Textos

Um forte aperto de mão

Meu reflexo no espelho era estranho. Estava acima do peso, como sempre, vestindo uma camisa social, calça social e cabelos desgrenhados. Há muito deixei de me preocupar com minha barba, há muito deixei de me preocupar com minha calvície. Tinha deixado a vida correr, tal qual uma torneira aberta despejando água, matando a vida marinha, destruindo o planeta Terra. Que se foda o planeta, não pretendia ter filhos, muito menos que, se estes viessem, pegassem toda a merda deste mundo limpinha. Realmente, a única coisa que eu sempre nutri por esta porcaria de rocha fora raiva ódio e uma pitada de rancor, como se uma psicopatia intensa crescesse dentro de mim, e a única coisa que não me faria pegar uma arma e sair distribuindo balas pela vizinhança, seria meu senso de limite para algumas coisas. Descontava estas frustrações em outras coisas como sexo, álcool, cigarros e algumas pequenas coisinhas mais pesadas. No mais, imaginava meu cadáver putrefato sendo encontrado dias depois, morto pela overdose de algo que nos faz feliz. Quando a raiva se tornava muita, principalmente no trabalho, meu senso de dever me levava para o banheiro, bater uma punheta e esquecer de tudo. Eu fazia isto virado para um grande espelho sobre a pia. Neste espelho colaram um pedaço de plástico com a frase “você é um grande vencedor”. Dai eu batia punheta, era o vencedor daquela punheta.

Era estranho meu reflexo no espelho, ainda é estranho. Na época eu estava nas algúrias de um falido curso de Direito. Aprendi muitas utilidades para burlar a lei, aprendi que comer as estudantes, prometendo vagas de estágio inexistentes, era fantástico, aprendi que a sala 302 poderia ser trancada sem chave, daí consegue ganhar um boquete ou comer uma boceta nas sextas-feiras, onde o movimento era menor. Contraí parte da cirrose na época de faculdade, e todas as minhas dívidas também. Estava meio período num escritório de advocacia, limpávamos as merdas que o escroto do Governador fazia. Bem, meu ofício era usar uma roupa de almofadinha e servir café, aprendi pouco neste escritório, meu chefe, um idiota qualquer, nunca soubera que eu comi a sua filha – de recém completos dezesseis anos – no seu carro favorito. Que boceta maravilhosa, fica melhor quando fora cuidada como uma princesa da Disney, daí acaba com um fodido semelhante a mim, o orgulho do papai tem um segredo. Estava pensando nesta boceta enquanto batia uma, olhando para o espelho. A frase “você é um grande vencedor” me deixava cheio de orgulho enquanto meu pau ganhava uma massagem da pessoa que mais o amava. Pensava como um fodido igual a mim tinha chegado naquela altura, cuspindo em cafés, anarquizando o açúcar e agora, batendo uma punheta para tranquilizar. Tinha fumado maconha com a filha do chefe na semana passada. Ela me mostrou ser gente fina, mas fala muita merda, puxou o pai; esta geração toda sempre falou muita merda. Não tinha paciência para eles na época, da mesma forma que não tenho hoje.

Minhas calças arreadas até os joelhos, o grande saco pendido e o pau esticado aparecendo e desaparecendo nas minhas mãos. Era o calmante. Fiz operação de fimose, isso me fazia gozar mais rápido, então os primeiros três minutos de qualquer trepada eram sempre cruciais. As primeiras incursões sexuais foram uma merda por causa disto, mas aprender a se controlar faz parte da vida. Não gozar rápido, comer devagar, fazer regime, caminhada, corrida. Cuidar da saúde e não jogar canudos no oceano pacífico, ser um bom cidadão, não usar drogas, dar uma de doido ou fazer piadas malditas. As velhas piadas malditas, piores que qualquer coisa. Pensei em algumas delas, mas a boceta da filha do chefe não em saia da cabeça, como era deliciosa e como bater uma não se tornava melhor por causa disto. Me ver no espelho descabelando o palhaço tinha sua poesia, sua arte, sei lá, tinha algo de sensual nesta porra. Era mais narcisista quando novo do que sou hoje, talvez seja algo que se perca ao amadurecer. Eu estava naquele banheiro há uns cinco minutos, todos devem pensar que eu estou cagando, não sei. O governador deverá chegar logo, toda quinta-feira ele vai até o escritório, saber como estão as coisas. Meu chefe, normalmente é um babaca com todo mundo, ele chega às onze da manhã, e seu humor é tão variável que tenho certeza que ele menstrua pelo cu. Consigo saber se ele está bem quando fala com a filha pelo telefone sorrindo, depois toma sua dose de Scott; garrafa muito bem guardada na gaveta da direita.

Pensei na filha do chefe cavalgando no meu pau, pensei na sua boceta apertada, pensei na ideia de comer seu cu, pensei que ela tem uma amiga fantástica, que irei planejar um ménage. Pensei e senti vir, senti os vulcões adormecidos explodirem. Pensei nos Bayaka da África Central, que desconheciam o que era se masturbar e o que eles estavam perdendo. Tive pena de Robert Bailey, pelo seu insucesso de pedir que os Lese, povoado situado no Congo, se masturbassem para que ele pudesse colher algumas amostras. Eu encheria um caminhão de tubos de ensaio com minha porra, mas encheria muito mais a boceta do meu chefe, e da amiga dela, se possível. Queria ter nascido em Malta, onde foram encontrados os primeiros registros de masturbadores, uma estatua minha batendo uma em cada museu de história.

O jorro branco na mão, suco da vida. Sem isto não seriamos mais que micróbios. Bater uma faz de todo homem um genocida. Ainda estava com as calças arreadas quando bateram na porta me chamando. Meu chefe precisava cagar, antes que o Governador chegasse. Apenas subi as calças, limpei com papel  higiênico e voltei para o escritório. Meu chefe não se demorou muito, logo Claudette, a secretária, dissera que o Governador havia chegado. O lustre do ano de eleição o fazia ainda mais petulante, mais irritante, não sei se meu asco por estas figuras de autoridade começara com este sujeito, ou tem alguma causa Freudiana. Ele adentra na sala, sorrindo e falando alto. Conversava com alguém ao telefone. Seu terno muito bem alinhado, caríssimo, a basta de couro, brilhoso. Os sapatos devidamente lustrados. Seu rosto novo já apresentava profundos vincos, os políticos vão se deformando com o passar dos mandatos. Uma falsa educação o fazia falar com todos. Uma falsa educação que não me cativava. Ficamos em pé nos nossos postos de trabalho. Meu chefe foi falar com o governador. Trocaram sorrisos. Estes putos se viam toda a semana e ainda, sim tratavam-se como se não tivessem visto durante meses. O governador com seu sorriso falou com os outros funcionários, me deixando para o final. Sempre dizia: “Oh, então este é o estagiário, este garoto parece ter potencial” e me cumprimentava, e desta vez não foi diferente. Ele disse estas frases, mas me deixaria morrer de fome, se precisasse. Se dirigiu até a mim e estendeu a mão, o cumprimentei e ele esmagou meus dedos, como sempre o fez, machucando-me com seu anel de ouro com o simbolo da maçonaria. Imbecil deve ter comprado no Mercado Livre. O cumprimentei com força semelhante e ele sorriu, também sorri, os meus dentes amarelados aparecendo como ouro no meio da espessa barba. Não importava o quão poderoso aquele governador era, não importava que anos no futuro ele se tornaria o presidente da república, não importava quantas pessoas ele precisou matar para chegar até lá, para sempre aquele homem carregará a estigma de ter cumprimentado alguém que acabara de se masturbar. No fundo, quando ele esmagou aquela gosma vital da minha mão com a sua mão ele saberia, que, eu e ele tínhamos um segredo velado por um forte aperto de mão. Agora eu sabia que ele havia acabado de cumprimentar alguém que acabara de se masturbar.

 

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

1 comentário em “Um forte aperto de mão

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