Textos

O amor é um cão dos diabos.

Ela chegou chorando, depois dos quatorze, nunca mais tinha visto ela chorar. Não quis falar comigo, apenas cruzou a sala como um raio e trancou-se no quarto. Parei de digitar meus textos vazios. O silêncio naquele pequeno apartamento nunca foi tamanho. Nestes momentos eu demoro para tomar uma decisão, fico pensando em todas as variáveis, e, por consequência o trem acaba partindo e eu perco uma boa chance de mudar o rumo da história. Imaginei diversos motivos para que ela estivesse chorando. Bem, sempre fora muito forte, talvez tenha puxado esta parte minha da família, nasci preparado para aguentar todas as merdas que fosse me exigido pelo destino, porém, uma forma que Deus descobre de atingir aqueles que não acreditam em sua existência é atacar seus filhos.

Fecho lentamente o notebook. Levanto-me com dores nos joelhos, as velhas dores e me arrasto até a porta do seu quarto. Apenas silêncio, e alguns soluços, mas, no mais, silêncio.

– Deixa o pai entrar – digo batendo à porta. Nenhuma resposta. Fico aguardando. Tivemos sempre uma relação bem aberta, ela sabe o que precisa saber das minhas merdas e eu tento aconcelhá-la a não ser uma fodida tal qual eu fui. Ela tem suas aspirações artísticas, tem suas ideias já moldadas, apesar de, aos dezesseis, ninguémd everia ser levado a sério. Vivera uma infância complicada, querendo mais do que podendo ter, porém, estava ali, viva e forte. A porta se abre como um pedido de desculpa. O quarto desarrumado, suas roupas largadas pelo chão, apenas os livros em perfeita ordem. Decidirá há algum tempo aprender a tocar saxofone, infernizando os vizinhos. Lá estava o instrumento, delicado no canto da cama.

Seu rosto está vermelho, seus cabelos rubros caem aos ombros, como lembra a mãe, os olhos inchados, as lágrimas rocambolantes.

– Merdas acontecem – eu disse largando o meu peso naquela frágil cama. Ela nada diz, apenas funga e funga. Sei que seu olhar é acusador, como sou o homem que não entende seus sentimentos, suas vontades e anseios, sou o homem inquisidor, o mestre da sociedade patriarcal, sou todas estas merdas e etc. Segundo a sociedade – não adianta chorar. O mundo não vai esperar você se sentir melhor.

– Eu sei pai, eu sei. Eu escrevi um poema, eu entreguei o poema, ele apenas fez rir e rasgou.

Os problemas amorosos fazem parte da sina do meu sobrenome.

– A maioria dos meus poemas foram rasgados, as vezes penso que os poemas são feitos para isto. Como diz o velho Buk, o amor é um cão dos diabos. Isto que você sente vai passar, tudo o que você sente passa, somos uma colcha de retalhos de nossas decepções e falhas.

– Mas não está passando!

– Passa, vai passar. Vai te machucar muito primeiro, mas, depois, apenas virarão mais palavras no papel da vida, algumas vazias, outras com significados. Se tudo fosse perfeito não haveria motivo para viver.

Ficamos ali por um tempo. a tarde foi caindo lentamente, o por do sol da janela do seu quarto era uma visão enigmática do destino. Apenas o alaranjar do dia e o escurecer da noite. Ela ficou deitada, fungante, absorvente. Não era a primeira tristeza, não era a primeira decepção e tão pouco seria a última. Fiquei ali até que ela adormecesse.

Debruçado na varanda, com um copo na mão, sentindo o queimar da bebida na garganta. Aquele era o elixir daqueles que não conseguiram superar por si só as merdas da vida.

Mas ela será diferente.

Como Alexandre da Macedônia: Será vencedora onde eu fracassei.

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

1 comentário em “O amor é um cão dos diabos.

  1. L. Mathias

    Deus descobre de atingir aqueles que não acreditam em sua existência é atacar seus filhos…. essa é ótima.

    Curtido por 1 pessoa

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