Crônicas

A Mídia e os Ratos

O alarme do celular tocou as 5h20 como tem tocado ultimamente e eu me preparei para um novo dia. As 6h17, quando subi para tomar café, minha mãe estava ouvindo o rádio e eu ouvi a notícia de que a “menina Vitória”, a garota de 12 anos que havia desaparecido e cujo corpo fora encontrado, havia sido morta por “asfixia mecânica”. Só disseram isso. Não era nada sobre o início ou o desfecho do caso, apenas a causa da morte. E enquanto eu tomava meu café e me preparava para sair, me perguntei qual era a utilidade de saber, as 6h17 da manhã, que a garota de 12 anos morta havia sido enforcada.

Eu até entendo pessoas quererem saber o desfecho do caso de uma garota desaparecida, se ela foi encontrada, se a justiça foi feita, mas qual a relevância de saber o método pelo qual ela foi morta? Por que na verdade isso não muda nada na vida de ninguém que não esteja diretamente envolvido com o caso. Parece apenas mais um circo temporário da mídia: Uma criança morre e a audiência dispara. Pode ser a menina Vitória, a menina Isabella ou o Menino João. Ou podem ser outras tragédias, como aquela garota que sofreu o estupro coletivo, alguém se lembra dela? Ou a tal deputada que foi assassinada junto aos outros 18 políticos pela milícia no Rio? Ela continua presente?

As notícias têm prazo de validade. Ainda mais agora que os gênios descobriram a existência de “fake news”, elas são produtos que entram e saem das prateleiras e são consumidas em um tempo específico pela população. Hoje existem ainda algoritmos que permitem que nós vejamos apenas aquilo que queremos ver – como se já não fizéssemos isso antes, sem a ajuda das máquinas – o que torna esse mercado ainda mais competitivo. A consequência na prática disso é a existência atual de dezenas de grupos polarizados, tanto pessoalmente quanto nas redes sociais, onde todos se reúnem para falar mal do outro grupo, mas os grupos mesmo, nunca conversam entre si. Tornam-se “câmaras de eco”, onde os membros de cada grupo só repetem aquilo que querem ouvir.

Alguém com um senso crítico mais desenvolvido pode até perceber isso tudo e criticar a apatia com que todos os outros recebem o que é ofertado a eles. Ele sente raiva e critica, mas sabe que apesar de toda sua raiva ele é apenas um rato em uma gaiola, e se ele é consciente e os outros alienados, não importa, pois continuarão sendo ratos na mesma gaiola, condicionados a reagir da forma que esperam que eles reajam a estímulos externos, vindo do mundo de fora, que eles não sabem como é e nem têm ideia de como funciona.

No final, conscientes ou não, como acontece com esses ratos de laboratório, o grande experimentador nos levanta pelo rabo e corta nossas cabeças, pois já não estamos aptos a viver nesse mundo depois do que foi feito conosco.

Anúncios

Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

1 comentário em “A Mídia e os Ratos

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: