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(In)ternidade – 14 – Coração negro no púbis.

Calíope me perguntou quem era àquela mulher que sorrira ao vir falar comigo. Disse que não precisava se preocupar, não haveria motivos para sentir ciumes. Não agora, mas antes, poderia existir. Eu estava aprendendo a ver um outro lado de Calíope: cuidadora, ciumenta; sentimental. Me espantou, ela tinha seus motivos, sempre terá, por isso, procurava um meio de tentar não aprofundar aquela loucura, mas, todas as vezes eu me sentia mais afundado num relacionamento sem destino, sem rumo. Liguei o carro e fui direto para um muro, esta era a minha decisão com Calíope, e novamente, deixaria esta guria na mão, como todas as outra que eu deixei. Porém, existe um outro lado, existe um pedaço meu que gosta desta brincadeira de mamãe e papai, gosta desta brincadeira de ciumes, gosta de ser um centro das atenções, de saber que existe um pensamento em mim antes das noites de sono. Não contabilizei quanto tempo eu estava com Calíope, deveria ser algo próximo aos seis, ou sete, meses. Fui aos poucos conhecendo mais sobre aquela menina, porém, ainda não me aprofundando o bastante. Sempre estava na faculdade ou no trabalho, sempre nos víamos na quinta ou na sexta, sem decidir de fato o que éramos. Minhas flores foram um início de capítulo entre nós, minhas flores significaram algo para ela, e para mim, como uma destruição de paradigma.  E numa sexta-feira, ao sair de uma livraria, Cléo aparece. Cabelos curtos, sorrisos amarelado (nicotina) fala forte, brilhante. Estava no último semestre de história, já pensando em dar aula, já programando sua vida para daqui a vinte anos.

Conheci Cléo num bar, conversando com amigos sobre Marxismo. Fiquei em silêncio ouvindo, realmente uma grande debatedora; mesmo sem possuir um único argumento racional, pós todos os outros bebuns da mesa no chão. Claro que os outros debatedores não eram grande coisa, mas, ainda sim fora impressionante. Sempre argumentava sorrindo e foi minha abertura de conversa. Disse que ela conseguiria destruir o patriarcado com um belo sorriso. Cléo ficou puta com isto, me chamou de machista e etc. Depois eu a encontrei em uma livraria, eu estava tentando furtar um volume avantajado de Ernest Hemingway, porém não encaixava de maneira igual no meu grande casaco. Cléo notou o que eu estava tentando fazer, e sorrindo disse que, os melhores livros para serem furtados são os de bolso. Eu disse que ela estava tentando ensinar o padre a rezar missa, mas, de fato, os de bolso eram melhores. Rimos. Estes risos eram mais sinceros. Não lembro se ela se recordou do meu rosto; mas, não importa. Rimos e nos conhecemos.

E agora, depois de alguns anos, Cléo aparece mais uma vez, a terceira, e Calíope está puta da vida. Decidi encerrar o assunto ali, perguntei se ela não queria ir para minha casa, dormir lá, mas ela recusou, disse a mãe que chegaria cedo, e estava preocupada, a irmã não tinha chegado ainda. Eu não tinha conhecido a mãe de Calíope ainda, também não tinha conhecido sua irmã, realmente não sabia onde Calíope morava de fato, sempre era faculdade ou trabalho, dificilmente estava em casa, dificilmente tinha uma vida além destes dois universos. Ela se manteve em silêncio toda a extensão do caminho. Olhava para as coisas que passavam rapidamente na janela: as pessoas; os rostos; os gestos; os sentimentos, Chuva, logo todos correm, se abrigam, procuram uma proteção idiota para uma mera intervenção natural. O trânsito começa a ficar um tanto quanto complicado. Logo os carros param, logo tudo para, e o vapor do fim de tarde sobre, esfumaça tudo. Calíope pediu para deixá-la onde pudesse pegar o ônibus. Disse que eu a levaria em casa, e ela se recusou. Nunca deixou que eu a levasse em casa, queria que eu conhecesse sua mãe de uma maneira mais apropriada. A água brilhante mesmerizava as cores dos faróis, tudo era uma faixa vermelha de luzes de freio piscantes, um natal no meio do ano, árvores cinzas, como um vulcão morto, como uma dádiva demoníaca. Sim, o demônio está nos detalhes, nos sorrisos e nas xotas.

Cléo tinha uma tatuagem no seu púbis. Fizera com dezesseis anos, numa noite de loucura. Era um pequeno coração negro. Me disse que representava o seu desejo, eu perguntei “sexual?” ela me disse que não tão representativo, mas o desejo de ser amada por alguém, de verdade. Trepamos depois do terceiro ou quarto encontro, isso faz tempo, uns dois anos antes de Calíope. Seu coração negro, próximo a entrada da boceta, que, as vezes escondiam-se nos pelos pubianos crespos, as vezes aparecia quando Cléo decidia raspá-los. Ainda não havia mensagem no espelho, nem garrafa de Coca-Cola no chão. Não havia Tália e morte, mas algumas outras já e orbitavam. Cléo estava lá, fumando o seu cigarro pós transa. Agora, não estava mais, era apenas um sorriso na multidão, um motivo para Calíope ficar puta, pois, estas mulheres eram sombras na minha vida, na vida de Calíope, de qualquer outra. Não sei se deveria matar o filhote no ninho e dizer, naquele momento, preso ao trânsito, que eu e Calíope não daríamos certo. Porém olho para aquele pescocinho branco, os cabelos amarrados com um coque, e os grandes olhos de bode visualizando o dia à dia do lado de fora, com a chuva limpando as ruas das pessoas.

Porra, também não consigo parar de pensar em Cléo. Eu e Calíope estávamos vendo uns livros quando ela simplesmente apareceu e perguntou como eu estava. Olhou para Calíope e a cumprimentou com um fechar de olhos e um sorriso meia-boca. Disse que ela continuava linda e falamos um pouco sobre a vida. Calíope calada. Nos afastamos e aquele momento agora faz parte do passado porém, reverbera no futuro. Na mente de Calíope, com todos aqueles caminhos de rato e sentimentos, e na minha mente com as lembranças de trepadas passadas e conversas regradas a álcool e, as vezes, alguma maconha. Riamos, riamos, riamos. Minha língua ia do coração negro até os grandes lábios. ela gemia, gemia, gemia e daí trepávamos mais e mais. Cléo se mostrou uma grande conversadora, o segundo momento agradável entre nós eram os debates, sempre posições distintas dos mesmos assuntos que terminavam em entendimento de porra nenhuma. Minha cama foi o maior palco de amor e ódio nos últimos tempos. Deste palco nada sobrara além de memórias de ódio, romances amorosos e poucas manchas e marcas de cigarros apagados ao dormir.

Mas ela me esperava na porta, sentada. Calíope tinha tomado o destino de casa e eu o meu destino. Ainda encontrei Gregório nos corredores, ele me disse que depois passasse por lá e eu confirmei. A silhueta da garota sentada à minha porta. Assustei-me por um instante, poderia ser Tália, mas era Cléo. Perguntei o que havia, ela me disse que esperou por mais de uma hora, respondi que tinha sido o trânsito. Abri a porta, ela entrou atrás de mim, comentou que tudo estava do mesmo jeito, e sim, tudo estava do mesmo jeito. Preparei nossos drinks e sentamos à cama. Conversávamos, ela me perguntou quem era Calíope e eu contei toda a história até este exato momento. Cada gole mais um grau etílico era acentuado, cada gole e mais um sentimento adicionado. Disse que foi uma surpresa tê-la encontrado naquela livraria e Cléo me dissera que já tinha me visto antes, mas tinha sido difícil superar nosso término.

Perguntei que término tinha sido este.

Cléo me respondeu: sim, me amou, amou de verdade, mas não sabia se deveria progredir naquela loucura, no mesmo tempo, quando eu havia ficado com ela, também estive com algumas de suas amigas e não havia exclusividade na nossa história. Disse que queria sentir-se especial com alguém, que eu não era esta pessoa que a fazia sentir-se especial, pois sabia que eu poderia descartá-la quando estivesse no máximo da sua felicidade. Mas, também me dissera que, no fundo também era grata por ter avisado que eu a faria sofrer, que antecipara esta dor na aventura. Sim, que cordial eu sou. Agora ela queria mais um pouco de aventura e, depois de meia garrafa, lá estava eu, olhando para a tatuagem de coração negro próximo aos grandes lábios. Imagino o tatuador que fizera aquilo naquele púbis, cara de sorte, não tanta sorte como a minha, já que ele, como artista, supostamente só viu o que eu irei aproveitar. Lá estava eu, entre aquelas pernas, lambuzando tudo, fazendo o meu maior feito. Quando estou com a boca numa boceta tudo se torna aquela boceta, nenhum problema, nenhuma alegria, nenhuma tristeza, apenas aquele momento importa, os gemidos, os risos, os puxões, as dores, os arranhões. O coração negro estava um pouco encoberto por uma fina penugem preta. Sinto saudade dos grossos pelos pubianos, davam um ar superior para aquelas bocetas, e não um ar bobo, juvenil, como se aquela vagina não tivesse uma experiência, fosse sempre virgem.

E todos nós sabemos como são chatas as virgens.

Agora estou bombando aquela boceta, como nos velhos tempos, bêbados, fodendo, sofrendo a dores e as algúrias de uma vida comum, primitiva, forte, abstrata. Cléo fica de quatro, um mulherão, parecia um cavalo de corrida. Enterro meus dedos naqueles cabelos e fodo, fodo, fodo, até gozar tudo. Tudo que estava dentro de mim agora está dentro de Cléo, como todas as outras vezes. Rimos, falo para ela “como nos velhos tempos” e rimos de novo. Cléo sorri, vestindo-se. Pergunto o porquê dela ir embora assim, tão cedo, ela disse que queria apenas matar uma saudade, que eu já era de outra pessoa. Queria apenas relembrar uma velha história para que tivesse certeza não ter sido uma estória. Cléo me disse que estava esquecendo como era minha voz, e, agora lembrou o quão grave era. Ela não entrou no banheiro, não viu o “eu te amo” muito menos a  garrafa de Coca-Cola, que jaz impraticável. Mas, mesmo assim, como todas as outras, foi-se embora, no limiar da madrugada. E a noite me fora agradável e solitária. Decidi matar o resto do álcool na garrafa e escrever mais alguma coisa, as batidas nas teclas do notebook foram até o mais profundo da madrugada, até que adormeci por completo numa penumbra sem sonhos, sem dores, sem lamentos, apenas gozo, chupadas, fodas e penetrações.

Mas acordei com batidas na porta.

Desde os acontecimentos com Tália eu me assusto com estas batidas. Olho no olho mágico com medo de alguém enfiar uma furadeira e me cegar, sempre tive isto. Me surpreendo, peço para esperar enquanto me visto com um mínimo de decência. Abro a porta e Dona Mônica adentra, lentamente, como uma zebra assustada. Pergunto para ela qual o motivo da visita e ela diz que Tália estava sumida há alguns dias. Saiu e não voltou. Eu disse que ela era envolvida com muita gente que não presta, mas Mônica me disse que Tália tinha um mínimo de responsabilidade. Dei um riso interno, sabia que Tália estava numa linha reta sem volta, ainda mais com Henrique orbitando todos os seus atos. Não poderia ajudar Mônica, não poderia fazer nada, uma vez que a própria Tália quase me matou, mas os olhos daquela mãe desesperada mexem comigo, disse para que ela me acompanhasse, que eu não sairia do carro, mas levaria aonde ela poderia estar. Dai dentro do carro, eu e Mônica mantínhamos o mesmo silêncio de Calíope, e foi pensando em Calíope que todos os pontos começaram a ligar e meu coração começou a bater mais acelerado, Mônica começa a falar impedindo o meu pensamento de focar alguma coisa, droga, os pontos estão se ligando, e tudo fazia sentido, eu simplesmente deixei passar.

Mônica desceu do carro, foi até o lugar onde era conhecido a boca de fumo. Fiquei escondido, evitando ser visto. Depois ela voltou com Tália, hiper drogada, cambaleante. Colocou a menina no banco de trás e partimos. Mônica deixou dois mil reais nas mãos de Henrique. Tália estava completamente alucinada, falando merda para todos os lados. Queria bater na mãe. Eu apenas dirigi para a casa delas, em silêncio, fazendo o óbvio silenciar-se na minha mente, mas não conseguia, eu me chamava de burro, de idiota, de estupido, de imbecil. Eu queria me jogar do carro num rio fundo. Estava sentindo um ódio, uma vontade de morrer. Burro, burro. Tália estava dopada, tinha começado no Crack, dificilmente irá sair desta, completamente viciada, três dias sumida, usando tudo que podia, tentando morrer. Seu sorriso não estava mais tão feliz, seu sorriso era apenas uma mancha escura no seu rosto. Repetia algo como “amou, amou” mas apenas eram balbucios de uma menina que teve o cérebro consumido por alguma coisa comum, pelo cotidiano, pela auto-destruição. Mônica cuidava de Tália como uma mãe cuida de uma filha pequena, eu dirigia. Era para irmos até um hospital, mas Monica insistiu para irmos até usa casa, ela teve um irmão viciado, sabe como lidar com isto. Claro que na sua voz a entonação de, “também é culpa sua” fazia-se crescente. Sim, também era culpa minha, Tália era uma menina, nada mais, apenas uma boba no meio de cegos, isso não a faria uma rainha. Ela queria viver intensamente, certo, faz parte, mas dei corda, fui com ela nesta mesma toada, sim, minha responsabilidade, sim minha vontade de deixar as coisas apodrecerem. Tudo isso porque Tália trepa bem, muito bem, tão bem quanto Cléo, Euterpe, Teresa e Calíope. O impulso leva a morte, ao vício, a dor. O impulso é isso, um gesto animal, um resto podre e ardido de uma verdade nua e crua. Tália representava isto na sua dor, na dor do excesso, na dor do fundo do poço. Se Cléo foi o passado, Calíope o presente, Tália não apresentava ter futuro. Agora ali, morrendo, sem seu Deus Ex Machina, tudo faria um sentido inverso, uma palavra amoral, uma dor, dormência.

Vou dar banho em Tália. Ela tatuou um coração negro no púbis. Isto era coincidência? Ela precisava de um banho frio, Mônica preparava um chá com remédios e outras milhares de coisa. Tália teria que ficar presa dentro dum quarto durante muitos dias, para desintoxicar, Mônica disse que não era a primeira vez que fazia isso. Mas daquele coração negro no púbis? Quando vi eu me assustei, como um Déjà-vu, uma impossibilidade que tornou possível. Claro que a tatuagem era tosca, era a marca de Henrique em Tália, a marca do seu ciumes e do seu descarte. No fundo eu e Henrique éramos semelhantes, apenas usávamos as pessoas.

Com o abrir da porta apenas o óbvio acontece. Escuto uma conversa entre Mônica e uma voz conhecida, depois um “ela está lá no banheiro com o namorado” e por fim os olhos arregalados para mim e para Tália, desacordada sentada no chão do box, com a água escorrendo em seu rosto. Calíope apenas ficava imóvel, com os olhos arregalados. Uma lágrima escorreu e ela saiu. Fiquei na encruzilhada, entre uma desacordada caída no chão e a outra, com as lágrimas refletidas no espelho do banheiro.

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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