Crônicas

Ayahuasca

– Cara, agora eu estou me sentindo velho mesmo. Está vendo aqueles dois ali no carro? Fui eu que apresentei um para o outro, uns cinco anos atrás, e agora eles vão se casar!

– Porra Norman, você acabou com a vida deles, cara. Por que você fez isso?

Eu respondi, sendo irônico. Norman ficou sem reação, Arthur começou a rir.

– Cala boca, David.

Era o aniversário dele. Ele havia conseguido me convencer a ir a uma festa na casa da família dele, com os amigos dele. Eu sentia como se não fizesse isso há anos, interagir com muitas pessoas. Eu ainda estava me recuperando depois de Sâo Paulo.

Mas Arthur estava lá, e ele queria conversar comigo desde que eu havia feito uma “pergunta inteligente” em uma aula, citando Nietzsche. Ele havia pedido para ler uma redação que havia feito sobre pós verdade para a aula, e disse que o texto estava foda e eu merecia um dez. Eu disse que havia mentido no texto para ganhar nota e que não concordava realmente com o que havia escrito. Isso talvez o tenha impressionado ainda mais.

Eu estava evitando conversar com ele, por que como disse, estava evitando interagir com pessoas novas desde São Paulo, e ele parecia ser outra daquelas pessoas que tem muito a aprender com você, mas pouco a oferecer em troca, e eu não estava mais com saco para aquilo. De qualquer forma, eu acabei conversando com ele durante toda a festa, e até que foi bom filosofar com outra pessoa depois de tanto tempo. Saímos da casa para fumar, e foi aí que vimos Norman sendo nostálgico. Quando entramos de volta na casa, ele disse:

– E aí, David? Você vai com a gente Sábado?

– Hum… Eu não sei, cara, não sei se estou bem pra ficar usando esse tipo de coisa.

– Eu acho que você ia gostar.

– Normalmente eu gostaria… Você lembra da vez que induzi uma bad trip em mim mesmo com doce… Mas agora não sei… Não sei se estou bem para ficar mergulhando no meu inconsciente… Não sei se vou gostar do que vou ver…

– Gostando ou não, pode doer – Arthur disse – mas eu quero ver.

– Eu já fui assim – eu disse, me sentindo mais fraco do que já fui um dia. Olhando para Arthur, ele me lembrava a mim quando tinha 19 anos (talvez por isso eu não quisesse falar com ele), mas agora os dois estavam me convidando para ir até um espaço xamânico para usar ayahuasca.

– Eu vou pensar.

Sábado eu estava no carro de Norman com eles, indo para lá.

O espaço era bem retirado, mas agradável. Havia algumas estátuas de diferentes egrégoras e algumas pessoas vestidas de branco. Havia também algumas coisas a venda, como camisetas, brincos, acessórios e pacotes de fumo que misturavam tabaco, camomila e outras ervas, e que algumas pessoas fumavam em cachimbos artesanais.

Assim que entramos, tivemos de preencher uma ficha que perguntava coisas do tipo que drogas você costumava usar ou já tinha usado. Eu hesitei antes de responder, mas Norman me disse que não tinha problema. Assim que entreguei a ficha, assinei uma lista de presença e perguntei para uma das mulheres:

– Eu posso fumar aqui?

– Ah, infelizmente não, só lá na rua.

– Ah, tudo bem.

Fui andando em direção a rua, e Arthur me seguiu. Disse a ele:

– Quer dizer que fumar tabaco com camomila tudo bem, mas cigarro não pode?

– Eles devem ser contra produtos industrializados – ele riu e respondeu, com ironia.

Depois que fumei, fomos chamados para que o evento começasse. Havia umas oitenta pessoas no lugar. Entramos em um grande salão cheio de incenso e imagens de santos e nos sentamos em cadeiras de plásticos com nossos casacos e cobertores. Depois de um grande discurso da sacerdotisa, a primeira dose da “medicina” foi servida. Era grossa, e deixou um gosto parecido com o de shimeji no fundo da minha boca. Mas não senti nada.

A sacerdotisa ligou um aparelho de som e músicas de diversas culturas e religiões começaram a ser tocadas, alternando-se com áudios de alguns testemunhos e psicografias, como o de uma mulher que havia canalizado o arcanjo miguel. Uma hora se passou, e eu estava com frio, com sono e entediado. Achei que aquilo não faria efeito em mim. Pedi para deitar, e um dos terapeutas me levou até um colchonete no canto da sala, no chão. Minha ideia era dormir e acordar para ir embora assim que Norman tivesse terminado com aquela palhaçada.

Algum tempo depois, me chamaram para uma maca, onde fariam um tipo de limpeza espiritual. Assim que deitei, um dos terapeutas passou o dedo pela minha cabeça e disse:

– Por que você franze tanto a testa?

– Ah… Sei lá.

Eu não havia percebido até aquele momento, mas parece que ultimamente minha expressão padrão no dia a dia envolvia franzir a testa. Minha Resting Bitch Face devia ter piorado nos últimos anos.

– Muita preocupação?

– Acho que sim…

– E com o que você se preocupa?

“Puta, cara”, pensei, “por onde começar?”. Minhas preocupações eram mais existenciais e envolviam ver a morte como o fim de tudo, então eu achei que seria difícil discutir isso com um xamã depois de ouvirmos um áudio de uma mulher psicografando o arcanjo Miguel e falando do ciclo de reencarnações e saltos quânticos da humanidade. Por sorte, antes que eu pudesse responder, ele disse:

– Não responde não, só pensa.

Me senti aliviado. Apenas relaxei e deixei que ele continuasse com os gestos manuais e espirrasse mais água perfumada em cima de mim. Uma hora ele colocou as mãos sobre a minha cabeça e disse:

– Não se preocupa não, irmão. Quando você para pra pensar e olha, isso aqui tudo em volta é só uma matrix.

“Eu concordo com você, cara”, pensei. Um dos motivos de me sentir deslocado em meio a todo mundo era enxergar a vida como um jogo, um grande teatro, onde você podia simplesmente participar ou não. “A diferença é que você acha que depois que o jogo acaba você vai para outro lugar, enquanto eu acho que é game over”, pensei. “Vai ver é por isso que você fica aí sorrindo enquanto eu franzo minha testa”. Level Up ou Game Over? Eis a questão.

Voltei para meu colchonete e tentei dormir de novo. A dona do lugar passou oferecendo mais uma dose. Eu queria dormir, na verdade, mas pensei “bom, eu paguei por isso, e já estou aqui mesmo, não é?”, então aceitei mais uma dose e fechei os olhos.

E foi aí que tudo começou.

Primeiro vieram os vermes. Surgiam de pontos luminosos e coloridos que se transformavam em vermes com bocas e dentes humanos, dezenas deles. Riscos pretos surgiam e era como se eles tomassem conta de tudo, e isso foi enquanto eu estava de olhos fechados.

Quando abri os olhos, vi todos os participantes sentados nas cadeiras, cobertos por seus cobertores brancos, o que faziam parecer que uma grande teia os unia. Meu cobertor cinza parecia se unir com o chão e as paredes que também estavam cinzas pela falta de luz. Os terapeutas andavam pela sala, também cobertos e pareciam fantasmas que vagavam pelo salão. Tudo pulsava como se fosse vivo e conectado e em alguns momentos eu pensei que poderia estar em outra dimensão. Talvez seja isso que Lovercraft sentiu para escrever seus livros de R’lyeh, o plano incompreensível pelos humanos.

Me cobri com o cobertor, tentando limitar os estímulos externos. Não reconhecia mais meu corpo. Toquei meu rosto, mas, apesar de sentir o toque, sentia como se minha mão estivesse um metro para o lado. Toquei minha barriga e também senti como se ele estivesse em outro lugar. Uma hora senti como e tivesse três braços e mãos.

Depois de ir e voltar do inferno algumas vezes, sendo fragmentado e reconstruído, eu consegui me controlar o suficiente para ficar de pé. Caminhei para a porta de saída do salão, vendo diversas pessoas no chão e nas cadeiras e ouvindo os sons de vômitos que vinham do quintal. Era o tal do rapé, que eles diziam que servia para purificar o organismo. Eu usei o mesmo critério do “já estou aqui mesmo” para ir lá.

Sentei na frente de um dos terapeutas e ele soprou aquela merda no meu nariz. No dia seguinte fui descobrir que aquilo era pó de tabaco, que é viciante e que muita gente usava isso no passado, e me perguntei como alguém prefere se viciar nessa merda ao invés de simplesmente fumar. Vomitei pra caralho. Vomitei com tanta força que meus músculos abdominais e torácicos ficaram doendo por mais dois dias.

 Depois disso ele soprou mais pó na minha outra narina e eu vomitei mais. Eles disseram que tinha que soprar nos dois pra não ficar “desequilibrado”. Vou me lembrar disso da próxima vez que for dar uns tiros. Aquela talvez tenha sido uma das piores sensações que eu já senti na vida. A música tribal e repetitiva continuava tocando e parecia que nunca mais ia parar, e fazia eu continuar vomitando, mesmo que não houvesse mais nada em meu estômago.

No fim, consegui me controlar. Dois terapeutas me ajudaram a me levantar e me colocaram sentado perto de uma fogueira, no quintal. Algumas pessoas dançavam ao redor dela, ao som de uma música bem mais suave do que a anterior. Outras apenas dormiam em colchonetes espalhados pelo chão, parecendo exaustos, e com razão, se tivessem passado pelo mesmo inferno que eu havia passado para chegar até ali.

Não sei se foi o uso do rapé, ou se foi apenas coincidência com o término do efeito da ayahuasca, mas eu estava completamente sóbrio. Estava fisica e mentalmente exausto, como se tivesse passado por um treinamento intensivo em uma academia seguido de um exame de vestibular.

Eu me sentia bem, mais leve, talvez até mais “limpo”. Mas isso parecia mais com quando você come algo estragado, tem uma tremenda diarréia e aí se sente desintoxicado depois. A sensação é boa, mas toda a dor pela qual você passa para poder senti-la talvez não valha realmente a pena. Isso sem contar os vermes e as alucinações.

Norman e Arthur gostaram da experiência, disseram que viram “animais do poder”, e coisas assim. Vai ver o problema era comigo. Vai ver eu não estava realmente bem para usar esse negócio. Ou vai ver essa é só uma droga que provoca bad trips bizarras e as pessoas viajam demais em cima delas e acabam inventando histórias.

Anúncios

Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

0 comentário em “Ayahuasca

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: