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Lista de Motivos para não falar com as Pessoas

Você não deveria estar lendo isso, por que isso não deveria ter sido publicado. A verdade é que eu tenho estado mais associal do que de costume e decidi fazer uma análise de consciência para tentar encontrar as razões para isso. Esse trabalho mental resultou no texto “Os Bons e os Maus” e nessa lista que você está prestes a ler, e que tenta explicar meu isolamento. Talvez isso sirva para alguma coisa na sua vida, vai saber.

1 – Pessoas te dizem o que fazer:

Você se acha acima da média? Existe uma coisa chamada o “efeito do lago Wobegon”, em que praticamente todas as pessoas acreditam estar acima da média, o que é impossível, é claro. Mas isso serve para mostrar como nós não temos uma visão tão precisa de nossas próprias habilidades, ou do  mundo a nossa volta.

Talvez por isso as pessoas achem que têm a resposta para os seus problemas. Que se fossem elas no seu lugar, tudo seria mais simples. Elas sabem o que você tem que fazer, qual a melhor decisão a ser tomada, e muitas delas não hesitam em dizer, insistir ou até mesmo tentar coagi-lo a agir como elas acham que seria melhor para você. Grupos inteiros surgem assim: Políticos, religiosos… Conforme as pessoas se juntam, a liberdade de cada uma delas diminui.

2 – São assuntos repetitivos e não interessantes:

Schopenhauer disse que a vida é como uma peça de teatro que é repetida tantas vezes que depois da terceira ou quarta vez, já perde a graça devido a sua previsibilidade. Ele apostava consigo mesmo, sempre que ia a um café específico, que os cavalheiros que sempre sentavam na mesa ao lado iriam conversar sempre sobre o mesmo assunto. Caso ele perdesse, daria o dinheiro da aposta ao garçom. Mas isso nunca aconteceu.

Eu simpatizo com esse cara. Já morei em vários lugares e conversei com pessoas de cidades, classes sociais, formações, profissões, gêneros e preferências sexuais diferentes, mas parece que nas horas vagas, nos bares, em suas conversas descontraídas, por mais diferente que essas pessoas fossem, os assuntos eram sempre os mesmos.

Eu precisava apenas viver uma semana em meio a um novo grupo para aprender os padrões de comportamento e assuntos de conversa que cada membro iria repetir ao longo do ano, ou do tempo em que ficássemos juntos. Cioran disse que o que ele sabia aos 60, já sabia aos 20, e que os outros 40 anos não passaram de uma reconfirmação inútil do que ele já havia aprendido. Eu passei dos 20 já faz 3 anos.

3 – Meus assuntos são repetitivos e não interessantes:

Não é falsa modéstia, já que eu também sofro com o mal do lago Wobegon. Eu gosto de psicologia e de filosofia, especificamente o existencialismo e absurdismo. Eu concordo com Camus, que disse que a única questão filosófica a ser respondida é a se a vida vale ou não a pena ser vivida ou se o suicídio é a melhor opção. O resto, todo o resto, é secundário. Logo, enquanto eu consigo sentir empatia pelo sofrimento descrito por Schopenhauer, Camus ou Cioran, tornou-se impossível para mim simpatizar com outras formas de sofrimento mundanas, desde términos de relacionamento até indignação por atrocidades ou injustiças. A humanidade para mim já parecia uma causa perdida, meu interesse por ela havia acabado, e agora estava focado no mundo das idéias.

Mas eu entendo que as pessoas também não têm interesse em ouvir minhas lamentações sobre a falta de sentido da vida e o absurdo da existência. Então acaba sendo mais uma incompatibilidade por falta de assunto: Os assuntos deles me entediam, meus assuntos os deprimem, assustam ou entediam também, então nós acabamos naturalmente não nos falando muito, digo, eu e as pessoas.

4 – Eu não concordo com ninguém

Eu sempre me lembro da fala do Barbárvore quando penso nisso: “Eu não estou do lado de ninguém, por que ninguém está do meu lado”. Lembro-me também do que Rust Cohle fala do relacionamento entre homens e mulheres: “As inadequações da realidade sempre entram no caminho”. Acho que comigo, isso acontece com as pessoas e grupos de forma geral.

Eu nunca consegui concordar com um grupo ou com uma ideologia para me considerar parte dela por muito tempo. E considerando o quanto o mundo se encontra polarizado, o quanto as pessoas se dividem e subdividem em grupos e fazem network, isso se torna um problema. As vezes me vejo como um presidiário sozinho no meio de um punhado de gangues, sem fazer parte de nenhuma, e todas olham para mim com suspeita.

Por mais que eu concorde com os valores de um grupo inicialmente, que é o que me atrai nele, depois de ficar certo tempo dentro dele, eu começo a perceber coisas das quais discordo. Comportamentos de seus membros ou regras específicas, certas contradições ou incoerências no discurso do grupo. Aí eu percebo que para você se sentir realmente pertencente àquele lugar, você deve sacrificar aquela parte da sua individualidade, que é o que te faz discordar de algumas coisas e não querer se anular em prol do coletivo. Eu nunca consegui fazer esse sacrifício.

5 – Ninguém ouve ninguém:

Eu pareço ter uma preferência estranha: Quando eu falo, eu gosto de ser ouvido. Digo que é estranha, apesar de parecer óbvia, por que parece que a maioria das pessoas demonstra não se importar com isso. Parece que elas só querem falar, e todos estão apenas esperando pela sua vez, alguns até interrompem e passam por cima uns dos outros, em um desespero de conseguir transmitir o que quer que seja que tenham a dizer, mas no final, quando você pergunta do que se tratava a conversa, parece que ninguém se lembra.

Foi só um bate papo, algo para passar o tempo, nenhuma conexão real foi feita. E já que, como eu disse, eu gosto de ser ouvido, gosto de ter uma conexão real com alguém, entrar nessas conversas onde ninguém ouve ninguém é como fumar um daqueles cigarros sem nicotina na tentativa de parar de fumar: Você vê aquela merda queimando, mas não sente a nicotina no seu sangue, e sua vontade só aumenta. Sendo assim é melhor não fumar nada, não iniciar conversas.

6 – O Papel da Ovelha Negra ou Bode Expiatório:

Se você tenta não desempenhar papel nenhum em um grupo, as pessoas irão te enfiar em um, e este será provavelmente o da “ovelha negra”. Você é o rebelde, o esquisito, aquele que se recusa a fazer parte do rebanho e fala o que pensa. As vezes pode acontecer de a sua independência ser valorizada por algumas pessoas, como aquelas que sacrificaram a individualidade que você não quis sacrificar no passado. Enquanto você não fizer nada que as ofenda diretamente, poderá até receber certo apoio delas, mas não se engane, você ainda é uma espécie exótica no meio deles.

Pode acontecer ainda de, por causa de sua capacidade de falar o que pensa e as vezes o que eles pensam, mas não têm coragem de dizer, você passará de “ovelha negra” a “bode expiatório” do grupo. Você fala aquilo que incomoda e aquilo que muitos deles pensam, mas só até certo ponto. Por que uma hora você pode passar dos limites, e aí ser sacrificado ou usado de mártir pelo bem do grupo. E aí você será descartado, enquanto os outros continuarão sobrevivendo sob suas máscaras, sem coragem para dizer o que pensam, esperando pelo próximo bode.

Este é o papel que eu normalmente ocupo nos grupos de que faço parte antes de discordar deles e abandoná-los, como disse antes. E eu não quero mais ocupá-lo.

7 – A Relação com o Outro é impossível

Aí é que eu quero mandar tudo a merda. Depois de tudo isso, ainda existe um autor na Psicanálise, Jacques Lacan, que fala que a própria relação com o outro é impossível. O Outro fala em nós, os outros respondem e nós escutamos. É como se os outros fossem apenas paredes e móveis que rebatem o som da voz do nosso Inconsciente. Estamos sozinhos, falando com nós mesmos e os outros são só barulho.

Essa é uma ideia que eu pretendo desenvolver melhor mais tarde, mas a questão é que… Considerando tudo o que foi dito, nota-se que as relações sociais que tive nunca foram muito satisfatórias. Talvez eu seja muito exigente, ou talvez isso tudo seja pura arrogância. Mas eu sei que não sou o único a pensar assim. Existe muita gente que percebe que existe algo errado nas relações entre as pessoas hoje em dia, que também acha algo repetitivo e mórbido, mas que continua fazendo para evitar as crises existenciais. Depois de anos servindo de bode expiatório para as pessoas, você aprende um pouco sobre os temores delas.

Então é, parece que com o passar do tempo e com meu estudos eu venho me isolando cada vez mais. Talvez um dia eu acabe vivendo como Thoreau ou como o Unabomber.

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

1 comentário em “Lista de Motivos para não falar com as Pessoas

  1. Oi! Achei muito curioso ter encontrado seu texto, pois hoje eu estava lendo o livro “Caninos Brancos” que fala justamente sobre isso, mas da perspectiva de um lobo/cachorro em relação aos outros cachorros da tribo. Ainda não terminei, então não posso te dizer se ele consegue se conectar com os outros ou se vai ser sempre um lobo solitário. hehe
    Parabéns pelo texto e boa sorte com as interações humanas!

    Curtido por 1 pessoa

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