gosta de mim, por isso tentou me matar. Esta história com Henrique nada mais é que um desfoque, como seu eu não conhecesse, uma maneira de justificar o seu amor por mim, Tanto ela quanto Calíope precisam de asas para se esconder e eu sou esta galinha mãe. Tália deseja algo impossível, ela é um navio afundando, mas só terá alguma importância se houver tripulação, não importa se o Henrique ou eu, alguém tem que ir junto naquela loucura, daí ela se cuida, tem um corpo lindo, um sorriso sensual, um jeito estranho de encarar a vida, de foder com a vida, de foder com todo mundo. Mas, não me esqueço, me corta o coração a última vez que olhei para seu rosto, ela decidida a ver minha cabeça em uma bandeja, mas, mesmo assim, a vadia com a maquiagem borrada de chorar, drogada até a última célula do corpo, mas eu também tenho minha parcela de culpa, o que Euterpe é com Érica, Tália é comigo e o que alguém foi para você Poliana? Eu fui a sua Euterpe, sua Tália, seu Calíope? Não sei, não sei o que você foi ou o que eu deixei de ser, mas, sei que agora estamos aqui, eu vivo e você morta.

Mas decidi algo, Poliana, quando eu sair deste cemitério, ainda sim passando pelos túmulos e vendo a data de morte de cada um daqueles ocupantes, pessoas do ano passado, pessoas deste ano, pessoas do mês passado, vidas que não saberei nunca o que foram, mas se um dia foram algo, a terra já fizera o mundo esquecer. Eu andarei para fora daquele lugar, talvez pararei num bar, comprarei uma ou outra bebida, ah o velho vício de sentir uma cerveja muito gelada atingir o estômago, num bar repleto de pessoas desconhecidas e desinteressantes, mas com peculiaridades. Eu sinto todos os pontos elétricos daquela bebida alcoólica, trabalho nela com muito afinco, deixo ir uma, duas ou três garrafas. Sim, Poliana, esta é minha vida agora, meu ciclo vicioso de beber, escrever, ganhar dinheiro, beber, escrever, ganhar dinheiro e por aí vai, vivendo os dias, meses, anos, ver o tempo passar e contabilizar o quanto me fata de vida com o tempo de pena de alguns prisioneiros, eu vejo suas penas máximas e contabilizo que eu já terei morrido quando este sujeito voltar a vida social. Bebo mais uma, e mais outra, são cinco, pago minha conta e saio, a rua me parece agora mais alegre, o dia está acabando, o vento frio de uma noite tempestuosa se aproxima, é sexta-feira? Não sei, ando, e ando, e ando. Compro mais flores, um ramalhete de flores vermelhas do qual não faço ideia qual é o nome, mas fora muito caro. Como podem cobrar tão caro por cosias mortas? Estou apenas indo entregar um pedaço de natureza morta para que a receptora deste fúnebre presente as assista morrer. São coisas do mundo que não se deve entender, ou compreender na maneira literal.

Poliana, as pessoas me olham estranhamente na rua, sou um homem grande, largo, com um bouquet de flores na mão, flores de nome desconhecido. Algumas largam seus smartphones por alguns instantes para que me vejam desfilar com aquela tocha viva de vegetais. O mundo perdeu a amabilidade poética do amor? Não entendo algumas convenções mas eu entendo que estas não devessem ser notadas, me dá algo ruim, lembro-me que só te dei flores depois de sua morte, Poliana. Sou um merda, de fato, mas pelo menos fique feliz por estar tentando corrigir, de maneira tosca, estas merdas que eu faço. Ando caminhante, cambaleante um pouco, mas parte do efeito do álcool passou com a caminhada, e parte da minha vida passou com o que eu não aproveitei, talvez, resignado a corrigir meus erros, talvez resignado a tentar novamente, a criar novas expectativas, ah Poliana, quantas vezes eu falhei em tentar fazer esta merda e não deu certo.

Poliana, quanto tempo eu não entro nestas lojas de departamento? Agora que eu notei que ainda uso as roupas que comprei contigo, sevem, estão puídas, mas servem. As vezes ganho algumas roupas, outras não, mas notei agora o quanto não interajo com estas coisas normais do mundo moderno. As vendedoras ficam olhando para mim, olham para o ramalhete, olham para meu jeito desengonçado de andar. Sou um homem grande, elas parecem todas muito pequenas, não sei o motivo. Vejo o grande número de roupas desinteressantes e noto o quanto que eu não preciso deste meio de vida, me sinto Sócrates andando no mercado, para ter certeza o quanto não precisa do supérfluo, algumas destas me comem com os olhos, outras me desprezam, o ramalhete deve ser tão chamativo quanto um turbante, ninguém vem pergunta para mim se preciso de alguma coisa ou se quero ajuda.

Eu nem sei se quero.

Vejo-a com cabelos amarrados para trás, com o rosto suado, maquiagem já quase desgastada, olhar cansado, abatido, deve ser sexta-feira mesmo, o dia máximo do cansaço. Ela está lá, cansada, faltando uma hora e meia para abandonar aquele ofício e ir para mais uma aula de sua faculdade de cinema (ou jornalismo). Ela estava no caixa, não me viu aproximar, se fosse um assalto ela estaria morta em três segundos, mas para sua sorte, desta vez, não era. Ela estava lá, Poliana, com a mesma cara de boba que você fazia quando se surpreendia, ela olhou para mim, seus olhos se arregalaram por alguns segundos, como uma criança que olha para uma sacola esperando um presente, ela vê as flores e seu sorriso abre, eu também dou um sorriso. Por pura cagada eu acertei quais eram as flores favoritas de Calíope

 

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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