Textos

Como Lidar com Bipolares

Uma coisa que tem me surpreendido recentemente é como existe sabedoria em certas frases ou ditados no dia a dia que as pessoas – ou pelo menos eu – desprezam como sendo clichês. É que essas frases acabam sendo ditas tantas vezes por pessoas hipócritas que não acreditam realmente nelas, ou que não entenderam realmente o que elas querem dizer, que acabamos achando que a frase é tão idiota quanto a pessoa que está dizendo, e que ela não funciona. Mas se você as examina mais de perto, verá que muitas delas fazem sentido.

Um exemplo disso é a forma como minha família tentou me ensinar a lidar com outras pessoas em brigas ou discussões. Existe aquela frase em que dizem “se você entra na briga deles, você acaba perdendo a razão”, e que o melhor a se fazer é ignorar. Claro que dizer isso a um adolescente que, como todo adolescente, não tem um bom controle emocional, que sofre com a idiotice dos zumbis em volta dele e que todo dia tem que lidar com provocações e lutas de ego, não ajuda muito. Nunca me ajudou. Mas agora eu consigo ver a sabedoria nisso.

Digo isso, por que nos últimos anos eu tive que lidar com vários zumbis de um certo tipo psicológico que é muito comum hoje em dia. Trata-se daqueles a quem chamo de “defensores da pátria”, “paladinos da justiça”, aqueles que compraram a ideia de que são pessoas boas simplesmente por que acreditam em ideias abstratas como “empatia”, “justiça”, “igualdade” e que se acham revolucionárias por mudarem a foto de perfil nas redes sociais, colocando frases do tipo “luto contra tal coisa”. Se acham guerreiros, quando na verdade, tudo o que fazem são publicar textos em seus perfis em troca de curtidas para aumentar sua auto-estima.

Por um tempo, eu tentei explicar minhas ideias a eles. Na minha ingenuidade e egocentrismo, admito, eu pensei “bom, se eu consigo ouvir ideias contrárias às minhas e argumentar sobre elas sem me transformar em uma criança birrenta, talvez esses zumbis também consigam”. Mas eu percebi que eles não conseguem. Eles sentem raiva e ódio do mundo ao redor deles, e disso eu entendo. Assim como o Batman escolheu quebrar ossos de bandidos a noite para lidar com seu ódio ao invés de fazer terapia, essas pessoas escolheram projetar sua revolta pessoal e seus conflitos internos em causas sociais, por que assim como quebrar ossos de bandidos, fazer isso é mais fácil do que olhar para si mesmo.

Depois que eu percebi isso, e depois que tive a humildade de perceber que toda minha revolta e minhas ideias, assim como as que eu escrevo nesse texto, são apenas resultado de minha visão individual e única da realidade e que ninguém tem nada a ver com isso, eu resolvi parar de tentar me explicar. Mas isso não foi o bastante. Não. Por que essas pessoas precisam brigar. De novo, é como o Batman: Quando ele tenta parar de quebrar ossos de bandidos ele se torna um alcoólatra que ouve vozes e tem pesadelos, e não tem escolha a não ser voltar a ativa*. Então mesmo que você tente não se envolver, mesmo que você só queira ficar quieto na sua, não incomodar ninguém e não ser incomodado, eles não permitirão que você faça isso.

Eles se aproximam de você e começam a falar sobre suas ideias e seus valores, mesmo que você queira saber.  E aí eles perguntam o que você pensa a respeito, e continuam insistindo até que você fale. Não por que eles querem realmente saber o que você pensa, e sim por que querem que você concorde com eles. Eles precisam disso para validar sua existência. São como fanáticos religiosos, eles precisam te converter.

Eles não aceitam a ideia do “não saber”, da “imparcialidade”, do “não envolvimento”, de “ficar em cima do muro”. Eles dividem toda a infinidade de valores e ideias filosóficas a respeito do mundo em duas categorias: Direita e esquerda, coletivismo ou egoísmo, inclusão ou exclusão**, e se você não está a favor, você está contra eles. E a missão deles é fazer com que todos passem para o lado deles. Chamam isso de “pensamento crítico”.

Então o tempo todo você é chamado para lutar nesse delírio bipolar que dá sentido à vida desses zumbis. Se você concorda com eles, obviamente a missão deles foi cumprida, e sua existência foi validada, ninguém duvida disso. Mas o que não é tão fácil assim de perceber, é que se você discorda deles e entra na briga, a existência deles é igualmente validada, senão mais, do que se você concordasse. De qualquer forma, eles ganham.

Isso acontece por que, quando você faz isso, encarna no papel de “inimigo”, e esse é um papel essencial para manter qualquer delírio bipolar funcionando. Se você concorda com eles, é mais uma alma que foi salva graças a sua bondade, e suas ações foram justificadas. Mas se você discorda, é a prova de que eles são necessários nesse mundo, pois ainda existe muito mal – você – que deve ser convertido. Ou destruído.

Então o que resta fazer? Como escapar dos delírios alheios? É aí que me lembrei sobre a ideia de simplesmente ignorá-los. Parece algo estúpido, ineficaz, uma história que pais preguiçosos usam para ensinar seus filhos a lidar com bullying, já que “violência gera mais violência”. Mas não é. Eu percebi que o melhor a fazer é ignorá-los, não por algum valor moral, ou para evitar conflito, mas sim, por que isso os deixa putos.

Sabe aquela história de que se você matar um “herói” ele se torna mártir, e as coisas pioram, e que por isso o melhor a se fazer é deixar que ele seja esquecido? Funciona do mesmo jeito. Os behavioristas chamam isso de “extinção de comportamento”, que é como eles ensinam os pais a lidar com crianças birrentas, mas eu acho que é mais do que isso. Isso é anular, ao invés de validar, a existência deles. É demonstrar, como disse Rust Cohle, que tudo aquilo não passa de um grande drama, um sonho vivido em um quarto fechado***, e que não importa o quanto eles gritem, você não vai entrar.

Isso parece cruel, eu sei. Me chamem de egoísta, de frio, de alienado, falem que eu não tenho empatia, que não me importo com as causas sociais ou com as pessoas. Foi isso que ouvi minha vida inteira. Mas não sei, talvez essa seja ideia meio louca, mas pra mim, me parece muito mais egocêntrico, e até violento, ir até uma pessoa que só quer viver em paz e tentar obrigá-la a concordar com você e caso contrário, tentar convencê-la de que ela é a causa do mal que existe na sociedade.

Até por que eu nunca conheci uma dessas pessoas que não fosse um tremendo hipócrita, que se sente culpado pelas suas próprias ações e pensamentos, e aí quer converter o mundo todo numa tentativa de se redimir e se sentir um pouco melhor consigo mesmo.

Por que como eu disse: Isso é bem mais fácil do que fazer terapia.

 

 

* É o que acontece quando ele tenta se aposentar na HQ “The Dark Night Returns”.

** Uma das citações que os zumbis usam para justificar essa ideia é a de Paulo Freire: “Não existe imparcialidade. Todos são orientados por uma base ideológica. A questão é: sua base ideológica é inclusiva ou excludente?”

*** Rust Cohle é um detetive pessimista do seriado True Detective. A frase original completa é a seguinte: “14 horas direto encarando cadáveres, essas são as coisas que você pensa. Vocês já fizeram isso? Você olha nos olhos deles, mesmo em uma foto, não importa se eles estão vivos ou mortos, você ainda pode lê-los. Sabe o que você vê? Eles aceitaram isso… Não no começo, mas… lá no último instante. É um alívio inequívoco. Sabe, por que eles estavam com medo, e agora eles viram pela primeira vez o quão fácil era deixar tudo para trás. É, eles viram, naquele último nanosegundo eles viram… O que eles eram. Você, você mesmo, todo esse enorme drama, não foi nada mais do que uma presunção idiota que você poderia simplesmente abandonar. Saber finalmente que você não precisava se segurar com tanta força. Perceber que toda sua vida – todo seu amor, todo seu ódio, todas suas memórias, toda sua dor – era tudo a mesma coisa. Era tudo o mesmo sonho, um sonho que você teve dentro de uma sala trancada, um sonho de ser uma pessoa.”

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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