Textos

Na noite anterior da queda.

Não há uma resposta certa para o que ela queria, nem a pergunta extraordinária. Quem acorda pela manhã com santa disposição para amar o mundo? Talvez quem despencasse de uma janela pela manhã seria notícia pelo resto do dia. Quem dera brincar com os sentimentos alheios, sem sair queimado disto; quem dera. Sempre falo das mais novas, talvez meus leitores pensem que eu sou algum tipo de doente. Eu, realmente, prefiro as mais velhas, pois já estou cansado de precisar ensinar as coisas paras todos. Garotas muito novas, possuem diversos hábitos que apenas o tempo poderá apagar; bem, o filósofo Jagger já disse certa vez que: “velhos hábitos nunca morrem”, te dou pura razão, este hábitos, principalmente os piores, dificilmente morrerão.

Bem, ela decidiu acordar, numa bela manhã, e se jogar pela janela. Virou notícia pelo resto do dia. Parte do noticiário retratou o estado que ficou o corpo, duma queda do vigésimo andar, de cara no meio fio; outro jornal entrevistou a família; garota boa, classe média, estudante, queriam culpar alguém, é necessário que exista um culpado, senão, sua morte não fará o menor sentido e, como sabemos, apenas a ficção precisa ter sentido. Outro jornal me entrevistou – demonstrando meu péssimo gosto para cuecas samba canção e camisas floridas – tomaram meu relato, de amante não tão preocupado, bêbado as sete da matina, procurando identificar naquele rosto esmagado algum traço do anjo que ela foi.

– Quantos anos ela tinha? – perguntou a repórter, cabelos cacheados cumpridos, blazer e saia hiper sociais, pernas fantásticas, salto alto. Ela, ainda sim, menor do que eu, porém me senti diminuto, tamanha a sua profissionalidade.

– Ela me disse que tinha vinte – respondo vislumbrando o esmagado rosto da menina ao chão.

Seria uma merda, teriam que me investigar, eu perderia uma grande quantidade de tempo nas delegacias, e uma outra quantidade de dinheiro com os abutres advogados. A guria caiu da minha janela e misturou-se ao asfalto, e todos queriam um culpado, e tenho todos os traços para este perfil, Não me preocuparia com isto agora, talvez nem amanhã, nem depois. Os repórteres continuaram com sua caça, cada pergunta, cada pedaço, cada informação. Meu rosto ficará conhecido em todas as televisões. A repórter de cabelos cacheados ainda me entrevista, porém, eu não consigo mais olhar seu rosto, apenas vejo a massa de sangue que borbulha no asfalto frio daquela manhã. Como um sonho realizado da donzela em perigo, como o júbilo da dulcíssima morta e desencarnada. Há muito tempo que eu não via um cadáver, e nunca tão fresco quanto este.

A repórter contínua com suas perguntas: quem; o que; quando; onde e como. Ela não pergunta como eu estou, ou o que estou sentindo. Vejo que sou, também, um suspeito, o maior suspeito. Digo que nos divertíamos, nos conhecíamos há uns cinco meses, seis, talvez, mas nada muito sério. Conseguiu um emprego de jovem aprendiz na biblioteca onde frequento e, logo, ficamos amigos, logo estaríamos fodendo, todas as semanas. Digo também a repórter que deixei bem claro que sou alguém ácido, cítrico, tóxico. Não me apaixono e nem gosto de apaixonar, não tenho apego. Um sociopata? Psicopata? Não sei, apenas um miserável sem coragem o bastante para morrer. Ela, que não é mais ela, agora apenas integrará eternamente ao asfalto, e alguns minutos no telejornal, talvez fosse uma grande sonhadora, não sei. Digo a ela, na noite anterior, que para não ser esquecido precisaria de apenas um ato notável.

– E se eu morresse? – a moribunda pergunta na noite anterior da queda.

– Você não teria sentido. Se vive buscando fazer algo tentável ou morra tentando, trabalhando, vivendo. São muito poucos aqueles que terão a estrela brilhante e não serão ofuscados pela grande realidade da vida. Você tem como uma opção simples: viver a merda, ou virar merda.

Nunca imaginei que ela levaria isto tão a sério.

– E por que ela se jogou? – a pergunta chave da repórter.

– Eu estava na cama, tínhamos ficado a madrugada em claro, ainda meio bêbados. Ela me disse que tinha tentado se matar umas duas vezes, mas não tinha coragem. Ela acordou feliz, colocou que estava radiante, no aplicativo de celular que mede seu humor. Eu estava sorrindo para ela, quando, simplesmente ela se virou para mim, agradeceu e se jogou pela janela. Fiquei com meu copo na mão durante alguns minutos. Ela queria uma resposta para uma pergunta extraordinária, a resposta certa que não haveria. Há muito era penas feliz nos sonhos, agora, ninguém mais sabe o que é.

– Daí ela se jogou?

A pergunta era idiota demais para ser respondida. Ninguém soube notar aquelas sinais autodestrutivos, ninguém soube notar a contagem regressiva. É quando estamos no auge da nossa felicidade que somos realmente perigosos.

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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